PRÓLOGO
Quase quatro séculos se passaram e o padre Jerônimo Gracián de la
Madre de Dios continua vivo na memória da Ordem e suscitando, naqueles
que têm a sorte de encontrá-lo, admiração e desejos de imitar suas
virtudes. Assim, o caso do Professor José Alberto Pedra não é uma
exceção. Será, no entanto, o resultado de tal encontro.
Quando soube
de sua reação entusiasmada, propus-lhe, imediatamente, que desse forma
escrita a seus estudos sobre o Pe. Gracián para tornar possível sua
divulgação.
Sendo
professor universitário, Alberto conhece o rigor científico, como o
demonstrou em outros escritos (“Edith Stein: uma santa em Auschwithz,
por exemplo), e certamente foi por essa razão que procurou recusar o
pedido que lhe havia feito, alegando que na historiografia da Ordem
ainda se sentia como um “novato”.
Mas aqui
exatamente está a melhor chave de leitura para este livro. Os
“novatos”, principalmente quando não estão envolvidos diretamente com
os fatos, tendem a ver o surpreendente, o novo, pois examinam com
muitos menos vícios e preconceitos os fatos históricos e, por esta
via, instigam os “especialistas” a olharem para algo que talvez lhes
tenha passado despercebido.
Aos que não
haviam ouvido falar do padre Gracián, José Alberto indica, com o
entusiasmo do descobridor, a existência desta figura luminosa que seus
contemporâneos consideraram “o luzeiro de Teresa”. A nós, que
acreditamos conhecê-lo... Chama nossa atenção e nos convida a recordar
ou a descobrir detalhes que não havíamos percebido. Enfim, convida a
todos a não nos conformarmos com o que ele nos conta, mas a
continuarmos aprofundando-nos no conhecimento da vida e virtudes do
padre Jerônimo Gracián de la Madre de Dios, bebendo na fonte de seus
escritos, principalmente as Cartas e Peregrinação de Anastácio,
esplendidamente editadas, em seu idioma original, pelo padre Juan Luis
Astigarraga, em 1989 e 2001 respectivamente. Escritos que esperam
tradutores entusiastas como José Alberto Pedra para chegar a um
círculo de leitores cada vez mais amplo e continuar difundindo a luz
da mensagem teresiana para proveito espiritual de toda a Igreja.
P. Ildefonso Moriones, OCD
Postulador General
PRÓLOGO
El
padre Jerónimo Gracián de la Madre de Dios sigue vivo en la memoria de
la Orden al cabo de cuatro siglos, y sigue suscitando admiración y
deseos de imitar sus virtudes en quienes tienen la fortuna de
encontrarse con él.
El caso del Prof. José Alberto Pedra no es una excepción. Pero lo va a
ser, en cierto sentido, el resultado de tal encuentro. Y es que,
cuando tuve noticia de su reacción entusiasta, le propuse
inmediatamente que la plasmara por escrito para poderla compartir.
Precisamente porque Alberto es profesor universitario y sabe de
seriedad científica, como lo ha demostrado en otros escritos suyos ("Edith
Stein: uma santa em Auschwithz", por ejemplo), reaccionó
disculpándose, pues en el conocimiento de la historia de la
Orden se sentia todavia un
"novato".
En ello veo precisamente la mejor llave de lectura para este libro.
Los "novatos", sobre todo cuando no estan "contaminados" por los
hechos directamente, suelen ver lo que les sorprende, lo nuevo, pues
examinan con menos vicios y prejuicios los hechos historicos y, por
este camino, invitan a los "especialistas" a mirar con más atención
hacia algo que quizá se les pasó desapercibido."
A quienes no habían oído hablar del padre Gracián, José Alberto les
indica, con el entusiasmo del descubridor, la existencia de esta
figura luminosa que sus contemporáneos consideraron "el lucero de
Teresa". A quienes creíamos conocerlo... nos llama la atención y nos
invita a recordar o a descubrir detalles que no habíamos advertido. Y
a todos nos convida a no conformarnos con escuchar lo que él nos
cuenta, sino a seguir profundizando en el conocimiento de la vida y
virtudes del padre Jerónimo Gracián de la Madre de Dios, bebiendo en
la fuente de sus escritos, comenzando por las Cartas y
Peregrinación de Anastasio, espléndidamente editadas en su lengua
original por el P. Juan Luis Astigarraga, en 1989 y 2001
respectivamente. Escritos que esperan traductores entusiastas como
José Alberto Pedra para llegar a un círculo de lectores cada vez más
amplio y seguir difundiendo la luz del mensaje teresiano para provecho
espiritual de toda la Iglesia.
P. Ildefonso Moriones, OCD,
Postulador General
APRESENTAÇÃO
É com grande alegria que apresento este livro sobre o Pe. Jerônimo
Gracián de la Madre de Dios, insigne carmelita descalço, discípulo
predileto de Santa Teresa de Jesus e seu dinâmico colaborador na
refundação do Carmelo na Espanha do século XVI.
Ao ler o livro não pude deixar de comprovar aquilo que a própria Santa
Teresa freqüentemente dizia: “a verdade padece, mas não perece”. O Pe.
Jerônimo Gracián, incompreendido e injustamente perseguido pelos
superiores de seu tempo, aparece em toda sua grandeza nesta biografia
clara e ao alcance de todos. Estou certo de que em um futuro próximo
ele será plenamente revalorizado.
O Centro da Ordem dos Carmelitas Teresianos, que represento como
Superior Geral, reabilitou, recentemente, o Pe. Jerônimo Gracián e
aceitou também a introdução de sua causa à beatificação e canonização.
Esta biografia escrita por José Alberto Pedra, Presidente do Carmelo
Secular de Curitiba, Brasil, contribuirá, sem dúvida, para dar a
conhecer essa grande figura do Carmelo.
Na leitura destas páginas se
vai descobrindo seu itinerário humano e espiritual: família, educação,
estudos, ingresso na Ordem, os grandes serviços que prestou à sua
família religiosa, a predileção que Santa Teresa teve por ele, as
incompreensões e perseguições que sofreu, seus sofrimentos, sua
espiritualidade profunda e evangélica, seus escritos.
Como Superior Geral do Carmelo Teresiano recomendo a leitura deste
livro, ágil e agradável. A história é a mestra da vida e muito nos
ensina com a vida das grandes figuras que deixaram marcas na época em
que viveram e continuam presentes em seus ensinamentos e em seus
escritos. O Pe. Jerônimo Gracián é uma dessas figuras. Ao início do
terceiro milênio, sua vida evangélica poderá servir de estímulo a
muitos cristãos, em particular aos membros da família do Carmelo
Teresiano, para viverem comprometidos com o projeto de Deus e para
enfrentar na fé os desafios de nossa época.
Roma, Ano Novo de 2003
Fr. Camilo Maccise, OCD,
Prepósito General
PRESENTACIÓN
Con mucho gusto presento
este libro sobre el P. Jerónimo Gracián de la Madre de Dios, insigne
carmelita descalzo, discípulo predilecto de Santa Teresa de Jesús y
dinámico colaborador de ella en la refundación del Carmelo, en la
España del siglo XVI.
Al leer el libro no pude
menos que comprobar aquello que la misma Santa Teresa solía decir: “la
verdad padece, pero no perece”. La persona del P. Jerónimo Gracián,
incomprendida e injustamente perseguida por los superiores de su
tiempo, aparece en toda su grandeza en esta biografía, clara y al
alcance de todos. Estoy seguro de que en un futuro próximo será
plenamente revalorizada.
El Centro de la Orden de los
Carmelitas Teresianos, que represento como Superior General,
rehabilitó recientemente al P. Jerónimo Gracián y aceptó también la
introducción de su causa de beatificación y canonización.
Esta biografía escrita por
José Alberto Pedra, Presidente del Carmelo Seglar de Curitiba, Brasil,
contribuirá, sin duda, a dar a conocer esta grande figura del Carmelo.
En la lectura de estas páginas se va descubriendo su itinerario humano
y espiritual: familia, educación, estudios, ingreso en la Orden, los
grandes servicios que prestó a su familia religiosa, la predilección
que Santa Teresa tuvo por él, las incomprensiones y persecuciones que
tuvo que sufrir, sus sufrimientos, su espiritualidad profunda y
evangélica, sus escritos.
Como Superior General del
Carmelo Teresiano recomiendo la lectura de este libro, ágil y
agradable. La historia es la maestra de la vida y mucho nos enseña en
la vida de las grandes figuras que dejaron huella en la época en que
vivieron y que continúan presentes en sus enseñanzas y en sus escritos.
El P. Jerónimo Gracián es una de esas figuras. A principios del tercer
milenio, su vida evangélica podrá servir de estímulo a muchos
cristianos, en particular a los miembros de la familia del Carmelo
Teresiano para vivir comprometidos con el proyecto de Dios y para
enfrentar desde la fe los desafíos de nuestra época.
Roma, Año Nuevo 2003
Fr. Camilo Maccise, OCD,
Prepósito General
INTRODUÇÃO
Em meu convívio com a
literatura carmelitana e com os carmelitas jamais tinha ouvido falar
no padre Jerônimo Gracián de la Madre de Dios. Talvez em alguma
leitura o seu nome tenha surgido, mas sem despertar, em mim, maior
curiosidade.
Hoje, acho estranho que assim
tenha ocorrido. Afinal, uma parte muito significativa das cartas
escritas por Santa Teresa de Jesus está dirigida a esse padre e
suponho que a minha atenção foi dele desviada pela força e a eficácia
das artimanhas daqueles que tudo fizeram para mantê-lo na escuridão da
história do Carmelo Descalço.
A palavra: “assombro” é,
certamente, a melhor para descrever o meu sentimento quando comecei a
ler “Peregrinação de Anastácio”, obra do Pe. Gracián. Os fatos ali
narrados – com ampla comprovação de documentos históricos – puseram
diante de mim um Carmelita Descalço de elevadíssima estatura. Um
mártir de seu tempo, praticamente executado por alguns de seus irmãos
de Ordem.
Foi perseguido, injuriado,
difamado e finalmente expulso da Ordem que, ao lado de Santa Teresa,
ajudou na fundação. Preso pelos muçulmanos, foi vendido como escravo e
nesta condição exerceu o seu apostolado missionário. Ajudou na
libertação de muitos cativos, até que chegou a sua vez de reencontrar
a liberdade. Liberto, não esqueceu sua condição anterior, moveu e
conduziu uma ativa campanha para angariar fundos e resgatar aqueles
que viviam sob cativeiro.
Por longos anos foi confessor
e conselheiro de Santa Teresa de Jesus e a ela recorria quando
necessitava de conselhos sobre suas atividades. Foi o primeiro
provincial da Ordem do Carmelo Descalço. Seu governo foi de brandura e
equilibrado discernimento. Grande era o seu prestígio, a tal ponto
que, sem dificuldades, fez seu sucessor.
Por que esse homem foi vítima
de tanta perseguição? Por que o expulsaram da Ordem que ajudou a
fundar? Por que tanto empenho para deixá-lo no esquecimento? O que
representava esse homem para despertar tanto temor? Por que somente
agora, no inicio do novo milênio ,foi reabilitado? São muitos os “por
quês”.
Esta biografia – pequena para
a estatura do Pe. Gracián – não pretende responder aos “por
quês”. Deixo tal tarefa aos historiadores. No entanto, o leitor
encontrará algumas pistas e poderá tira suas próprias conclusões.
Minha intenção foi, tão somente, expor de forma breve – como um
primeiro contato – a vida peregrina daquele que mais de perto viveu e
conviveu com a Mãe Fundadora do Carmelo Descalço: Santa Teresa de
Jesus e, no entanto, foi mantido oculto por quase 400 anos.
Infelizmente não posso
recomendar nenhuma biografia mais completa sobre a vida desse santo
padre, pelo simples fato de não existir. No entanto, àqueles que têm
acesso à língua espanhola, a “Peregrinación de Anastácio” é a obra
indicada. Trata-se de uma lúcida e detalhada autobiografia. É provável
que brevemente venha à luz uma tradução brasileira de tão importante
obra.
Por uma questão de justiça
devo alertar o leitor que as traduções de alguns trechos não são
literais. Busquei mais o sentido que a precisão. Ademais, algumas
expressões espanholas do século XVI, bem como as estruturas
gramaticais das orações, nem sempre correspondem diretamente àquelas
utilizadas no português contemporâneo. Isto sem mencionar os refrões
ou ditos populares que, se traduzidos “ao pé da letra”, ficam sem
qualquer sentido. Assim, o leitor que desejar beber diretamente da
fonte bem fará se buscar os originais. Isto não significa, contudo,
falta de rigor e critério. Busquei, em situações de dúvida, o auxílio
de pessoas acostumadas a lidar com textos históricos. Uma dessas
pessoas foi o Pe. Ildefonso Moriones OCD – reconhecido como arguto e
competente pesquisador da história da Ordem do Carmelo Descalço -
que, além de prestar-me aquele auxílio, deu-se ao trabalho, apesar dos
seus grandes e graves encargos como Postulador da Ordem, de rever os
originais desta pequena biografia. No entanto, qualquer omissão ou
opinião presentes nesta biografia é de minha inteira responsabilidade.
Não posso deixar de agradecer
às monjas do Carmelo de Curitiba por suas orações, amizade e confiança
em pôr à minha disposição o acervo da biblioteca do mosteiro. Sem suas
orações, amizade e confiança este livro não poderia ser escrito.
Sou grato à minha família que
amorosamente permitiu-me utilizar o tempo de convívio que a ela
pertencia para fazer minhas pesquisas e redigir o texto final.
Deus é sabedor que meu mais
profundo agradecimento a Ele pertence. Ele é meu Senhor; eu, apenas
seu servo.
1. OS PRIMEIROS PASSOS
A primavera já se afastava e
o verão começava a mostrar sua presença. As manhãs ainda eram bastante
frescas e impregnadas do bom odor das flores silvestres que a brisa
trazia dos campos próximos a Valladolid.
Dona Joana já entrara no nono
mês de gravidez; o frescor da manhã a acalmava. Mas, naquele dia, ela
sentia uma agitação e cansaço já seus conhecidos: era o prenúncio da
chegada de um novo membro na família Gracián. Embora fosse jovem, essa
era a sua quarta gravidez. Sabia o que estava se passando: seu momento
era chegado. Avisou a Dom Diego, seu marido, e pediu à Virgem que a
assistisse.
Era 6 de junho de 1545. Dona
Joana deu ao mundo o seu quarto filho: Jerônimo Gracián Dantisco. O
parto transcorreu normal e a criança nasceu saudável. Nada tinha
de especial que o distinguisse dos 3 irmãos anteriores e dos outros 16
que viriam depois. O tempo encarregar-se-ia de tornar visível o
seu temperamento e sua disposição especial para o trabalho na seara do
Senhor. Seria um daqueles primeiros operários da parábola narrada por
São Mateus[1] , mas sem a mesquinhez por aqueles demonstrada.
Trabalhou muito, foi
incompreendido, humilhado, traído e jogado no esquecimento, mas soube
aceitar todas as provações sem, no entanto, inclinar-se diante dos
orgulhosos que lhe infligiam tais desalentos. O orgulho, o santo
orgulho, tão bem descrito por São Paulo em sua segunda carta aos
Coríntios[2], o mantinha em pé, lutando com todos os meios disponíveis
pela causa e ideais inspirados por Deus e transmitidos a ele por
Teresa de Jesus.
Quando faleceu, com justiça,
poderia ter dito: “Quanto a mim, estou a ponto de ser imolado, sendo
já iminente o tempo de minha partida. Combati o bom combate, terminei
minha carreira, guardei a fé. Já me está preparada a coroa da justiça
que naquele dia me entregará o Senhor, justo juiz[3] .
Mas por enquanto era apenas
uma pequena criança que deveria receber a água do batismo. Sendo muito
crentes e devotos, seus pais não esperaram muito tempo. Sete dias após
seu nascimento foi levado à Pia Batismal na Paróquia de Santiago; era
13 de junho de 1545.
Jerônimo Gracián Dantisco foi
o quarto dos vinte filhos do casal Joana Dantisco e Diego Gracián de
Alderete. Seu pai era filho de Diego Gracián, armeiro principal
dos Reis Católicos, e sua mãe, filha do embaixador da Polônia na Corte
de Felipe II. Quando se casou, Joana tinha tão somente doze anos
e Diego já entrara na casa dos 40. Tal diferença de idade não foi
empecilho para que o casal vivesse em harmonia e formasse um lar
cristão e que todos os filhos recebessem esmerada educação.
Dos 20 filhos que tiveram, 17
sobreviveram. Vários deles seguiram a vida consagrada, como, por
exemplo, Adriana Gracián, que ingressou em um convento de Madri; Maria
(de São José) tomou o hábito do Carmelo Descalço; Pedro Gracián entrou
no Carmelo, mas por razões de saúde não pôde continuar, ordenando-se,
em seguida, sacerdote diocesano; Isabel e Juliana, ambas tomaram o
hábito do Carmelo Descalço e, por fim, Lourenço Gracián, que também
tornou-se um Descalço.
Não faltaram sofrimentos
domésticos a Dona Joana e, conseqüentemente, à sua família e ao jovem
Gracián. Eram muitos os seus filhos, e o salário, pouco. Educá-los com
esmerada educação literária e religiosa só dependia do seu engenho, de
suas economias e não poucos sofrimentos. Ademais, como o pai exercia a
função de Secretário do Rei, tinha que acompanhá-lo onde quer que
fosse e, como o Rei costumava fazer paradas longas em diferentes
cidades, não havia outra saída senão levar consigo sua numerosa
família ou, pelo menos, grande parte dela.
A formação inicial de Jerônimo
Gracián, em seus primeiros anos, esteve a cargo de sua mãe, que
governava a casa com prudência cristã e grande domínio sobre as
tarefas familiares. Foi pelas palavras e ações dessa mulher que o
futuro Pe. Gracián encontrou o caminho da Igreja e a vida de oração.
Foi Dona Joana, certamente, que lhe imprimiu o caráter de grande
administrador e infatigável lutador pelas causas nobres desta mesma
Igreja.
Devido à freqüente
movimentação da família, quando completou quatro anos foi levado para
Olivares de Duero e aí permaneceu por três anos sob os cuidados de
Dona Inés de Torres, sua tia. De Olivares, retornou a Valladolid, onde
foi alfabetizado. Aos dez anos iniciou seus estudos regulares na
escola de Medina y Gaona, mas por motivo de saúde interrompeu seus
estudos e foi enviado para Astorga (Léon) ,onde permaneceu por oito
meses.
Gracián nos conta que por esta
época teve uma visão: caminhando por umas ruelas desertas -
perto da meia noite - , bom pedaço antes de chegar a uma encruzilhada,
“senti uma grande perturbação e meus cabelos ficaram em pé de tal
maneira que levantaram um gorro de veludo que eu trazia sobre a
cabeça, e eu sem saber o que significava aquela perturbação. Até que,
chegando ao fim da rua e começo da encruzilhada, a quatro passos de
mim, vi um vulto do tamanho de um burrico, figura de bode, com cor
jaspeada de piche negro e pintas de fogo, os olhos como duas grandes
brasas acesas, olhando para mim. Eu não lhe voltei as costas, mas
andei para trás sem tirar meus olhos dos seus, entrei em uma casa que
estava em construção e ali me persignei e disse o Creio em Deus Pai.”
Tateando com os pés, encontrei
duas pedras muito a meu gosto; enrolei minha capa no braço esquerdo,
peguei uma pedra em cada mão e saí com grande brio e desejo de
lançar-me contra aquele fantasma e enfiar-lhe as pedras, com toda a
força, entre as duas sobrancelhas. Penso que em minha vida nunca tive
tanta vontade de fazer tal coisa. Mas quando saí da casa, o tal
fantasma não estava lá. Fui correndo com minhas pedras para casa, sem
temer coisa alguma, admirado por não saber de onde me vinha tanta
coragem, tendo eu aquela idade”[4] .
É possível que tal visão
tenha sido um simples produto da mente de um pré-adolescente, longe de
sua família e caminhando sozinho em uma noite escura. Mas também é
possível imaginar que tal visão prenunciava os “fantasmas” reais que
deveria enfrentar em sua vida adulta, que não seriam poucos, como se
verá. Existem, no entanto, alguns detalhes naquela visão que vale a
pena ressaltar. O primeiro deles é que a descrição da visão parece ser
a do demônio, mas Gracián apenas a denomina de fantasma. Não é o
demônio que ele vê, mas algo fantástico, misterioso, de formas
confusas. O segundo detalhe é que ele fica assustado, mas não com
medo, e por não ter medo decide enfrentar tal fantasma. Protege-se em
uma casa em construção e se arma com duas pedras. Volta para a luta,
mas o fantasma não mais está lá. Essa visão é quase um resumo da vida
do Pe. Gracián; ele enfrentará grandes dificuldades, muitas delas
vindas de lugares e pessoas, algumas intocáveis, outras
insignificantes.
Após aquela visão, da qual
Gracián jamais se esquecerá, retornou a Valladolid e continuou seus
estudos de gramática e humanidades. Concluiu sua formação humanística
com o estudo de retórica e grego. Mais tarde, tinha então 14 anos,
mudou-se com a família para a cidade de Toledo, seguindo a Corte
Imperial de Carlos V. Em Toledo, inicia seus estudos de arte, dando
continuidade aos seus estudos clássicos.
Ao fim dos estudos clássicos,
surge um primeiro grande conflito familiar entre pai e filho. Dom
Diego não queria que seu filho Jerônimo seguisse carreira
universitária, mas que ingressasse na corte para ajudá-lo nos serviços
da secretaria do Rei. Por esta época Jerônimo Gracián tinha como
confessor o Pe. Martinez, Jesuíta arguto e grande conhecedor do
potencial da alma daquele jovem que já mostrava brilho acadêmico e
grandes virtudes cristãs. Seus dotes de inteligência e os argumentos
do Pe. Martinez convenceram Dom Diego de que seria um desperdício
prender uma ave tão rara e valorosa nas redes da burocracia do palácio
do rei. Dom Diego deu-lhe a benção e a autorização para continuar os
estudos. O jovem Gracián foi, então, para Alcalá de Henares
freqüentar, nada menos que, a famosa Universidade Complutense.
O jovem Gracián, assistido
pelo seu diretor espiritual, crescia também em valores morais e
cristãos. Conta-se que sua mãe se espantava com o comportamento do
filho, saudável como era, nada mais podia esperar dele senão as
diatribes próprias da juventude, mas Gracián preferia
recolher-se em casa e, no oratório familiar, dedicar longo tempo à
oração, principalmente à Santíssima Virgem, pela qual sempre teve
muita devoção. Esta devoção o seguiu por toda a vida. Ele mesmo nos
conta que sob o hábito sempre trazia uma imagem de Nossa Senhora. Este
costume foi, em uma ocasião, motivo para que seus inimigos divulgassem
infâmias contra ele, insinuando maldades sobre tão singelo apego à Mãe
de Deus.
Seus anos de estudos, quietude e orações quase podem ser comparados
aos dos grandes profetas que viveram no silêncio antes de serem
chamados para as grandes obras. Santa Edith Stein, certa vez, escreveu
que os planos de Deus são preparados no silêncio. No silêncio, Ele
lapida as “pedras vivas” preparando-as para as grandes lutas da
edificação do Reino de Deus. É no diálogo silencioso do coração com
Deus que instrumentos escolhidos são forjados para se tornarem
operários dedicados naquela construção[5] . Gracián será um destes
grandes operários. Quando o conheceu, já com 30 anos, Santa Teresa
sentiu que Deus lhe havia enviado um grande mestre de obras ou, nas
palavras da Nossa Santa Madre Fundadora: “Na época, eu estava
muito angustiada e, ao vê-lo, mostrou-me o Senhor, ou assim me
pareceu, o grande bem que dele haveria de vir (...) Era tamanho o
prazer que me invadia o espírito que naqueles dias eu não me cansava
de dar graças a Nosso Senhor”.[6]
Mas, até chegar aqui, Gracián
tinha pela frente um grande percurso a fazer. Os cursos da
Universidade de Alcalá o esperavam e também grandes problemas, pois
seu pai – embora secretário do rei – não tinha posses suficientes para
manter os estudos universitários do filho. Não foram poucas as
dificuldades que passou Jerônimo Gracián em Alcalá de Henares. Tinha a
seu favor o grande desejo pelo estudo, uma prodigiosa memória e,
sobretudo, os seus modos modestos e educados. Tais virtudes, como
ímãs, atraíram a atenção de alguns professores, o que lhe foi de
grande ajuda.
2
EM ALCALÁ DE HENARES
Estudar na Universidade de
Alcalá de Henares era, em si, uma grande distinção para aquele que
lograsse ser selecionado. A universidade, conhecida também como
complutense – mais tarde transferida para Madri –, foi um dos centros
mais importantes da vida intelectual européia e a base da expansão
cultural espanhola.
Fundada em 1499 pelo Cardeal
Francisco Jiménez de Cisnero, tinha uma estrutura administrativa e
didática totalmente inovadora para a época. O Cardeal definiu para a
Complutense três grandes fins e o primeiro era totalmente religioso: a
universidade devia ser uma instituição de ensino para formar
eclesiásticos que recuperassem os valores da espiritualidade antiga
que foram abandonados nos séculos da baixa Idade Média.
Cisneros tinha os olhos
voltados para um dos maiores desafios da época, a reforma da Igreja na
Espanha com suas duas grandes divisões: as ordens regulares e o clero
secular; era necessário renovar não apenas a preparação intelectual do
clero, mas também preparar homens capazes de lidar com as questões de
governo, ou seja, administradores competentes. Este era o segundo
objetivo. O terceiro era a revisão e sistematização dos textos
doutrinários da Igreja que, por aquela época, sofriam de uma liberdade
de interpretação nefasta para a correta doutrina cristã.
Gracián conseguiu sua
matrícula no ano acadêmico 1564-1565. Escolheu o Curso de Artes. Ao
terminar o terceiro, ano obteve o título de “bacharel em artes”; um
ano mais tarde, recebeu o grau de “licenciado em artes”. Com este
grau, foi declarado apto a ensinar. Quando terminou este curso, teve,
com seu pai, nova discordância: Dom Diego Gracián queria o filho a seu
lado, punha grandes esperanças que ele o auxiliasse nos muitos
trabalhos da secretaria da corte. Esta resolução paterna contrariou
terrivelmente o jovem mestre em artes pois, além de não nutrir
qualquer simpatia para com a vida na corte, já brotava em seu coração
o desejo de seguir a carreira eclesiástica.
Começara a sentir que era
chamado para outras atividades e para elas deveria preparar-se o
melhor possível. Assim, solicitou sua matrícula e foi aceito na
Faculdade de Teologia. Concluídos os quatro anos de teologia, foi-lhe
oferecido o doutorado, que lhe exigiria mais quatro anos de estudos.
Com determinação, Gracián aceitou a oferta e os concluiu em 1572.
Faltava apenas a prova final para obter aquele título quando,
inesperadamente, abandonou sua brilhante carreira universitária para
dar outra orientação à sua vida.
O que teria ocorrido? Gracián
nunca esclareceu a razão de sua renúncia ao título de doutor, título
que seria de grande ajuda para si e sua família, pois o rei estava
disposto a lhe conceder vantagens pecuniárias e posto eclesiástico de
importância. Este último era perfeitamente possível, pois Felipe II,
além do poder temporal, tinha grande influência nos negócios da Igreja
e, ademais, Gracián recebera – quando ainda estudante – o sacramento
da vida consagrada, ou seja, foi ordenado sacerdote e, portanto estava
apto a exercer cargos eclesiásticos.
Dessa ordenação nos conta
Mármol – um dos que muito estudaram a vida de Gracián em Alcalá de
Henares – que após receber as Ordens sagradas, sua devoção e
recolhimento aumentaram consideravelmente. “Como se viu com novas
obrigações de ser melhor, eram notáveis os exemplos que dava, com sua
vida exemplar e santos costumes. Era muito humilde, devoto e calado.
Fugia de aulas e conversações que não fossem endereçadas a um
maior aproveitamento para a virtude; dedicava muito tempo à oração, e
o tempo que sobrava usava para ler, estudar e meditar com grande
devoção sobre o que havia lido”.[7]
Com grande vocação para a
salvação das almas, entregou-se com toda intensidade e zelo à pregação
e às confissões. Tal dedicação afetou tanto os professores como os
estudantes universitários; os nobres e a população em geral. Mas, em
uma quase realização da profecia de Jesus Cristo, narrada por São
Lucas: “Eis que vos envio como cordeiro para o meio de lobos” (Lc10,
3), contra Gracián começaram a surgir infâmias e calúnias. Sua vida
devota e recolhida incomodava muitos dos seus colegas de Universidade.
Seus anos em Alcalá foram, em parte, uma preparação para o resto de
sua vida – entre atos heróicos, perseguições, calúnias e ciúmes.
A decisão de abandonar o
doutorado, diz P. Silvério de Santa Teresa em sua História do Carmelo
Descalço, deve-se, em parte, ao seu espírito recolhido e voltado para
a contemplação na vida silenciosa: “no espírito nobre e reto de
Jerônimo Gracián surgiu, enquanto estava em Alcalá de Henares, uma
crise semelhante àquela pela qual também passou – na
Universidade de Salamanca – Juan de Yepes (São João da Cruz)”[8] . Tal
crise foi provocada pelo desapontamento e pelas leviandades praticadas
pelos estudantes, permitidas e até compartilhadas por alguns
professores. Tais leviandades chegavam às raias da violência física e
moral: “A paixão com que muitos procediam em favor de seu candidato,
as coações às vezes dolorosas e violentas na busca do triunfo”
causavam mal estar no espírito pacífico, austero e ponderado de
Gracián. Mas seu espírito também já não mais tolerava as honras
universitárias e as mesas aristocráticas que era obrigado a
freqüentar: “cada bocado de boa comida que experimentava me parecia
veneno, e cada honra que recebia, e não eram poucas naquela
Universidade de Alcalá, abominação”[9] .
Lentamente vai tomando forma
no espírito de Gracián a vocação pelo claustro religioso - tal como em
João da Cruz surgiu a inclinação pelos Cartuxos. Santa Teresa de
Jesus, mais tarde, mostrará aos dois o Caminho do Carmelo Descalço e
cada um deles, de diferentes modos, reforçarão os pilares do carisma
deixados por Santa Teresa. Mas, antes disso, Gracián teve que travar
uma luta interior. Sua primeira decisão foi a de entrar na Ordem dos
Jesuítas; tudo estava acertado, mas deveria, antes, continuar os
estudos. Tal exigência, por lhe tomar mais tempo, esfriou-lhe o ânimo
e o entusiasmo pelos Jesuítas.
Tendo desistido de unir-se
àquela Ordem, passou um ano e meio em duras indecisões sobre
qual ordem abraçar. Ele mesmo testemunha: “(...) lutei quase um
ano e meio com a vocação, o que foi um grande tormento, pois todas as
razões naturais eram contrárias em mim: saúde debilitada, fraqueza
natural ou cansaço dos estudos, obrigações para com os meus pais e
irmãos (...) por outro lado tinha um enorme desejo de servir a Nossa
Senhora”[10] .
Gracián debatia-se em suas
dúvidas, mas a providência ia colocando em seu caminho pequenos
degraus que o levavam, cada vez mais, para perto da Ordem que acabaria
por abraçar. Um destes degraus foi o sermão que as Carmelitas da
Imagem [11] lhe encomendaram sobre a antiguidade da Ordem do
Carmelo. Tal sermão obrigou-o a estudar detidamente tal Ordem e,
melhor a conhecendo, mais dela se enamorou.
Seu sermão foi tão eficaz e
convincente que levou um dos seus amigos da Universidade, o mestre
Roca, a ingressar na Ordem [12] .
Um segundo degrau posto no
caminho de Gracián é narrado, de modo apaixonado, por Teresa de Jesus
[13] . Estando ele ainda longe de pensar em tomar o hábito de
Carmelita Descalço foi chamado ao convento de Pastrana para ajudar a
Priora na recepção de uma monja. “Que meios emprega Sua Majestade!”,
escreveu Teresa, “Porque, se ele tivesse decidido ir tomar o hábito,
talvez tivessem surgido tantas pessoas para o contrariar e ele nunca o
fizesse. Mas a Virgem Nossa Senhora, de quem ele é muito devoto, quis
pagar-lhe essa devoção com dar-lhe o hábito”. Chegando a Pastrana,
continua Teresa, “Aconteceu com a priora o que acontecia com todos;
deu-lhe uma enorme vontade de que ele entrasse na Ordem e disse-o às
irmãs para que elas vissem o quanto era importante que isso
acontecesse (..) e pedissem, todas elas, a Nosso Senhor, que não o
deixasse ir sem tomar o hábito (...) Todas levaram a intenção muito a
sério e, com jejuns, disciplinas e orações, pediam continuamente a Sua
Majestade...”
Disso, Gracián só ficou
sabendo mais tarde. O que Gracián não sabia, também, é que uma Santa
por ele rezava, há um ano, para que tomasse o hábito dos Carmelitas
Descalços. Esta Santa não era outra senão a própria fundadora: Santa
Madre Teresa de Jesus. E este foi o principal degrau que a Providência
lhe pôs à frente para que superasse as suas indecisões: as orações das
monjas Descalças.
Embora frágil de saúde,
Gracián tinha um temperamento forte e decidido. Pode-se dizer que era
como o bambu: parecia fraco, mas era tenaz; vergava com as
tempestades, mas não quebrava. Quando terminaram seus tormentos,
provocados pela indecisão de qual caminho tomar, ele - decidindo-se
pelo Carmelo Descalço - assim se expressou: “não mais podendo refrear
o ímpeto dos pensamentos que vinham do amor de Nossa Senhora, disse
para mim: se muitos homens nobres por amores de mulheres da terra se
deixaram cegar, perderam fortunas, honra e vida... Por que tenho eu
que me importar com alguma coisa, se o amor de tal Senhora me cega?...
Perderei a vida, que a dou com muita alegria, a minha Senhora: a
Virgem Maria”.[14]
O laço havia se fechado,
Gracián não mais escaparia do doce abraço da Senhora Virgem Maria e do
carisma que a Divina Graça havia transmitido a Santa Teresa de
Jesus. Sua decisão pela “Descalcez” foi definitiva a ponto de dizer
que, se necessário fosse, entraria na Ordem dos Carmelitas Descalços
mesmo que tivesse que utilizar a “força das espadas”. Certamente que,
avesso à violência como era, com a expressão “força de espadas” apenas
queria deixar claro que sua decisão era inabalável. E com tal decisão
dirigiu-se ao convento de São Pedro [15] , dos Carmelitas Descalços,
em Pastrana.
3
NOVIÇO NO CONVENTO DE PASTRANA
Alguns antecedentes: as primeiras fundações dos frades
Em seu estudo sobre o Carmelo
Teresiano, o Pe. Ildelfonso Moriones faz questão de evitar certas
imprecisões cometidas por alguns historiadores. Algumas de tais
imprecisões ainda permanecem em narrativas sobre a história da
fundação do ramo masculino dos Carmelitas Descalços.
Moriones nos adverte que uma
de tais imprecisões é a idéia de Santa Teresa como Fundadora do ramo
masculino do Carmelo Descalço. Não existe qualquer dúvida de que
efetivamente Santa Teresa é a força principal, a “alma mater”, a
autora do movimento religioso que ficará, para sempre, unido às suas
Fundações. No entanto, “diferentemente do que ocorreu no
desenvolvimento das fundações de monjas, setor em que ela figurou
praticamente sempre como a Madre Fundadora, no desenvolvimento das
fundações masculinas interferiram muitos outros elementos históricos e
circunstanciais” [16] . Isto não retira de Santa Teresa o mérito e o
reconhecimento de que ela é, insofismavelmente, fundadora, a principal
e singular fonte que alimentou e alimenta - com o seu abençoado
carisma - o ramo masculino do Carmelo Descalço.
Nós sabemos – pois isto nos
diz a própria Santa - que muito cedo começou a desenvolver a idéia de
fundar algumas comunidades masculinas, à semelhança do Carmelo de São
José [17] que ela fundara sob inspiração divina [18] . Mas ainda
não era chegada a hora, e ela dedicou-se inteiramente às negociações
para consolidação e expansão da reforma do Carmelo, que – na realidade
– viria a ser a Fundação de uma nova Ordem na Igreja. Somente cinco
anos mais tarde, após sua primeira fundação para monjas, ela conseguiu
algo de concreto para dar início àquela idéia.
Resumidamente os fatos
ocorreram assim: em 1567 chegou a Ávila – onde fora fundado o convento
de São José – o Pe. João Batista Rubeo de Ravena – Superior Geral da
Ordem do Carmelo – e, fazendo várias visitas ao Carmelo de São José,
percebeu que ali estava uma fonte que não podia ser desperdiçada.
Nessas visitas Teresa teve a
oportunidade de expor ao Pe. Rubeo as vantagens e importância,
para a Igreja, de estender por toda a Espanha aquele novo modo de
viver em “obséquio a Jesus Cristo”, ou seja, de criar novas
sementeiras teresianas. Madre Teresa era uma mulher convincente e o
Pe. Rubeo, além de sensível às coisas da Igreja e da fé, era bom
político. Sabendo que Felipe II andava desejoso de reformar a vida
monástica no seu reino – pois a julgava muito relaxada -, entendeu que
poderia agradar a Deus e ao rei apoiando a iniciativa de Teresa de
Jesus.
Ao partir, deixou uma carta à
Santa Madre, onde escreveu:
“À Rvda. Madre Teresa de
Jesus, damos a faculdade e o poder de fundar mosteiros de freiras da
nossa sagrada Ordem, em qualquer lugar do reino de Castela, onde vivam
segundo a primeira Regra, com o modo de vestir e outras maneiras que
têm e observam em São José”.
Uma segunda carta, ainda do
Pe. Rubeo, ampliará o território aberto ao projeto teresiano: “A nossa
licença estende-se a toda Castela, Nova e Velha”.
Teresa queria mais, queria
realizar o seu antigo sonho: fundar mosteiros para frades submetidos à
observância da Regra primitiva. Seu sonho começou a tornar-se possível
com uma terceira carta patente do Pe. Rubeo que a autorizava a fundar
tais conventos[19] .
Transformar a autorização em
realidade era o novo desafio de Teresa. Onde encontrar padres
dispostos a viver uma vida austera? Como sempre, Teresa vai buscar
auxílio junto ao seu amado amigo: Sua Majestade, Jesus Cristo. Pede
insistentemente que lhe envie tais padres e Ele os enviará: devagar e
de modos inusitados.
Teresa havia deixado o Carmelo
de São José acompanhada de outras irmãs, para fundar um novo convento;
seu destino era Medina Del Campo. Teresa de Jesus instala mais um
convento: “São José de Medina Del Campo”. Era o ano de 1567, ou seja,
ainda não havia se passado um ano desde a autorização do Pe. Rubeo
para a criação de novos conventos.
A grande simpatia e santidade
de Teresa de Jesus, a vida austera que naquele convento se vivia
foram, lentamente, atraindo amigos e simpatizantes. As visitas eram
constantes e variadas, mas sobressaía a do prior do convento dos
carmelitas da observância mitigada: Pe.
Antonio de Heredia.
Um nobre de formação esmerada,
ex-aluno da Universidade de Salamanca, tinha tudo o que se requeria
para os altos cargos eclesiásticos, no entanto conhecer Teresa de
Jesus abalou-o profundamente. Quando Madre Teresa lhe expôs que havia
recebido autorização do Pe. Rubeo para fundar dois conventos
masculinos, conforme a regra primitiva, mas que estava encontrando
dificuldades em encontrar frades dispostos a tal empreendimento, prior
Antonio de Heredia não titubeou:
- Eu serei o primeiro!
“Julguei que fosse gracejo –
escreveu Teresa – e lhe disse; porque, mesmo tendo ele sido sempre um
bom frade, que vivia em recolhimento e estudava muito, que gostava da
cela e era educado, não me parecia ser pessoa indicada para seguir
esse princípio” (...) em um ano ele suportou muitas dificuldades e
perseguições devido a falsos testemunhos, dando a impressão de que o
Senhor desejava pô-lo à prova, e passou. E ele suportava tudo tão bem,
era tal o seu proveito, que eu louvava o Senhor”.[20] Madre
Teresa já tinha o seu primeiro seguidor e semente para a fundação do
primeiro convento masculino dos Carmelitas Descalços.
Tendo passado alguns dias,
bateram à porta do convento dois jovens padres –formados pela
universidade de Salamanca –: frei Pedro de Orozco e frei João de São
Matias. Frei Pedro falou tão bem do seu amigo que Madre Teresa achou
por bem melhor conhecê-lo. E, com ele se entrevistando, contou seus
projetos e tentou convencê-lo do bem que para ele seria, que buscava a
perfeição, que o fizesse na própria Ordem e que assim melhor serviria
ao Senhor.
Frei João de São Matias –
futuro São João da Cruz – tinha um temperamento não condizente com sua
estatura: mal passava de um metro e meio. Embora tivesse ficado
encantado com as propostas de Madre Teresa e nela visse sinceridade e
grande santidade, tinha os seus próprios projetos: queria retirar-se,
imediatamente, para a vida eremítica, e nisso tinha pressa. Talvez
tenha sido esta a razão pela qual, embora tenha ficado fascinado,
impôs a Teresa de Jesus uma condição: “que não demorasse muito” a
instalação daquele convento.
Madre Teresa ficou encantada
com aquele pequeno frade e não lhe poupou elogios na carta que enviou
a Dom Francisco de Salcedo: “embora pequeno de estatura, entendo que é
grande aos olhos de Deus. (...) é prudente e próprio para nosso modo
de vida, e assim creio, o chamou Nosso Senhor para esta obra...”
.
Ela tinha os frades. Faltava,
no entanto, um lugar para os estabelecer. Tal lugar logo apareceu: uma
casa em um lugar com poucos habitantes oferecida por um Sr. de Ávila.
Madre Teresa não esperou muitoe pôs-se em marcha para conhecer o
lugar. “Minha companheira, se bem que muito melhor do que eu e amiga
das penitências, não conseguia suportar a idéia de que eu fizesse ali
um convento e me disse: ‘Madre, com certeza não há espírito, por
melhor que seja, capaz de resistir a isso”[21] . Pode-se imaginar o
estado da casa!
Retornando a Medina del Campo,
chamou os freis Antonio e João e, muito objetivamente, contou-lhes
sobre a pequeneza e pobreza da casa. Deles nada mais ouviu senão
entusiasmadas manifestações de alegria.[22]
Madre Teresa deixou o frei
Antonio cuidando das reformas da casa e partiu com frei João para
Valladolid. Este é um momento crucial; João será o herdeiro do carisma
de Teresa, será ele que deverá manter e transmitir, ao ramo masculino,
os ideais teresianos. A própria Teresa de Jesus nos conta: “tive então
oportunidade de informar ao padre João da Cruz sobre o nosso modo de
proceder, para que ele entendesse bem tudo quanto se referia à
mortificação, ao estilo de nossa irmandade e à recreação em comum
(...) Ele era tão bom que mais podia eu aprender com ele do que ele
comigo”[23] .
Em 28 de novembro de 1568 foi
inaugurado o convento e teve início a vida Descalça com João da Cruz,
Antonio de Jesus e dois outros que os acompanharam, como experiência.
O pequenino mosteiro foi transferido, em junho de 1570, para Mancera:
não havia mais espaço para os novos que ali iam pedir para ficar e,
ademais, aquela primeira fundação de frades foi inaugurada para ser
residência, o que excluía, segundo as Constituições, a possibilidade
de receber noviços [24] .
Jerônimo Gracián chega a Pastrana
O convento de Manceras
prosperou e deixou de ser noviciado. O de de Pastrana [25]
passou a ser o único e principal centro de formação dos noviços. Tudo
parecia correr bem, mas Madre Teresa percebeu que algo de errado
andava ocorrendo naquela casa de formação e ficou alarmada. O mestre
de noviços, Angel de San Gabriel, usava de métodos pouco recomendáveis
e imprudentes, contrariando as diretrizes penitenciais que João da
Cruz havia deixado.
O noviciado de Pastrana tinha
àquela época, aproximadamente, uns 30 noviços e entre eles estava
Jerônimo Gracián [26] que, em uma viva narrativa, conta um pouco
do que ali se passava: “Alguns dos recém-professos – embora ordenados
– careciam de letras, e outros de experiência e prudência. Certa vez,
um destes tomou um noviço e – açoitando-lhe a costa desnuda –
ordenava-lhe que fizesse a lenha molhada pegar fogo somente com
orações, sem o auxílio de qualquer elemento de combustão, como fez
nosso pai Elias[27] , dizendo que nisto se havia de conhecer a
perfeição”[28] .
O tão desejado noviciado, que
lhe custara anos de tormentos, foi o início de novas provações e
dramáticas tentações para abandonar sua vocação à “Descalcez”. Deus
viria em seu auxílio na figura da madre Isabel de Santo Domingo –
Priora do convento de monjas de Pastrana. Madre Isabel tinha,
certamente, um dom especial, pois nos conta o próprio Gracián:
“Naquelas aflições que lhe contei sobre meu ano de noviciado, quando
cheguei a pensar em abandonar tudo, Deus me deu por consolo Madre
Isabel de São Domingos (...) que, contando a ela minhas tentações e
pensamentos, logo fugia, de meu coração, a melancolia; o céu de meu
espírito serenava e retornavam o sol e luz da alegria. Madre Isabel,
nada mais fazia senão ouvir-me”[29] .
Não era apenas o estado
precário do noviciado de Pastrana que levavam Gracián a tantas dúvidas
e tentações: o excesso de trabalho, o assumir responsabilidades que
não são próprias dos noviços conduziam o jovem padre Gracián a um
quase esgotamento. Embora noviço, já era sacerdote ordenado com
experiência de púlpito, confissões e apostolado. Tal condição o
colocava em destaque dentre os demais; assim, teve que assumir, muitas
vezes, a direção do convento, ajudar na formação dos outros noviços,
preparar sermões, atender confissões – principalmente das monjas
Descalças que estavam em Pastrana –, sair do convento para buscar
subsistência para os irmãos, atender às necessidades espirituais da
população vizinha [30] . Foram algumas das obrigações a ele
destinadas, além daquelas próprias dos noviços.
Mas seus problemas não estavam
restritos ao cotidiano do convento. Dona Joana, sua mãe estava muito
doente e, ademais, não via com bons olhos a escolha que o filho
fizera. Quis o bom Deus que Gracián fosse informado de um plano para
assassinar o Príncipe Rui Gomes [31] . Mesmo noviço deixou Pastrana e
foi, a Madri, em auxílio do Príncipe que, com tal auxílio, livrou-se
da morte que para ele estava sendo planejada[32] .
Nesse mesmo tempo, sabendo que
sua mãe estava mal de saúde e, ademais, grávida, aproveitou sua ida a
Madri para visitá-la. Neste ponto, é melhor deixar que o próprio
Gracián faça a narração da visita:
“Como me viu contente e lhe
assegurei que não havia tomado o hábito por descontentamento, mas para
servir a Nossa Senhora, ela se voltou para uma imagem e, na presença
de frei Baltazar Nieto – que era meu prior e estava comigo –
disse estas palavras:
-
Senhora, eu tenho sido muito estúpida em ficar ressentida de que me
tenhas tomado um de meus filhos para vosso serviço. Agora, eu a dou,
com grande alegria, ele, a mim, todos meus filhos e meu
marido”[33] .
Tais palavras devem ter tido
um efeito salutar e renovador no espírito do noviço Gracián, pois ele
muito se preocupava que sua mãe compreendesse e aprovasse a sua
decisão de abandonar a vida confortável para se entregar, de corpo e
alma, aos rigores da vida carmelita descalça. Ele sabia que a
resistência de dona Joana tinha origem nas intrigas e invenções que
faziam. Fizeram-na crer, por exemplo, que ele havia se recolhido ao
convento carmelita por razões puramente humanas, por alguma
contrariedade que havia passado e não conseguira superar. Em sua
imaginação o querido filho estava fugindo do mundo e isto, além de
triste, a deixava irritada. Certamente essa era a razão da áspera
resposta que dava aos que lhe diziam:
- “Console-se
dona Joana, a senhora deu um filho a Nossa Senhora”.
- “Não dei, ela
me tomou”. Respondia.
Agora tudo estava esclarecido.
Dona Joana estava em paz, reconciliada com seu filho e,
principalmente, com aquela que sempre fora a sua preferida: a mãe do
Menino Deus.
Tendo ajudado a salvar a vida
de Ruy Gómez e pacificado o espírito de sua querida mãe, Gracián
retornou ao noviciado de Pastrana, onde continuou a desenvolver seu
espírito de mortificação e de dedicação aos negócios do convento.
Aos poucos o silencioso e
pacato estudante de Alcalá de Henares vai se transformando. Sua vida
devota continua profunda e a cada dia mais madura. No entanto, o que
nele vai despontando é algo novo, um sentido prático e empreendedor:
começa surgir um frade de ação. De seu espírito empreendedor uma
biógrafa[34] de Santa Teresa anotou: da obra grandiosa que
Teresa projetou, e na qual decidira empenhar-se até à morte, “o
instrumento ia ser o Pe. Jerônimo Gracián”. Se por um lado o despertar
deste “frade de ação” foi uma bênção para a Ordem dos Carmelitas
Descalços, foi também, para ele mesmo, fonte de grandes sofrimentos
morais, físicos e espirituais.
Madre Teresa já tivera notícia
do padre Gracián, de suas virtudes, conhecimentos e dedicação às coisa
da Ordem. As informações que dele lhe chegavam indicavam ser de
confiança e que as monjas muito teriam a aproveitar se por ele fossem
orientadas. Logo que ele tomou o hábito dos Descalços, Teresa de Jesus
– em segredo – escreveu às monjas que o obedecessem em tudo, tal como
obedeceriam a ela. De tal segredo Gracián não sabia; apenas seu
superior e a Priora, Maria Isabel de São Domingos, eram conhecedores
das ordens enviada pela Madre Fundadora. Mas, se o fato era segredo,
logo ficou claro que havia algo de especial, pois somente Gracián
tinha ascendência sobre as monjas, e mais ninguém. Madre Teresa tomara
tal decisão porque não queria que suas irmãs –as monjas - fossem
importunadas e oprimidas pelos frades que costumavam, a título de
obediência, exigir delas práticas e penitências fora de propósito e,
ademais, destruir-lhes a santa liberdade de espírito que lhes foi dada
pelo Concílio de Trento[35] .
Se o ambiente de Pastrana
estava tão deteriorado a ponto de fazer Gracián titubear em sua
decisão de permanecer com os Descalços, também é verdade que foi para
ele uma grande escola. Aí praticou a administração de conventos,
conheceu profundamente do que é capaz a alma humana quando mal
orientada; compreendeu que uma Ordem não se mantém só de intenções,
por melhores e santas que sejam. Chegou ao ponto mais crítico da
humildade, tendo que obedecer a professos quase iletrados – sendo ele
um respeitado intelectual nos círculos acadêmicos da Universidade de
Alcalá. Viveu a pobreza, quase absoluta, quando podia viver no
conforto da corte em Madri. Podia ser comensal nas mais nobres casas,
apreciar as mais finas iguarias, mas preferiu viver da mendicância
tendo, freqüentemente, nada mais que nabos e sopas ralas como
alimento. O principal, no entanto, é que sua entrega pessoal à “Rainha
do Carmelo” já era definitiva[36] ; o ideal do Carmelo Descalço já lhe
impregnara todo o ser. Era um Descalço de corpo e alma: estava pronto
para fazer sua profissão na Ordem dos Irmãos Descalços de Nossa
Senhora do Monte Carmelo. E assim o fez, no dia 25 de abril de 1573
[37] .
4
HERDEIRO DE UM CARISMA
Tendo feito sua profissão na
Ordem do Carmelo Descalço, Jerônimo Gracián poderia ter a vida pacata
e recolhida de um monge; poderia ser indicado para prior ou mestre de
noviços, pois tinha todas as credenciais para desempenhar tanto uma
atividade como outra: sua vida de oração era intensa; era experiente
na orientação das almas; conhecia – como poucos – a história do
Carmelo; por várias vezes assumira a administração do convento de
Pastrana, isto sem falar na sólida educação forjada na Universidade de
Alcalá de Henares.
Mas as coisas não ocorreriam
assim. Os anos passados em Pastrana transformaram aquele quieto e
recolhido estudante de Alcalá. Saíra do casulo, estava maduro e
adquirira uma estatura humana como poucos Carmelitas de sua época.
Teresa de Jesus já ouvira
falar dele e o cercava de orações; sentia que ali estava mais uma das
grandes peças enviadas por Deus para ser um dos alicerces de sua
obra[38] . Mas ainda não era chegada a hora do encontro desses dois
grandes construtores.
Pe. Gracián fora nomeado para
o ofício mais difícil e odioso que à época havia nas Ordens
religiosas: visitador e reformador[39] . Tal encargo era temido, pelos
desgostos que trazia - havia, inclusive, o risco de morte e da
perda da honra e do bom nome. Nesta época Jerônimo Gracián tinha tão
somente 28 anos de idade, seis meses de profissão como Carmelita
Descalço. Tal nomeação era do total desagrado do Geral da Ordem dos
Calçados. Pode-se imaginar as dificuldades que padeceu. Mas elas não
lhe abateram o ânimo, ao contrário, o zelo pela Ordem Carmelita ardia
em seu espírito e o tornava um combatente do bom combate.
Ficou sabendo, nesta época,
que um convento de Carmelitas Descalços fora fundado por alguns mal
intencionados Carmelitas Calçados. Era pura emulação, ali não se vivia
e tampouco se desejava seguir os verdadeiros fundamentos da
“Deslacez”. Gracián não titubeou mesmo jovem como era e com tão pouco
poder, dirigiu-se – já com a patente de Visitador – àquele convento e
o fechou: “os que eram calçados devolvi aos seus sapatos”, escreveu
Gracián[40] , utilizando uma alegre metáfora.
Antes de completar um ano de
sua designação como Visitador foi nomeado Vigário Provincial de todos
os Carmelitas, Calçados e Descalços da Província de Andaluzia. Esta
nomeação trouxe uma série de mal-entendidos: Pe. Rubeo – Geral da
Ordem –, inconformado, conseguiu a anulação daquela nomeação; no
entanto, o Núncio Ormaneto, não querendo desperdiçar as grandes
virtudes de Jerônimo Gracián, bem como o seu grande conhecimento da
ordem Carmelita, nomeou, “in solidum”, Vargas e Gracián como
Visitadores dos conventos Carmelitas de Andaluzia. Em uma carta,
com data de 4 de julho de 1575, Núncio Ormaneto dizia ao Secretário de
Estado do Papa que havia nomeado uma pessoa santa e exemplar (o Pe.
Gracián) para visitador dos Carmelitas Calçados de Andaluzia; dizia
ainda que tal padre se conduzia muito bem, com muita prudência e
delicadeza[41] . Este testemunho joga por terra as invenções e
intrigas de seus opositores que pretenderam pintá-lo como
exageradamente rude e de poucas virtudes. Não será somente o Núncio
Ormaneto que exaltará as muitas virtudes de Jerônimo Gracián. Para não
citar tantos, basta dizer que Santa Teresa, a Mãe Fundadora, desde o
momento em que o conheceu, até o fim de sua vida, sempre o teve como
um filho especial de Deus.
Em 12 de maio de 1575 havia
escrito uma carta à Madre Inês de Jesus Medina onde dizia com toda
clareza: “A meus olhos é perfeito, melhor do que o saberíamos pedir a
Deus para nós. O que agora há de fazer vossa reverência, e todas, é
suplicar a Sua Majestade que no-lo dê por Prelado. Se assim for,
posso descansar do governo destas casas, pois tanta perfeição com
tanta suavidade nunca vi. Deus o tenha em sua mão e o guarde; por
nenhuma coisa do mundo quisera eu deixar de ter visto e tratado com
ele”.[42] Em uma outra carta, dirigida ao Pe. Gracián, dirá:
“Asseguro-lhe que Deus lhe quer muito, meu Padre, e que Vossa
Paternidade o vai imitando bem de perto; esteja muito alegre, pois
recebe o que acostuma pedir, que são trabalhos”[43]. A quem se há de
dar razão: ao discernimento de uma Santa ou às intrigas de falsários e
invejosos?
Mas a Santa Madre era uma
mulher atenta e não deixou de perceber que a vida apostólica do Pe.
Gracián, tal como a do Apóstolo Paulo, era feita de altos e baixos:
“Como assenta bem a meu Paulo este nome! Ora está muito levantado, ora
no profundo mar[44] . Asseguro-lhe que há bem de que nos gloriarmos na
cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo...”[45] . Talvez seja esta uma das
razões porque Santa Teresa não lhe poupava desejos de ânimo e o
cercava de orações. Ela sabia que mesmo o mais santo dos homens tem
necessidade de apoio dos amigos nas horas de grandes necessidades e
desassossegos.
Um acontecimento pouco valorizado
Santa Teresa de Jesus conta,
em uma de suas cartas, que viveu seus mais felizes dias quando esteve
em Beas. O que teria esta pequena cidade espanhola de tão especial
para levar uma monja, que tinha o privilégio de falar com Deus como se
fala a um amigo, a se expressar como uma jovem adolescente?
Quando foi a Beas, para fundar
um novo convento, Teresa de Jesus estava na casa dos 60 anos. Tal
fundação foi cheia de mal-entendidos. O Pe. Geral lhe havia dado
autorização para criar conventos em terras de Castela; Beas estava em
terras Andaluzas. Estava Santa Teresa indo além do que lhe fora
autorizado? Ao que parece muitos pensaram que sim, pois Teresa viu-se
obrigada a explicar aquela situação ao Pe. Geral. Saiba vossa
senhoria, escreveu Teresa, “que tomei muitas informações antes de
minha vinda a Beas, com o fim de certificar de que não era Andaluzia,
onde eu de nenhum modo pensei em vir .... Acontece, porém, que Beas,
embora não seja terra andaluza, está situada na província de
Andaluzia. Só o vim saber quando havia mais de um mês estava fundado o
mosteiro”.[46] Deixando mais claro: Beas,
territorialmente, pertencia a Castela, mas – eclesiasticamente –
também era diocese de Cartagena e dependia dos Bispos andaluzes. Eis a
confusão.
Além desses desacertos
administrativos, a Fundação de Beas representou para Santa Teresa um
grau muito elevado de contrariedades e sofrimentos morais: para fundar
aquele mosteiro teve que caminhar muitos quilômetros; a “santa
andarilha” nunca havia ido tão longe e feito uma viagem tão penosa.
Sua alma sofria pois teve que desfazer o Carmelo de Pastrana e, como
se não bastasse, a poderosa Princesa de Eboli tornou-se sua inimiga e
seu “livro da vida” foi enviado aos inquisidores de Valladolid; e ela,
tão longe para fazer qualquer coisa em sua defesa. Por que então vai
escrever, tão juvenilmente, que sua estada em Beas foi a mais feliz de
sua vida? Porque encontrou, pessoalmente, o Pe. Jerônimo Gracián.
Alguns biógrafos de Santa
Teresa, tal como Marcelle Auclair, sem deixar de ter alguma razão,
carregam o lado afetivo do encontro. Sem dúvida alguma, Santa Teresa
teve por Gracián uma grande estima e admiração. Pode-se até
compreender que Pe. Gracián foi agraciado com o amor da Santa
Fundadora, mas não se pode deixar que a imaginação vá longe demais.
Santa Teresa amou profundamente o Pe. Gracián, como uma mãe ama aquele
filho no qual ela, vendo suas grandes qualidades, sabe que é o único
capaz de levar adiante, sem desvio, a sua obra.
Muito apropriadamente o Pe.
Ildelfonso Moriones, em “Carmelo teresiano: páginas de sua
história”[47] , chama a atenção para o fato de que, quando foi a Beas,
Teresa levava consigo uma inquietante preocupação que ela fixou, com
toda clareza, no capítulo 23 de Fundações: era tal a situação “ que eu
por vezes teria me queixado de tê-la iniciado, não fora minha grande
confiança na misericórdia de Deus. Refiro-me às casas dos frades,
porque as das irmãs, por Sua bondade, até agora foram bem”... “E cada
casa implantava o que julgava acertado.” “Uns queriam isso e outros
aquilo”[48] . Ou seja, os conventos dos frades que ela tanto desejou
estavam se transformando em grandes caricaturas.
Um raio de esperança, diz
Moriones, “no meio dessas trevas brilhou em seu espírito ao
encontrar-se com o Pe. Gracián precisamente em Beas, em abril-maio de
1575: “Nosso Senhor corrigiu a situação por meio do Padre Mestre Frei
Jerônimo da Mãe de Deus, que foi nomeado Comissário Apostólico;
deram-lhe autoridade e governo sobre Descalços e Descalças”[49] . A
impressão causada pelo jovem Comissário na experiente madre fundadora
foi exemplarmente fixada na carta que escreveu à Madre Inês de Jesus,
em 12 de maio de 1575[50] .
Gracián e Madre Teresa tiveram
quase dois meses de conversações em Beas e ele, de tão
impressionado, não pode deixar de registrar suas impressões agora que
com ela conversara face-a-face: “Estive em Beas muitos dias, durante
os quais comentávamos muitas coisas da Ordem, tanto passadas como
presentes, e o que era necessário para prevenir as futuras; e, além
disso, da maneira de proceder no espírito e como os frades e as monjas
haviam de proceder para manter essa vida. Ela examinou-me de todas as
maneiras sobre essa doutrina, tanto na teoria como na prática.
Ensinou-me tudo quanto sabia, dando-me tanta doutrina, regras e
conselhos que poderia escrever um livro bem extenso de tudo o que me
ensinou, porque, como disse, foram muitos dias; e durante todo o dia,
tirando o tempo da Missa e das refeições, gastávamos o tempo nisso.
Deu-me conta de toda a sua vida e espírito. Fiquei tão rendido que,
desde então, nenhuma coisa importante fiz sem seu parecer”.[51]
Madre Teresa tinha, agora,
dois grandes herdeiros de seus carisma. A eles o transmitiu,
diretamente, sem intermediários: a São João da Cruz, em Valladolid[52]
, e a Jerônimo Gracián da Mãe de Deus, em Beas. Bem soube escolher
Madre Teresa a qualidade e diferença das pilastras sobre as quais se
assentariam as fundações do ramo masculino do Carmelo Descalço. João
da Cruz é o homem do silêncio, doutor das profundezas da alma, do
encontro íntimo com Deus. Gracián é o Paulo[53] de Tarso, o
incansável apóstolo, que lutou como um leão, mesmo quando mortalmente
ferido, para manter viva a chama e “endireitar as veredas” quando via
a Ordem afastar-se das Constituições deixadas pela Santa Madre
Fundadora.
Não serão poucos os seus
trabalhos; deixou um patrimônio para a Ordem que somente agora começa
a ser inventariado e, assombrosamente, se vai percebendo que esse
grande arquiteto da Madre Fundadora foi uma grande vítima – jogado nas
trevas da história - por poderosos inimigos.
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