[News] [Curia] [Addresses] [Carmelite sites] [o.c.d.s.

José Alberto Pedra

José Alberto Pedra

Jerônimo Gracián
de la Madre de Dios OCD:
o herdeiro exilado

 

II Parte

S U M Á R I O

Prólogo
Apresentação
Presentación
Introdução
1.         Os primeiros passos
2.         Em Alcalá de Henares
3.         Noviço em Pastrana
4.         Herdeiro de um Carisma.
5.         Primeiro Provincial Teresiano
6.         Intrigas e perseguições.
7.         Começa a peregrinação.
8.         Prisioneiro dos Turcos.
9.         Na prisão do Paxá.
10.       A libertação do cativeiro.
11.       De volta a Roma.
12.       O profeta em sua terra.
13.       A última jornada
14.       Pe. Jerônimo Gracián, escritor.
15.       A reabilitação pontifícia e a causa da beatificação

5  PRIMEIRO PROVINCIAL TERESIANO 

E o demônio não gostou... 

Em uma de suas visitas aos conventos, o Pe. Gracián foi informado que o demônio estava importunando um dos frades. Não se tratava de pôr tentações na vida do pobre frade, mas de dominá-lo de tal modo que o deixava sem ação e consciência própria. Muito fiel ao que ordenou Jesus: “Não temais”, Pe. Gracián tratou do caso. Em suas palavras:

“Tratei da alma de uma pessoa a quem Lúcifer obrigava, todos os dias, que ficasse de joelhos e o chamasse, noventa vezes, de “onipotente”. Pedi àquela pessoa que lhe dissesse para vir à meia-noite à minha cela, que com uma vara na mão lhe daria tantas pancadas que o faria entender se era ou não onipotente. O recado foi dado. Aquela pessoa, no dia seguinte, disse-me que Lúcifer lhe respondeu com estas palavras: “Diga a ele que se haverá com Lúcifer; que experimentará, antes de oito dias, quem é Lúcifer”. Em cinco dias começaram estas minhas dificuldades, que já duram mais de 25 anos e, acredito, durarão até que a minha vida se acabe, com tantos embustes, revoltas e invenções que, embora tenha passado e passo por isso, não os entendo nem saberia dizer outra coisa senão que foram provocações de Lúcifer”[54] .

Jerônimo Gracián põe em lúcifer a culpa pelas grandes dificuldades que passou: perseguições, traições, viver na condição de escravo dos muçulmanos... Não porque acreditava que Deus permitiria que o diabo tivesse sobre seu destino tanta liberdade, mas para não jogar sobre os seus verdadeiros e reais inimigos a culpa de tal desatino que, pela infâmia e crueldade, parecia  “coisa do diabo”.

Mas o que aconteceu para que aquele jovem e competente padre, predileto de Santa Teresa, tivesse sua carreira interrompida e, pior, fosse tão perseguido e caluniado? É preciso voltar um pouco atrás para saber alguns dos motivos – todos eles falsos - para que se praticassem contra Gracián tantas barbaridades. 

Jerônimo Gracián: Provincial 

Um frade de profunda vida devota, conhecedor das leis canônicas e civis, reconhecido pregador e competente administrador e, não obstante, de exemplar humildade não poderia deixar de ser notado e considerado como um forte candidato ao cargo de Provincial da recente província dos Carmelitas Descalços. Como se não bastasse, ele tinha a confiança e o apoio da Fundadora do Carmelo Descalço: Teresa de Jesus.

Foi eleito[55]  Pe. Provincial dos Descalços no Capítulo realizado em 4 de março de 1581 e, com isso, passou para a história como o  primeiro provincial do Carmelo teresiano. Mas este título, embora importante, não será o predileto do Pe. Gracián. Ser Provincial foi apenas uma oportunidade para organizar o Carmelo Descalço na estrita observância daquilo que Santa Teresa lhe havia transmitido.

A eleição do Pe. Jerônimo Gracián da Mãe de Deus foi motivo de grande alegria e esperança para Teresa de Jesus. Ela, que sempre pedira ao seu Senhor que lhe desse tal padre por Prelado, agora o tinha por Provincial.

Gracián governou a Ordem por quatro anos, ou seja, até 1585, conseguindo dar respeitabilidade à Ordem tanto no aspecto organizativo como jurídico; estendeu sua presença fora da Espanha e abriu, na África, as primeiras missões Teresianas: “Enviei doze freis às Índias, que fundaram conventos na Nova Espanha. Enviei freis ao Congo [...]. Eu já havia ordenado duas outras missões à Etiópia, a pedido do Rei da Espanha que recebera apelos do don Álvaro, Rei do Congo, para que enviasse tais missões[56] . Os primeiros missionários naufragaram e foram tragados pelo mar; os segundos foram espoliados pelos luteranos que lhe roubaram até roupa do corpo e tiveram que retornar; quanto à terceira missão, composta por fr. Francisco, fr. Diego do Sacramento e outro, conseguiram chegar...”[57] .

A iniciativa missionária de Gracián não recebeu a aprovação de todos. Alguns, mais discretos, apenas comentaram, mas seus inimigos aproveitaram-se do ardor apostólico do seu Provincial para censurá-lo duramente espalhando, por onde podiam, que era um erro contra o espírito da Ordem, ocupar-se de missões. O Pe. Gracián não se abalou. Fez questão de deixar registrado o fato, enfatizando que tal iniciativa não era contra o espírito do Carmelo Descalço; ao contrário, este era um dos princípios estabelecidos pela sua Fundadora. Ele escreveu em Peregrinações: 

“Pois para que saibas o que são diversidade de vocação, opiniões e interesses, devo te dizer que me acusaram de ter feito uma má obra enviando aqueles missionários.

Para algumas mentalidades, toda a perfeição carmelitana consistia em não sair da cela ou faltar ao coro, mesmo que o mundo todo estivesse em chamas, e que o bem da Ordem consistia em multiplicar os conventos nas pequenas aldeias da Espanha, abandonando todo o mais. Quaisquer outros modos de entender chamavam de inquietude e relaxamento.

Deus não me levou por este caminho, mas para salvar almas; para conduzir aqueles que estavam destinados aos lugares pequenos e fundar, com eles, conventos nas cidades importantes dos diferentes reinos; para a expansão e proveito da Ordem. Este modo de ver[58]  e entender se fixou em mim das conversas particulares que tive com a Madre Teresa, cujo espírito era de zelo e conversão de todos”.(grifo do autor) 

Quis o Pe. Gracián manter fidelidade, no Carmelo masculino, à grande obra que Santa Teresa  estava fazendo no Carmelo feminino. Ele sabia qual era o caminho correto, mas o que ele não sabia é que havia muitas mentalidades arcaicas que, tendo entrado no Carmelo Descalço, não conseguiam entender o verdadeiro espírito da “Descalcez”, ou seja, dos ideais da Santa Madre Fundadora. Para estes, o Carmelo deveria ser um local retirado, longe do povo de Deus, onde se viveria uma rotina de rudes penitências, até com danos para a saúde. Coisa que Santa Teresa abominava e chegou a condenar de modo explícito com as seguintes palavras: “Quanto às austeridades excessivas, já sabeis que não as aprovo”.[59]  Fiel a este princípio, Gracián governou com “suavidade”, ou seja, com compreensão e caridade no lugar de castigos e penitências. Tal modo de governar lhe trouxe inimigos ferozes, que não pouparam injúrias e calúnias contra ele, o que teria graves repercussões para o seu futuro.

Em sua simplicidade não percebeu que uma fina teia de intrigas ia se formando à sua volta. Madre Teresa já o advertira por diversas vezes que tal simplicidade e inocência era própria dos santos, mas que o demônio dela podia se apropriar para o mal. Gracián não se emendou, e nem podia, pois essa era uma marca do seu temperamento. E a teia ia se fechando... Ao final do seu Provincialato eram tantas as acusações contra ele que não teve outra saída senão tratar de sua defesa escrevendo um relatório que levou como título: Apologia e defesa contra as calúnias contra o Fr. Jerônimo Gracián da Mãe de Deus nos quatro anos de seu provincialato.

Neste relatório podemos lançar um olhar mais profundo sobre a alma pura e simples desse homem que tanto foi amado por Santa Teresa e que viria a ter terríveis inimigos que o lançaram na desgraça e sofrimento, por pura inveja e ciúmes.

Reproduzo parte daquele relatório pela sua importância e significado[60] :

“A primeira das calúnias é que fui negligente e omisso em castigar e dar penitências [...] imputando-me as culpas daqueles que praticaram excessos e, como se não bastasse, aumentaram esta culpa dizendo que eu amparava e favorecia os maus e relaxados”. A tal acusação Jerônimo Gracián dá uma grande lição de vida, de amor e caridade: “Minha inclinação pessoal tende mais à brandura  que ao rigor, ao amor que ao ódio, à paz que ao castigo, a fazer o bem que fazer o mal. No entanto, jamais deixei de aplicar a devida correção quando me vi obrigado por consciência e justiça.” 

O espírito pacato, porém ativo, do Pe. Gracián não se abatia com os ataques injustos e por vezes perversos, de seus inimigos ao contrário, suas forças e disposição, seu amor e zelo pelo Carmelo só aumentavam. Quando ainda se debatia na dúvida sobre sua vocação para o Carmelo, ele, por inspiração da Virgem, tomara a decisão de - se preciso fosse - dar a vida por ela. Tal decisão não foi um ato de passageira pieguice, foi uma decisão madura e decidida à qual jamais renunciaria. A Virgem do Carmelo o assistia e o consolava  e por meio de Teresa de Jesus o incentivava a continuar no “bom combate”, como disse S. Paulo.

Assim, mesmo tendo que se haver com as atividades próprias de um Provincial e se defender das contínuas invenções e calúnias dos seus inimigos, Jerônimo Gracián conduziu a Ordem dos Carmelitas Descalços, sua querida Ordem, de modo competente tanto em seu aspecto espiritual como jurídico. 

Um erro de julgamento? 

Em sua Apologia, Gracián, ao se defender da acusação de privilegiar seus amigos e recusar aqueles que não o eram, afirma que possivelmente cometeu tal erro. Mas no sentido contrário, ou seja, aqueles que poderiam lhe servir de apoio eram tratados com mais rigor e, com mais brandura e compaixão, aqueles que por ele não nutriam simpatia. Santa Teresa, mesmo vendo muita caridade neste modo de proceder, não deixou de alertá-lo para que ficasse atento, pois algumas almas mal intencionadas podiam se aproveitar dessa sua simplicidade e fazer algum dano a ele e à Ordem[61] . Gracián, por sua índole pacífica, não deu a atenção necessária à advertência de Teresa e, de certo modo, sua virtude foi o caminho que seus inimigos usaram para jogá-lo nas mais hediondas situações.

Com razão ou não, é inegável – e isto são os documentos históricos que mostram -,  o Pe. Dória foi um daqueles “protegidos” de Jerônimo Gracián que veio a se tornar o principal articulador e executor da grande perseguição movida contra ele.

Quem foi o Pe. Dória para ter tal poder e por que agiu de modo tão em desacordo com o que se espera de um homem consagrado ao serviço do Deus, da misericórdia e do perdão?

 Pe. Nicolau de Jesus Maria (Dória) nasceu em 18 de maio de 1539 na cidade de Genova, Itália. Filho de Domingos e Maria Dória. Não pertencia ao ramo nobre da família Dória, mas a um ramo de comerciantes[62] . Chegou à Espanha em 1570 para aproveitar-se da abertura que a Espanha dava aos estrangeiros na exploração dos negócios mais lucrativos. Depois de perambular pelas diversas Províncias espanholas, Nicolau Dória fixou seus negócios em Sevilha, centro de riquezas trazidas pelas frotas espanholas das colônias de além-mar e aí, com a sua tenacidade e competência nos negócios, fez grande fortuna e viveu, por algum tempo, a vida fútil e pouco exemplar. Grande era o seu crédito como homem hábil e experiente nos negócios. Em Sevilha, os seus patrícios tinham-no em alta consideração e com freqüência o consultavam como a um oráculo.

Mas, a sua consciência o acusava daquela vida de riquezas e das frouxidões morais que a riquezaacostumam trazer; resolveu mudar o seu estilo de vida e seus valores: distribuiu parte de sua fortuna para obras pias e, com o remanescente de sua fortuna, decidiu viver o estado eclesiástico. 

Freqüentou algumas aulas universitárias e após ter concluído dois cursos de Artes, Teologia e Moral foi ordenado presbítero. Seu interesse pela Ordem dos Carmelitas Descalços foi, certamente, despertado pela intimidade que manteve com seu conterrâneo Pe. Ambrosio Mariano que vivia no convento “dos Remédios”, fundado pelo Pe. Gracian.

O Pe. Dória começou a ficar conhecido no meio religioso fazendo o que melhor sabia: lidar com finanças. O Arcebispo de Sevilha estava às voltas com o perigo de ver as economias da arquidiocese – que estava em mãos inábeis – desaparecer. O Pe. Mariano sugeriu ao atarefado Bispo – que sempre esteve muito a favor da causa dos Descalços – que tomasse o seu conterrâneo – Pe. Dória – por “tesoureiro”. Sem muita tardança as finanças da arquidiocese estavam saneadas e os riscos de graves prejuízos afastados. Dom Cristóvão – Arcebispo de Sevilha - , a partir deste feito, passou a ter o Pe. Dória entre seus amigos mais achegados. Mais tarde, prestaria ao Rei os mesmos favores financeiros.

O desejo de retirar-se para o claustro o incentivou a investigar as diferentes Ordens, ficando indeciso em qual delas entrar. Acabou por decidir-se pela Ordem dos Carmelitas Descalços pois, além do Pe. Mariano – seu conterrâneo – conhecia e admirava outros religiosos da mesma Ordem; no entanto, sua opção pela “Descalcez” seguiu os mesmos princípios em que sua mente de mercador fora treinada. Escreveu um contemporâneo: “Dez meses antes de receber o hábito – sem que ninguém soubesse dessa sua intenção –, foi ao convento “Dos Remédios”, a título de amizade, para provar mais de perto suas forças e experimentar a vida Descalça”[63] . Por fim decidiu pela Descalcez e foi aceito pelo Pe. Gracian como noviço daquela Ordem.

Após o noviciado começou a fazer “carreira” na Ordem sendo eleito muito cedo Prior do convento de Pastrana. Sua sagacidade para negócios e política foi inegável; sua influência a cada dia tornava-se mais expressiva no interior da Ordem, a tal ponto que na preparação do Capítulo de separação dos Calçados dos Descalços o Pe. Dória foi escolhido como primeiro definidor e São João da Cruz, pilar da Ordem, ficou com o terceiro lugar. O doutor da Igreja foi preterido em favor do estrategista.

Santa Teresa, que a tudo observava e via o quanto Gracián sofria para manter a Ordem em seus fundamentos, acreditou que o Pe. Doria poderia ser de ajuda e, nesta crença, escreveu ao Pe. Gracián uma carta, datada de 7 de julho de 1579, onde dizia: “O padre Nicolau esteve comigo em Ávila três ou quatro dias. Consolei-me muito, por ter já vossa paternidade uma pessoa com quem possa tratar das coisas da Ordem, que o possa ajudar, pois tinha muita pena ao vê-lo tão só e destituído de auxílio nas coisas da Religião”.

Entretanto, adverte Moriones , “Durante os quatros anos de governo do Pe. Gracián, o Pe. Dória esteve a maior parte do tempo ausente da província por causa de suas viagens à Itália: a primeira, de julho de 1582 até maio de 1583; a segunda, de novembro de 1583 até outubro de 1585, quando voltou para a Espanha para tomar posse de seu cargo como provincial”[64] .

Como alguém pode tornar-se provincial de uma Ordem com ausência tão prolongada, sem estar vivendo o cotidiano dos conventos, as dificuldades típicas do dia a dia que tornam possível o conhecimento dos irmãos e fortalecem os vínculos da irmandade? O Pe. Dória, já o sabemos, era um excelente negociador e, além disso, tinha um relacionamento muito íntimo com os poderosos da época, tanto eclesiásticos como seculares. Mas ele tinha também, um grande aliado: o Padre Jerônimo Gracián da Mãe de Deus. Infelizmente ninguém podia saber ou imaginar qual seria o resultado do governo daquele genovês. Tinha, como se sabe, capacidade administrativa e fidelidade às práticas ascéticas apreendidas no noviciado. Porém – pergunta Moriones –, “será que possuía também as qualidades e a experiência de mestre de espírito que no plano de vida religiosa estabelecido por Teresa eram fundamentais e nas quais tinham sobressaído muitas prioras entre as Descalças e João da Cruz ou Jerônimo Gracián [...] entre os Descalços [...]?.Era uma incógnita a que só a história poderia responder.”[65]  E a história deu a sua resposta.

Mas esta pequena biografia é sobre o Pe. Gracián e é preciso a ela retornar. Esta pequena mudança de rumo – falar sobre o Pe. Dória – foi necessária para que o leitor possa compreender a dimensão das perseguições, das maledicências, invenções e calúnias que foram movidas contra o Pe. Gracián, tendo por principal mentor aquele ao qual deu abrigo e acalentou.  Com efeito, mesmo sendo provincial, Gracián foi enredado em tantas acusações arquitetadas,  das quais o Pe. Dória tratou de aproveitar-se e pedir a retratação e penitência de seu superior. Gracián, embora não reconhecendo as acusações, humildemente procurou atender ao que lhe exigiam. Não sabia ele que tudo se tratava de um plano para desestabilizar a sua autoridade.

Era sabido que o Pe. Dória não tinha o seu provincial em boa conta. Disso também sabia o Pe. Gracián e não foi por outra razão que provocou estupefação quando, com grande nobreza de espírito, desapego e espírito de conciliação propôs – no Capítulo de 1585 – o nome do Pe. Dória como seu sucessor.  Dória teve todos os votos, à exceção de dois: um para o Pe. Mariano e outro para o Pe. Alonso de los Angeles. Tal unanimidade, com toda certeza, derivou do grande prestígio que gozava o Pe. Gracián. Outra coisa não se pode concluir da triste profecia feita por São João da Cruz: “Ele [Gracián] elegeu aquele que o expulsará da Ordem”[66] . Tal prestígio também pode ser notado pela decisão do Capítulo em elegê-lo como primeiro Definidor e, mais tarde (outubro de 1585), designá-lo como Vigário provincial de Portugal.

Tudo parecia ir bem, mas era pura aparência. O novo provincial determinou que os passos e atos de Gracián fossem seguidos de perto. Institui-se uma espécie de controle sobre a vida do Pe. Gracián. Qualquer decisão por ele tomada podia, aos olhos dos seus controladores, transformar-se em  grave desvio.

No final de 1586 forma-se a primeira tempestade sob a cabeça de Gracián. Ele havia publicado um opúsculo com o sugestivo título: Estimulo de la propagación de la fe”. Foi o suficiente para Dória passar-lhe uma descompostura e mandar que retirasse o livro de circulação. O que alegou o Pe. Dória para tal dramaticidade? Primeiro: Gracián não havia lhe pedido a licença para a impressão do livro e, segundo: não concordava com o zelo missionário que o livro exaltava. Eis um trecho do livro que certamente irritou o Pe. Dória, tão cioso em manter os carmelitas descalços trancados em seus conventos:

“Não sei para que serve disputar questões ventiladas com tantos argumentos e gastar tempo em escolas adquirindo com tanto cuidado e dedicação a ciência da sagrada teologia, à qual se atribui – segundo diz Santo Agostinho –  a finalidade de engendrar, aumentar e fortalecer a fé católica, se nunca se toma por obra planta´-la nos corações daqueles que dela carecem.”[67]    

Na verdade, o Pe. Dória buscava, em todos os cantos, argumentos para fazer calar a voz de Santa Tereza de Jesus que continuava viva nos escritos e pregações do Pe. Gracián. Dória, ao assumir o cargo de provincial, inventou umas tantas reformas contrárias ao verdadeiro espírito teresiano. Introduziu – em 1585 -  uma nova forma de governo: a chamada “Consulta”.

Gracián era um incomodo, não só ele, mas todos aqueles que permaneceram fiéis às instruções deixadas por Teresa de Jesus..  

6  INTRIGAS E PERSEGUIÇÕES 

Muitas são as cartas escritas por Santa Teresa ao Pe. Jerônimo Gracián da Mãe de Deus. Tantas foram que poderiam constituir um capítulo à parte. A ninguém a Santa escreveu tanto e ninguém, como Gracián, se empenhou em conservar e transmiti-las. Em termos numéricos ultrapassam a 100 cartas. No entanto, não é a quantidade – se bem que ela revela o apreço que tinha Santa Teresa por este homem de Deus, mas sim a qualidade, o conteúdo de tais cartas que fazem delas um verdadeiro tesouro.

A troca de correspondência começou a tomar consistência e regularidade a partir do encontro dos dois em Beas: 1575. Gracián tinha 30 anos de idade e 5 de sacerdócio. Teresa de Jesus tinha 60 anos de vida e 13 como fundadora. Como vimos no capítulo anterior, o encontro durou vários dias, e impressionada com a santidade e valor daquele jovem sacerdote, lhe abriu a alma e, por iniciativa pessoal, fez a ele  voto de obediência. Um voto pelo qual não apenas lhe confiava a alma como também o tornava  co-responsável por  sua obra fundacional.

Tal privilégio não podia deixar de despertar ciúmes em muitos outros que gostariam de ser os destinatários de tais cartas e de gozar da enorme confiança depositada pela Santa naquele jovem sacerdote.

Jerônimo Gracián foi um homem de visão avançada para o seu tempo. Seu coração era movido pela misericórdia e seu olhar dotado daquilo que Santa Edith Stein – analisando a obra de São João da Cruz - chamaria de “objetividade dos santos”[68] , pois ele não via aqueles,  com os quais tratava, como homens ou mulheres, mas como criaturas de Deus. Este modo de ver mostra-se com toda sua exuberância em uma das páginas do seu livro “Peregrinação de Anastácio”. Falando sobre amar aos inimigos ele expõe com clareza e - muito ao seu estilo literário – com exemplar didática.

Cristo não disse amate inimicos, mas sim diligite inimicos vestros[69] , pois amar é coisa do sentimento e Diligite pertence à vontade[70] . “Se um sacrário, pessimamente esculpido em pedra, traz em seu interior o Santíssimo Sacramento, não deixo de adorá-lo ou reverenciar. Embora preferisse que aquele sacrário fosse mais digno, fecho meus olhos ao exterior e não ao que contém. Do mesmo modo, sei que Deus está, em essência, presença e potência, naquele que me persegue. Assim, não os culpo.[71]  

Tal como Santa Teresa, seguindo estritamente os ensinamentos evangélicos, procurava não tornar mais pesado o fardo que cada um tinha que suportar[72] . E esta, que era uma virtude – e continua sendo –, transformou-se em uma pesada peça acusatória contra a vida apostólica e administrativa do Pe. Gracián. Foi duramente acusado de patrocinar a vida relaxada nos conventos, de ser demasiado benevolente na aplicação das penitências, de dedicar-se demais ao estudo e à pregação[73] ..., enfim, foi acusado de não seguir o carisma que Santa Teresa estava, junto com ele e São João da Cruz, consolidando no seio da Igreja. 

As acusações 

Com a morte de Santa Teresa (1582) começou para Gracián o seu verdadeiro calvário. Os algozes: seus irmãos de Ordem; principalmente alguns daqueles aos quais ele mais particularmente ajudou e apoiou. Quais foram as acusações e maledicências? Pode-se dizer que foram de todas as ordens: moral, administrativa, dogmática... Vejamos algumas mais corriqueiras nascidas da imaginação de mentes pouco sadias. 

1.         Certa noite, após o jantar, chegou às portas do convento um homem que tinha sido esfaqueado, gemia e pedia por confissão. Tendo ouvido os gemidos e apelos do pobre  homem, Gracián disse: “vamos rápido atendê-lo em confissão.” Mas uns tantos lhe chamaram a atenção: “não se pode abrir a porta, é contra a obediência”. “Que obediência! Não há que obedecê-la, vamos atendê-lo antes que morra”, contestou Gracián  e saiu para ouvir a confissão do moribundo.  Aqueles que não queriam que a porta fosse aberta passaram a incriminá-lo dizendo que ele ignorava o voto de obediência e que dizia coisas que chegavam perto da heresia.[74]  

Este fato nos faz recordar a interpretação dada pelo próprio Jesus a respeito da obediência à Lei judaica do sábado[75] . Parafraseando o texto evangélico, quase se pode dizer que Gracián teria dito: “mais vale a misericórdia que salva uma alma que a obediência estéril”.

A maledicência rondava o Pe. Gracián. Suas ações, suas decisões eram continuamente transformadas, por seus detratores, em atos condenáveis. Um outro caso: 

2.         Estando supervisionando uma construção de um convento em Lisboa, na hora da sesta – arraigado costume espanhol – devido ao rigor do verão, as monjas deixaram à disposição do Pe. Gracián um colchão para que se recostasse. Deste fato, de simples cordialidade e pureza de intenção, passaram a escrever que Gracián dormia nas camas das monjas, e isto com acréscimos pouco edificantes.

3.         Gracián nos conta que Teresa de Jesus lhe havia dado algumas relíquias. Por estarem desprotegidas, uma priora mandou que elas fossem acomodadas em um relicário. Tal relicário Gracián o levava sempre consigo. Deste ato, gentil e respeitoso para com as relíquias, passaram a concluir e divulgar um suposto romance entre o padre e a priora. Isto somente porque o relicário tinha o formato de um coração. 

Mas estas pequenas calúnias e invenções, como muitas outras mais escabrosas e injuriosas,  tinham um objetivo maior e mais dramático. O inimigo era ardiloso: ia pondo em dúvida, lentamente, com pequenas insinuações – mas com conteúdo grave –,  a honra do Padre Gracián. Quando chegasse o momento do golpe fatal, a vítima já não poderia contar com muitos defensores: os estragos já tinham sido feitos.

Não conseguindo provar nenhuma das acusações e calúnias, seus inimigos passaram a tramar seu afastamento da península ibérica (Portugal e Espanha). Primeiro o destinaram ao México. Mas enquanto se preparava para partir para o Novo Mundo, as calúnias e acusações contra ele, contra as monjas descalças e todos aqueles que o tinham como guia,  tornaram-se mais intensas e maldosas.

Ferido em seus sentimentos mais íntimos, decidiu defender a si mesmo e a obra teresiana que Dória e seus seguidores estavam tentando desfazer[76] .

Infelizmente não conseguiu demover seus perseguidores e detratores. Em sua declaração de defesa foi tão claro e preciso na descrição dos métodos rasteiros utilizados por seus inimigos que, em lugar de assustá-los ou os deter, provocou ainda mais a sanha de seus inimigos que se tornaram mais duros e tenazes.

A ordem para ir ao México foi suspensa. Mas isto não significou uma trégua, ao contrário, o ataque direto e demolidor iam começar. Foi instalado um processo formal contra o Padre Gracián (outubro de 1587) e ele deveria responder as acusações contra ele formuladas. Deste primeiro “exame” escapou com a ajuda de inúmeros testemunhos a ele favoráveis e até de santidade. O membros do “tribunal” devem ter quase entrado em pânico pois não esperavam defesa tão brilhante e tantas declarações a favor do eleito por Teresa de Jesus. Não tiveram outra saída senão andarem com mais cuidado e prudência no zelo que não passava de puro pretexto para  dominar e se apropriar daquilo que não lhes pertencia: o carisma teresiano77 .

Mas o orgulho e a cobiça não andam de mãos dadas com a prudência e a caridade. Nenhuma trégua foi conseguida. Uma vez recebeu uma admoestação sobre algumas “faltas”; em seguida recebe uma intimação (15 de março de 1588) para apresentar-se em Madri para responder, diante de seus superiores, sobre as razões de suas reincidências nos “erros” e “faltas”. Com presteza e humildade ele atende à intimação; talvez esperasse que lhe dessem espaço para explicações. Mas a cena montada era outra: cassam seu direito de defesa escrita ou falada e lhe ordenam que parta imediatamente para o México.

Se o homem põe, Deus dispõe – diz o dito popular –, e assim sucedeu neste caso. Estava Gracián se preparando para a viagem ao México quando chegam ordens das autoridades religiosas de Portugal e Espanha atribuindo a ele novas missões em terras  Portuguesas. Segue a esta ordem uma outra, do núncio pontifício na Espanha, Dom César Spiciano, impedindo que Gracián  saísse de Portugal. Estava Gracián, por enquanto, fora do alcance das mãos de Dória e seus seguidores.

A permanência de Gracián em Portugal pode ser entendida como um período de tréguas, mas não de esquecimento e desejo de sentenciá-lo. Neste período seus amigos e admiradores trataram de juntar abundante documentação e testemunhos que certificavam a inocência do Pe. Gracián e a sua vida exemplar. Mas quando o lobo quer comer o cordeiro – como na fábula de La Fontaine – sempre encontra uma desculpa. De pouco serviu a enorme quantidade de fatos favoráveis à inocência do Pe. Gracián. Aqueles que contra ela laboravam faziam ouvidos de surdo: nada os convencia, era como se o acusado (Gracián) já estivesse sentenciado de antemão.

O sucesso de suas atividades em Portugal, aplaudidas pelas autoridades eclesiásticas e civis daquele país, a começar por Dom Teotônio de Bragança[78]  e pelo Cardeal Alberto[79] , moviam o ânimo de perseguição dos dorianos. Gracián foi obrigado a comparecer para justificar-se, em Capítulo, na própria comunidade lisboeta diante de frades instruídos pelos superiores da Consulta.

Gracián estava em Portugal há dois anos. Sua licença havia chegado ao fim. Agora ele estava sem o apoio de DomTeotônio e do Cardeal Alberto – eles nada podiam fazer nos negócios da Ordem. Dória viu que o momento era propício e instalou contra ele um processo regular. Ordenou que se apresentasse em Madri em 25 dias. Esta foi a carta que O Pe. Dória enviou ao Pe. Jerônimo Gracián : 

Fr. Nicolas de Jesus Maria [Dória] Vigário Geral da Congregação dos Carmelitas Descalços.Posto que ficou determinado em nosso Definitório que venha a este Convento de S. Hermenegildo de Madri, o Pe. Fr. Jerônimo da mãe de Deus [Gracián] – religioso de nossa Ordem – que atualmente se encontra em nosso Convento de S. Felipe de Lisboa: portanto, pelo teor da presente, mando que o mesmo, dentro de 25 dias, contados desde o dia da data desta, se apresente no referido Convento(...)Madri, 3 junho de 1591. Ass: Fr. Nicolas de Jesus Maria. 

Como uma declaração de obediência Gracián chegou a Madri exatamente no dia 28 de junho cumprindo assim, com toda exatidão de dias, a ordem que lhe fora dada pelo Pe. Dória.Chega a ser escandalosa a ira do secretário da Consulta contra Gracián. Ele escreveu e assinou os seguintes termos: 

“... veio a Madri como um desesperado, sem humildade e resignação. Muito desejava o padre Fr. Nicolas e todo seu Definitório que Gracián viesse a eles com humildade(...) como lhe viram daquela maneira, deu a todos muita tristeza pois parecia que aquele  estado era resultado de muitos desassossegos (...). E assim, ao cabo de poucos dias, se decidiu que era necessário trazer este homem à razão (...)Para tanto foi posto prisioneiro em uma cela”.

Tem-se a impressão, quando se lê este texto, que o Pe. Gregório de Santo Ângelo está escrevendo sobre outra pessoa – ou tinha intenções ocultas. O Pe. Gracián jamais teria tal comportamento, não era do seu feitio. Santa Teresa, em suas cartas, bem descreve o seu temperamento de mansidão e a sua típica “santa ingenuidade”. Também São João da Cruz transmitiu a Santa Teresa  a boa impressão que teve quando conheceu o Pe. Gracián. Tal impressão a Santa deixou para a história em uma carta na qual anotou: “Sêneca[80] , contentíssimo, pois encontrou mais em seu Superior [Gracián] do que ele poderia desejar”. A quem se há de tributar a verdade: a dois Santos ou a almas sequiosas de poder?

O Pe. Dória não estava satisfeito em deixar Gracián preso, queria deixá-lo totalmente sem comunicação; assim, em agosto de 1591, publicou um decreto impedindo, sob o peso da excomunhão, que nenhum religioso ou religiosa, súdito ou súdita, por si ou por procuração, escrevesse ao Pe. Gracián sem licença da Consulta.[81]

O grupo do Pe. Dória tinha, como se diz, “a faca e o queijo na mão”, estava tudo pronto para o golpe fatal, tão ardilosamente elaborado. Mas a maldade nunca está saciada e entra em cena o infeliz Fr. Diego Evangelista com novos embustes e artimanhas indignas do hábito religioso. Frei Diego era o mesmo que pouco antes torturara a alma de São João da Cruz, nos últimos dias de sua vida. Iria repetir o mesmo com o Pe. Jerônimo Gracián. Sua técnica era fazer-se de amigo e defensor, prometer o que fosse necessário, convencer o acusado de que bem lhe faria confessar alguns pequenos pecados. Diante da recusa do acusado, que insistia em nada ter a declarar, ele retornava à cela, dia após dia, até levar a vítima à exaustão e, em tal estado de ânimo, iria se aproveitando de frases soltas para compor uma peça de grande crime. Não era necessária tal tortura. O “tribunal” já tinha há muito tomado sua decisão: expulsar Jerônimo Gracián da Ordem dos Irmãos e Irmãs Descalços da Virgem Maria do Monte Carmelo. E assim foi feito.

Na sentença de expulsão está escrito: 

“...foi declarado incorrigível e, como tal, mandavam e mandaram que se lhe tirasse o santo hábito de nossa Ordem e  seja expulso e esquecido dela e que não mais vista aquele hábito, sob as censuras e penas contidas no Breve que a Ordem tem do Sumo Pontífice Sixto V.” 

Comentando tal sentença, o Pe. Silvério de Santa Teresa, talentoso historiador da Ordem Carmelita, escreveu o seguinte: 

“Da simples leitura da sentença se pode perceber que com um pouco de tolerância mútua a tragédia, já prevista por João da Cruz, poderia ser evitada. Limpo estava o Pe. Jerônimo dos feios vícios que os maledicentes e caluniadores haviam levantado contra ele; tampouco sua chegada a Madri foi tratada com as considerações que sua história na Reforma merecia e também sua simples condição de réu. A atitude desdenhosa do Pe. Dória e sua rudeza ante o religioso que vinha jogar-se humildemente a seus pés acabou por desconcertar o Pe. Gracián e lhe deu certeza que sua causa não tinha remédio: fizesse o que fizesse para reconciliar-se com seu superior. Gostaríamos de ver, nesta ocasião, mais benevolência, tolerância e mais afabilidade no padre Nicolas, que não podia desconhecer a magnitude do sacrifício que fazia o Padre Jerônimo naquele momento, deixando o Reino de Portugal, onde era tão querido do Príncipe Regente, da nobreza e do povo, para vir a Castilla onde, por melhor que fosse, estava deparando somente com humilhações , suspeições sobre seu bom nome e pureza de seus costumes.”[82]  

Dória havia cumprido seu desejo, agora estava soberano. São João da Cruz – que também se opunha às suas reformas – já havia falecido e se sobrevivesse à sua doença também seria expulso da Ordem, como se pode concluir do andamento dos processos e das investidas do frei Diego Evangelista contra o Santo.

Embora possa não ser fato provado, mas está registrado e tem lá seu sabor transcendental, conta-se que São João da Cruz teve a seguinte revelação: “Vi que nosso padre vigário geral e os definidores entravam no mar, e eu lhes ordenava para que não entrassem pois iriam se afogar. Vi que a água lhes chegavam às canelas, aos joelhos, à cintura. E eu dizendo para que não entrassem. Não teve jeito, continuaram a avançar e se afogaram todos.”[83]

Curiosamente, logo após a expulsão do Pe. Jerônimo Gracián morreram, em curto espaço de tempo, os que haviam tomado parte do processo contra ele: Nicolas Dória, frei Tomás de Aquino, frei Gregório Nacianceno, frei João Batista - o que em Roma trabalhou para que a sentença não fosse revogada -, frei Diego Evangelista e outros.

Faz todo sentido reproduzir a pergunta que Maria de São José (Salazar) deixou escrito em seu “Ramalhete de Mirra”: “Onde estão, caríssimos irmãos e irmãs, aqueles homens diante dos quais, não faz um ano, todos tremiam, e aos quais - por medo ou pretensão - vos entregastes, alguns negando a verdade e outros dissimulando com a mentira?”

O Pe. Dória havia atingido o seu objetivo: afastara definitivamente o seu grande opositor. São João da Cruz já estava na glória do Senhor e era, portanto, inalcançável. Agora estava livre para pôr em marcha toda a reforma que pretendia, desfigurando – em muitos pontos – tudo aquilo que Teresa de Jesus, João da Cruz e Jerônimo Gracián haviam levado anos para, com a graça de Deus, construírem: o verdadeiro carisma dos Carmelitas Descalços.

É digno de nota ressaltar que Santa Teresa deixou uma Constituição limpa, cristalina, bem ajustada ao espírito evangélico, com 59 parágrafos; a que o Pe. Dória deixou tinha nada menos que 461 parágrafos. Para a Madre Teresa o estilo religioso deveria ser suave, discreto, letrado e apostólico. Dória, ao contrário queria que os religiosos fossem penitentes, rigorosos e eremitas, ou seja, deveriam viver fechados em si mesmos, se consumindo como um candeeiro escondido que não irradia sua luz.

Na nova concepção de vida comunitária perdeu-se totalmente o sentido teresiano da  flexibilidade, diz Moriones, o exercício do ministério sacerdotal à Igreja ficou subordinada à vida comunitária cotidiana: “De tal maneira se exerça a pregação e o serviço ao próximo que a vida regular [conventual] não sofra dano algum”. “A observância regular deve ser preferida às outras coisas”.84  

Gracián não se ajustaria a este novo sistema, enorme o seu ardor apostólico, totalmente apoiado pela Santa Madre Fundadora. Mas ele agora nada mais podia fazer. Dória o transformou em um pária errante, em uma preciosa e rara ave, sem ninho onde descansar.

Expulsaram-no da ordem, dele tiraram o hábito que tanto amava e lhe vestiram um burel de peregrino. Com todo o peso daquela injusta sentença saiu o filho predileto de Santa Teresa de Jesus em peregrinação...  

7  COMEÇA A PEREGRINAÇÃO 

O Pe. Gracián tinha, à época, 47 anos e se sentia cheio de vitalidade. Mas deve-se imaginar o seu estado de ânimo: ele, um dos grandes esteios da construção teresiana, fora tratado como um estranho e posto na rua como um cão sem dono. Sua alma se torturava, não movido pelo orgulho, mas pela dúvida. O que fazer agora? Seus irmãos o haviam torturado, denegrido e, finalmente, retirado o que ele trazia com zelo e amor: o hábito da Santa Mãe de Deus.

Seu espírito se torturava, não por ele, mas pelo tão longe que foram aqueles que dele queriam se ver livres, difamando monjas tão santas e tão seguidoras de Santa Teresa. Agora, não mais pertencendo à Ordem, pouco podia fazer para limpar a honra daquelas que tomaram Cristo por esposo e foram tão vilipendiadas pelo grupo doriano. Tinha que lutar, sabia que o seu combate era um bom combate e não podia esmorecer, mesmo que tudo parecesse concorrer para a derrota de sua causa. Via apenas uma saída: recorrer à suprema autoridade da Igreja. Decidiu então ir a Roma. 

Viagem a Roma 

Saiu de Madri 10 dias depois de sua expulsão da Ordem e se dirigiu a Alicante para daí embarcar para Genova. Enquanto esperava o próximo navio se manteve ativo no apostolado, exercendo o ministério sacerdotal. Mas uma ingrata surpresa o esperava: encontrou dois freis da Ordem dos Descalços que também iam para Roma. Mas o objetivo dos dois era  contrário ao seu: eles iam, com instruções de seus superiores, preparar o terreno contra o Pe. Gracián. Sabendo dos seus planos os dorianos se prepararam para frustrá-los na origem. Roma estaria “preparada” contra a sua defesa, quando ele lá chegasse.

Zarpou para Roma no início de abril, chegando a Genova em 16 de maio e, no dia seguinte, continuou sua viagem até Civitavecchia e daí seguiu por terra até alcançar Roma, no começo do mês de junho. Neste projeto gastou todo o dinheiro que tinha, se viu só e pobre. Não tendo outro recurso senão recorrer à caridade, pediu que lhe constituíssem juízes para examinarem sua causa. Não lhe foi negado o pedido. Foi nomeado o Pe. Jesuíta Francisco de Toledo – que em seguida tornou-se cardeal - e depois o Pe. Alexandre, dominicano- que depois foi sagrado Bispo. Enquanto isso, os contrários ao Pe. Gracián não esmoreciam em seus esforços para divulgar, entre os cardeais, a sentença e memoriais contra  ele. Decidiu-se que não se deveria ouvi-lo, que a sentença passada pelos Descalços fosse cumprida. Não foram suficientes os apelos do Pe. Toledo: “por que não se havia de ouvir a um homem, mesmo ele sendo tão mau quanto pintavam?” Mas o Pe. Alexandre – que no início tinha o mesmo parecer que o Pe. Toledo – passou a assumir uma posição contrária e tornou-se o mais empenhado em convencer ao Pe. Gracián a esquecer tudo e tomar o hábito de uma outra Ordem. Como se não bastasse o trabalho de convencimento, ameaçou despachá-lo para as galeras.

O Pe. Jerônimo Gracián estava aturdido, não sabia o que poderia estar se passando; jamais esperaria uma reação tão sem misericórdia de homens que detinham altos cargos na Igreja. Qual era o segredo?

O Pe. Gracián não era um fraco; educado na escola de Santa Teresa, não ficou desalentado e tampouco perdeu a calma diante de tantas dificuldades. Seu desejo de continuar pertencendo ao ramo Descalços dos Carmelitas o fez persistir na luta para ser ouvido e julgado novamente. Esta atitude firme de Gracián contrariava terrivelmente o padre Procurador, Fr. João Batista e, naturalmente, ao padre Dória. Este, certamente com medo de que os argumentos do padre Gracián fossem considerados, tratou de jogar com a mais forte personalidade da Espanha católica, nada mais que o rei Felipe II que escreveu a seu embaixador em Roma, em 9 de novembro de 1592, ordenando: “sobre o que toca à causa de Fr. Jerônimo Gracián (...)  não se dê provisão em contrário”. [85]

O  duque de Sessa – embaixador em Roma –, tomado de pena, mostrou a Gracián a razão de suas dificuldades: a carta de Felipe II. Que mais podia fazer Gracián senão “baixar as velas”, encolher os ombros, calar a boca e socorrer-se em Deus?

Para não ser “jogado às galeras” Pe. Gracián seguiu o conselho do Pe. Alexandre: buscar outra Ordem. Foi aos Capuchinhos, Cartuxos, Franciscanos Descalços e todas as demais Ordens religiosas. Nenhuma delas o aceitou e ele se viu como um indesejável, como o mais infame dos religiosos.

O padre Dória fazia todo o empenho para que Gracián entrasse em outra ordem, conforme constava da sua sentença de expulsão mas, na sua insensatez,  Dória e seus agentes em Roma dificultavam que tal coisa se realizasse, pois de Gracián espalhavam tantas infâmias que nenhuma Ordem o aceitaria. A troco de que iria uma outra Ordem receber um religioso “tão dissipado”, que poderia fazer, para ela, tanto mal como fizera aos Descalços? Dória e seus seguidores já se perdiam nas suas artimanhas.

Diante de tais fatos os detratores de Gracián conseguiram que o Papa expedisse um mandato obrigando os Dominicanos a aceitá-lo. Mas a história dos homens é escrita por mãos invisíveis. Tendo sido notificado da decisão Papal, o Vigário Geral dos Dominicanos – frei João Vicente – jogou-se aos pés do Papa perguntando: “ em que havia pecado a Ordem de São Domingo para ser forçada a receber um expulso dos Carmelitas”?[86]  O Papa, percebendo o erro – embora por razões inverídicas –, voltou atrás.

Sobre este episódio o Pe. Jerônimo Gracián faz um comentário que bem mostra a sua fidelidade e amor às duas grandes mulheres de sua vida: “A Virgem Maria e a santa mãe Teresa devem ter visto, lá do céu, que não era caminho para minha salvação ser religioso contra minha vontade em outra Ordem, por santa que fosse, tomando o hábito por negociações humanas e não por divina vocação”[87] .

Os Descalços passaram a aconselhá-lo a não revelar, nos conventos que procurava, que fora expulso da Ordem. Ele, porém, sabendo que esta seria uma saída, sabia também que era um pecado grave. Por esta época teve a sorte de encontrar-se com um antigo amigo dos tempos de estudante em Alcalá. Era o Pe. José Acosta, da Companhia de Jesus. Pôde, com ele, conferenciar e acalmar-se um pouco. Pediu que lhe ouvisse em confissão e perguntou-lhe se podia mentir, para ser aceito em uma outra ordem, sobre o fato de ter sido expulso da Ordem do Carmo. A resposta do Pe. Acosta foi um claro e sincero não.

Como  amigo do Pe. Gracián e conhecedor da política romana Pe. Acosta o aconselhou que escrevesse um memorial ao Papa em que pediria – posto que nenhuma Ordem o queria aceitar – que indicasse uma das Ordens existentes disposta a aceitá-lo que ele a acataria sem delongas. Aconselhou ainda que, logo após enviar o memorial, saísse de Roma deixando, no entanto, o endereço para onde suas correspondências deveriam ser enviadas.

 Peregrinando pela Itália 

Já haviam passado sete meses e o Pe. Gracián não conseguia avançar em nada, ao contrário, notava que o queriam longe dali. Seguiu o conselho do Pe.  Acosta e continuou sua peregrinação, desta vez em direção a Nápoles, onde chegou no final de 1592. A maledicência, como se sabe, tem asas nos pés. Ao chegar em Nápoles, o Vice-Rei o recebeu com grande displicência e, demonstrando que já era sabedor das calúnias, tudo fazia para não se encontrar com ele. Antes de decorrer um mês, vê-se forçado a continuar sua peregrinação, desta vez por mar, em direção à Sicília. Aqui sentirá um pouco de apoio e compreensão por parte da Condessa de Olivares, que o acolhe com generosidade e lhe dá abrigo no “Hospital de Santiago dos Espanhóis”, em Palermo. Ademais escreveu a Roma dizendo que as correspondências do interesse dele fossem enviadas a ela, pois “o tinha naquela cidade servindo os enfermos daquele hospital.”

Gracián, enfim, encontrou um pouso onde pôde sossegar. Aproveita esse tempo para compor alguns escritos[88]  e desenvolver uma intensa atividade sacerdotal por toda a ilha e, além disso, ensinar a Sagrada Escritura em Palermo.  Se havia um pouco de bonança ela estava para acabar.

Finalmente chega a resposta[89]  de Roma ao memorial que escrevera a conselho do Pe. Acosta. O teor da resposta não podia ser mais desalentador: 1) lhe proibiam de ser recebido em qualquer convento da Ordem Carmelita; 2) não podia se apresentar em Roma  se não tomasse, antes, o hábito dos Agostinianos Descalços. Junto à resposta vinha a licença do Pe. Geral dos Agostinianos para que o aceitassem.

Os termos da resposta são de uma crueza e violência que deixam o Pe. Gracián em estado de prostração. Estado em que qualquer pessoa sadia e sabedora de sua inocência ficaria. A resposta, embora longa, merece ser transcrita em pelo menos algumas passagens.[90]  

Aos amados Vigário e Definidores da Congregação
dos Freis Carmelitas chamados Descalços

Clemente Papa VIII

Amados filhos, saúde e benção Apostólica.

Considerando os abundantes frutos produzidos diariamente no campo  do Senhor pela sagrada Religião dos Freis Carmelitas Descalços, cumprimos com agrado nosso dever pastoral de cuidar de sua quietude e tranqüilidade.

Tendo sido informado que Frei Jerônimo Gracián, da Ordem dos Carmelitas, chamados Descalços, por assim exigirem seus deméritos, foi expulso da referida Ordem da Bem-Aventurada Maria, e privado pelos Superiores de tal Ordem e outros dos Assessores Religiosos, ex-Provinciais da Ordem dos freis pregadores e de São Jerônimo na Espanha, tal como, segundo se diz consta, com maior amplitude na sentença pronunciada em 17 de fevereiro do ano do Senhor de 1592 na cidade de Madri, diocese de Toledo (...) E que o mesmo Jerônimo apresentou recurso sobre o caso (...)  uma vez discutida tal causa e a nós apresentada várias vezes (...) a sentença foi aprovada e confirmada com a autoridade do nosso mandato e conhecimento; o próprio Jerônimo prometeu entrar na Religião dos Freis Ermitãos de S. Agostinho, que ele mesmo tinha escolhido.

Entretanto, como o tal Jerônimo, logo se esqueceu de sua salvação e de seu estado; ignorando o temor a Deus, descuidando do cumprimento de sua promessa, segue vagando em hábito secular e não se preocupa em entrar em nenhuma Ordem (...) aprovamos e confirmamos aquela sentença (...) com todas as conseqüências... 

E o Breve continua enumerando aquelas conseqüências: 1) a excomunhão 2) castigos – incluindo os físicos, 3) obrigação de entrar na Ordem de Santo Agostinho. Também foram  proibidos a Gracián qualquer ato de desculpas, apelação ou reclamação. Não poderia entrar ou permanecer em Roma.
Mais adiante o Breve explicará: 

Para garantir e conservar a paz e a tranqüilidade da Ordem dos Descalços e dos Mitigados ordenamos, sob as mesmas penas, que Jerônimo não retorne à Ordem dos Descalços e tampouco a dos Mitigados; e a vós e a todos os Prelados de toda a Ordem dos Carmelitas – mesmo os que quiserem receber o tal Gracián – mandamos que, não apenas não o recebam nem ouseis admitir o tal Jerônimo em vossa Ordem, sobre nenhum pretexto, cousa, ou situação, nem mesmo que não encontre acolhida benévola em outras Ordens (...) 

Pode-se imaginar o estado de ânimo do Pe. Gracián ao ler palavras tão duras e tão injustas. Mais lhe abateu o ânimo o fato de terem sido assinadas e seladas pelo Sumo Pontífice.

Sua alma sofria, chorava pela batalha que em seu interior se travava mais grave, por certo, que aquela outra que travou – há mais de 20 anos atrás -  quando decidiu[91]  entrar na Ordem dos Irmãos Descalços da Bem-Aventurada Virgem do Monte Carmelo. Isto se pode facilmente concluir de seu próprio testemunho: 

“Aqui me foi oferecido o maior trabalho espiritual de treva interior e luta de razões contrárias, de indecisão sobre o que devia fazer para agradar a Deus e a Nossa Senhora e fazer sua vontade... Tão grande foi esta batalha que não sei como dizê-la. Mas ao final venceu em  meu coração a parte contrária e decidi tomar o hábito de santo Agostinho, com tão grande contrariedade, medo e vergonha da Virgem Maria, que me pareceu que mais me agradaria a morte que voltar a Roma para vestir-me de negro como Agostiniano.” 

Pode parecer que o Pe. Gracián, ao escrever estas palavras, estava sendo arrogante e menosprezando a Ordem de Santo Agostinho. Não é contra a Ordem Agostiniana que Jerônimo Gracián se volta. Seu tormento provinha do fato de ser obrigado a romper com uma decisão tomada e abençoada por Santa Teresa: a de servir a Deus, a Maria e a Igreja na Ordem de Nossa Senhora do Monte Carmelo. Qualquer outra Ordem que lhe obrigassem a tomar o hábito – exceto a Carmelita – receberia a mesma reação. Sua vocação era Carmelitana e o obrigavam a ser Agostiniana. Aqui não se tem como esquecer que, depois de muita indecisão, ele escreveu, como razão de sua entrada na Ordem dos Carmelitas :  

“não mais podendo refrear o ímpeto dos pensamentos que vinham do amor de Nossa Senhora, disse para mim: se muitos homens nobres por amores de mulheres da terra se deixaram cegar, perderam fortunas, honra e vida... Por que tenho eu que me importar com alguma coisa, se o amor de tal Senhora me cega?... Perderei a vida, que a dou com muita alegria, a minha Senhora: a Virgem Maria”.[92]            

            Foi com esta decisão que se tornou um irmão da Virgem do Carmo. Esperar outra atitude seria, no mínimo, ingenuidade. Supor que aquela decisão nada mais era que um simples entusiasmo de adolescente é desconhecer o sopro do Espírito Santo inspirando os caminhos dos escolhidos.

Com a decisão tomada e na esperança de que usaria por pouco tempo o hábito agostiniano, retoma as esperanças e empreende viagem para Nápoles, onde chega a primeiro de agosto e daí prossegue viagem, por mar, até Gaeta – onde deveria  vestir o novo hábito religioso. No dia onze de outubro Gracián recebeu o hábito da Ordem de Santo Agostinho, quatro horas antes de retomar sua viagem de volta a Roma; era onze de outubro de 1593.

Ele nos conta: 

“Em Gaeta esperei uma galera do Papa que ia para Roma (teria que desembarcar em Citavecchia) e, para encurtar o tempo, logo depois de celebrar a missa – na qual, rompendo com o apelo interior que me fazia a Virgem Maria e a santa mãe Teresa de Jesus para não deixar sua ordem, me determinei tomar o hábito dos Agostinianos Descalços -,  entrei em uma fragata da Inquisição que ia direto a Roma. Tendo o vento se acalmado um pouco, os marinheiros lançaram a fragata ao mar. Vi de longe um navio, eles viram fumaça nas torres (sinal de corsários), começaram a chorar”. 

A fragata foi abordada pelos corsários turcos que, além de espoliar todos os bens a bordo, tomaram como prisioneiros a todos os tripulantes e passageiros, incluindo aí o Pe. Gracián que lançaram, desnudo e algemado, no porão do navio. Iria começar mais uma dramática peça na vida do Pe. Jerônimo Gracián da Mãe de Deus. 

8 PRISIONEIRO DOS TURCOS

 Nos porões do navio 

Logo que o prenderam[93]  trataram de deixá-lo inteiramente nu, com o “hábito de adão”, como diz o próprio Gracián. Amarraram suas mãos com correntes e o lançaram ao porão do navio, junto como os demais prisioneiros.

Que grande tristeza deve ter sentido quando viu os Turcos limpando suas escopetas com os manuscritos de sua obra “Harmonia Mística”. Tal obra havia lhe custado muito tempo e trabalho para ser escrita devendo ser, por isto mesmo, de grande estima do autor. Aqueles manuscritos ele o levava consigo para serem impresso em Roma. Uma perda irreparável, pois nenhum autor consegue escrever a mesma obra duas vezes.

A comida, servida apenas uma vez ao dia, era um pedaço de uma hedionda bolacha negra e cheia carunchos e, para beber, uma água tão fétida que era necessário tapar o nariz para conseguir bebê-la. Mesmo com tão precária ração, o corpo tinha necessidade de eliminar o refugo de suas transformações e tal necessidade não depende da vontade pessoal. Mas os turcos não levavam em consideração o ciclo da natureza: “Só nos era permitido expelir a carga da natureza  uma vez ao dia, ao por do sol”.

A hora de dormir bem que poderia ser um descanso de tudo isso. O sono tem uma grande propriedade restauradora quando, efetivamente, o corpo pode relaxar. Mas que descanso se pode esperar quando a cama é uma pilha de escopetas empilhadas em um canto e o travesseiro um pequeno tonel de pólvora? Esse era o refúgio noturno do Pe.Gracián, onde podia, enfim, fazer suas orações e esperar sobreviver por mais um dia.

Esses tormentos e aflições físicas – que não eram poucas – não o deixavam em desespero. Seu grande drama interior era quando os mulçumanos, em luta com os cristãos que encontravam, mandavam que ele lhes servisse de municiador, ou seja, que preparasse os arcabuses para o tiro. Seu espírito de grande amor à Igreja e a seus filhos aumentava o seu destemor a ponto de pôr em risco a própria vida, recusando-se a executar tal ordem. “Eu não podia cooperar com a morte ou aprisionamento de católicos”, escreveu em sua autobiografia.

Mas, mesmo sem a sua cooperação, muitos prisioneiros eram feitos e, então, começava um outro drama interior para Gracián: como atender àqueles que “vinham feridos de morte, aos quais era preciso confessar o mais rápido possível? Como sustentar na fé aqueles outros que estavam tão aterrorizados que pretendiam renegá-la?  E isto sob a vigilância dos mulçumanos. Como atender àqueles que chegavam mortos de fome e sede e me pediam algo para comer e beber talvez pensando que eu tivesse uma bem fornecida dispensa. Eles não sabiam que também eu era prisioneiro e padecia as mesmas necessidades.”

Gracián recebe duas cruzes 

Quando o tempo muda e o mar fica agitado os barcos e navios logo buscam abrigo em algum porto.  Esta foi a razão que levou os turcos a atracarem na ilha  de Ventotène, próxima a Nápoles. Na verdade, aquela ilha estava na  rota de navegação e ali se praticava a venda e troca de mercadorias roubadas e saqueadas.

Tendo o barco bem atracado e protegido os turcos desembarcaram e fizeram descer todos os prisioneiros e aí começaram as suas transações comerciais. Os prisioneiros, todos eles presos por correntes, foram deixados de lado – não poderiam fugir, não só por estarem em uma ilha como também devido ao estado de desnutrição em que se encontravam. Cada um procurava tirar o melhor proveito daquela “liberdade” em terra firme.

O tempo não mostrava sinais de melhora e os turcos começavam a ficar impacientes e preocupados, não poderiam permanecer na ilha por muito tempo, pois sempre havia o perigo de serem descobertos por alguma esquadra melhor equipada. Gracián percebia que havia uma certa agitação entre os turcos, o tempo não melhorava e eles certamente estavam ansiosos para deixarem a ilha, mas não podia supor que logo se tornaria uma espécie de amuleto para os turcos.

Certo dia estava sentado em uma pedra, meditando sobre a sua vida e sobre a miserável condição em que se encontrava, quando se aproximou dele um turco e mandou que estendesse a perna. Gracián, obediente, fez o que o que lhe fora ordenado e o turco a segurou pelo calcanhar, levantando-a até que a sua planta do pé ficasse visível. E, tal como se marca um gado, lhe aplicou, na sola do pé, um ferro em brasa com o formato de uma cruz. Depois de tal ato soltou a perna de Gracián e voltou para onde viera. Não tardou muito retornou e lhe aplicou na sola do outro pé o ferro em brasa que levava o símbolo da cruz.

Gracián não entendeu a razão daquela maldade que lhe parecia totalmente desprovida de sentido. Perguntou a outros cristãos, que eram prisioneiros há mais tempo, o que significava aquele ato tão desumano. Recebeu de um deles a seguinte resposta: “Padre, é crença dos turcos que quando faz mau tempo e se vêem em algum perigo, como injúria à cruz de Jesus Cristo, a marcam na planta dos pés de um sacerdote e se o tempo não melhorar, esteja preparado, porque sem dúvida o queimarão vivo, é nisso que eles acreditam.” Assim, Gracián teve que carregar, para o resto da vida, um cruel destino: para  andar tinha que pisar sobre o sagrado símbolo da cruz que ele tanto amava.

Finalmente o tempo melhorou e o galeão turco deixou a ilha para  continuar com suas pilhagens e vandalismos, parando em uma ilha ou um porto para vender o fruto da pilhagem e cometerem atrocidades com os cristãos que encontravam, que tinham dois destinos: a morte ou o cativeiro.

Um Papa prisioneiro? 

Por fim – após uma batalha com fragatas florentinas, onde quase foi aprisionado - o capitão Turco decidiu que era ora de retornar à sua pátria.

 Chegar a terra firme e desembarcar deve ter sido para os prisioneiros um grande refrigério, pois o próprio Gracián – já amadurecido na escola do sofrimento – não pôde conter o comentário: “chegar à sua terra (dos turcos) me pareceu o céu, pois estava esgotado do mau tratamento recebido no mar”.

Gracián tinha muitas virtudes, e se expressava com a dramaticidade própria do seu tempo. É claro que jamais passou por seu pensamento que voltar a pisar a terra firme era o mesmo que ir para o céu. Ele usou, literariamente, uma metáfora para enfatizar a brutalidade dos turcos para com os prisioneiros cristãos. Não é difícil imaginar o que ocorria com tais prisioneiros, e mais ainda com Gracián por ser sacerdote, presos em um barco de reduzido espaço e à mercê de piratas sem noção de moral e piedade.

Mas, se estar em terra poderia parecer um céu, comparando com a vida no mar, este céu estava longe de qualquer conforto ou privilégio, por menor que fosse. Privilégios tinham aqueles que renegavam a fé, mas deles Gracián tinha enorme pena e por eles pedia clemência ao Pai do céu. Pois, se renegar a fé já é um grande mal, aqueles que a renegavam tinham que praticar os mais nefandos e vergonhosos atos com seus algozes. Pecado sobre pecado. Pe. Gracián tentava convencer os desertores da fé do grande mal que faziam ao seu corpo e do irreparável dano que estavam produzindo em suas almas. Alguns deles retornaram à fé – e pagaram caro por isso – morrendo nos braços de Deus; outros não conseguiram ter forças suficientes e Gracián os entregava à misericórdia divina.

Logo que todos  foram desembarcados os dois capitães se puseram a jogar a sorte para ver quais prisioneiros caberiam a cada um. Por sorteio Gracián ficou como prisioneiro de Elisbery –  era o mais pobre`; o outro, Duralí, era mais rico. Esta casualidade – ser prisioneiro do mais pobre - deu ao nosso padre uma luz de esperança, pois tendo menos posses Elisbery poderia aceitar um valor menor por seu resgate.

Esperança que se apagou totalmente quando surgiu o boato que o Pe. Jerônimo Gracián  de la Madre de Dios era um importante prelado, nada menos que um arcebispo que – quando foi aprisionado – estava indo a Roma para receber as honras cardinalícias e tomar posse do trono de São Pedro. Era o futuro chefe da cristandade.

Gracián, que fora acusado – falsamente – de ações infamantes por seus irmãos de Ordem, agora era tido, pelos principais inimigos da fé cristã, como um sacerdote cheio de virtudes e poder, o futuro papa romano, um “papazquivir”, no idioma dos turcos.

 Gracián vivia mais uma ironia do destino. Por boatos mentirosos que falavam de seus “grandes defeitos”, fora expulso da Ordem dos Carmelitas Descalços e agora, também por falsos boatos sobre a sua alta posição hierárquica na Igreja, via fugir uma concreta possibilidade de comprar sua liberdade.

Aquele boato, por mais lisonjeiro que fosse, em nada ajudava a causa de sua libertação. Ao contrário, imaginando ter em seu poder um prisioneiro tão importante, Elisbery começou a sonhar que poderia pedir uma grande fortuna como resgate, afinal a cristandade não iria abandonar o seu “Papazquivir”e por ele pagaria qualquer soma.  Imaginou que, desta vez, a boa sorte lhe havia tocado. O que ele não sabia é que o boato sobre aquele prisioneiro tão importante já chegara aos ouvidos do Paxá de Tunis a quem ele era subordinado.

Os sonhos de Elisbery começaram a desmoronar quando ele viu, certo dia, que se aproximavam do seu acampamento o embaixador do Paxá com muitos lanceiros e arcabuzeiros. Vinham buscar o “arcebispo”[94] .  Eslibery não quis entregar o seu troféu e, com  esperteza, lançou mão de um artifício: enviou o Pe. Gracián para a prisão de Duralí (seu companheiro de pirataria) que, sendo de Argel, não estava sob a jurisdição do Paxá de Tunis e, portanto, não tinha obrigação de entregar o prisioneiro. Duralí, fiel ao seu companheiro, disse ao embaixador que não lhe entregaria tão importante refém.

Zambalí (este era o nome do embaixador do Paxá) sabia que tudo aquilo não passava de encenação e disse ameaçadoramente para Duralí: “Olha, bem vejo que agora estais bêbado e que é o vinho que fala e não tu, mas se amanhã não me entregares o prisioneiro, eu te levarei arrastado pelo rabo de meu cavalo até Tunis”. Duralí calou-se e achou por bem não discutir com um homem tão determinado.

Pela manhã puseram o Pe. Gracián para fora da prisão e mandaram que ele se preparasse para a viagem. O pobre padre nada mais tinha que arrumar senão um velho breviário que lhe fora dado na prisão, uma manta listrada de múltiplas cores, que lhe servia de vestimenta, e uma pequena boina que mal lhe cobria meia cabeça: este era o traje do “Sr. Arcebispo”, o Papazquivir Gracián.

Com tal veste o Pe. Jerônimo Gracián foi levado, sob a guarda do embaixador, para Tunis. O percurso até Tunis era longo, aproximadamente 12 léguas, não sem algumas dificuldades de percurso. Uma de tais dificuldades, talvez a primeira delas, trouxe a Gracián um certo temor. O rio “Fiumara de Biserta”, devido a fortes chuvas que caíram em sua nascente, transbordara e não era possível vadeá-lo. O único jeito era atravessá-lo a nado, com os cavalos. Gracián não tinha a menor experiência neste tipo de travessia e, ademais, não se deve esquecer que devido aos maus tratos e péssima alimentação que vinha recebendo desde a sua prisão estava em profundo estado de subnutrição, sem forças, portanto, para enfrentar a correnteza do rio ou qualquer outro desafio que dependesse da força física.

Todos atravessaram o rio, menos Gracián. O embaixador, vendo o seu prisioneiro ficar para trás, mandou um mouro da sua guarda retornar à margem do rio e trazer o “papazquivir”. Gracián, não sem receios, não teve outra saída senão seguir as instruções do mouro.

O Pe. Jerônimo Gracián às vezes desconcerta os seus leitores, pois ele tira lições de espiritualidade onde normalmente se veria nada mais que uma frase ou uma ordem, ele tem a agudeza de espírito de transformar situações inusitadas e até adversas em decisões transcendentais.

O mouro fez com que Gracián subisse no cavalo e, já dentro da água, lhe disse: “Papaz, segure bem a crina . Olhe para o céu e não para a água. Não tenha medo e assim não cairás”. De tais instruções, que não tinha outra razão senão a de garantir uma travessia segura, Grácian as transformou em alimento para sua piedade. Aquelas palavras, escreveu Gracián, “guardei em meu coração para outras situações que a vida haveria de me dar: porque fazendo o homem o que pode, considerando as coisas do céu, afastando os olhos das dificuldades em que se encontra e perdendo o  medo pela confiança que tem em Deus, seu coração não desfalecerá”.

A viagem continuou até chegarem a Tunis, onde o Pe. Gracián foi entregue ao Paxá, com grandes esperanças de negociar a sua libertação. Mas os acontecimentos não estavam tão favoráveis. Havia muitos caminhos a serem percorridos.

9  NA PRISÃO DO PAXÁ  

A chegada a Tunis deve ter sido para o “Papazquivir”um momento de múltiplos e contraditórios sentimentos. A viagem fora estafante e ele deveria estar sonhando em ser jogado em um canto qualquer em que pudesse, por alguns momentos, dar repouso ao corpo; por outro lado, sua mente inquieta estava ansiosa para estar frente a frente com oPaxá e com ele discutir os termos de sua libertação. Ele sequer tinha idéia de sua triste figura: magro, alquebrado, a barba por fazer e, além do mais, vestido toscamente com uma espécie de lençol multicolorido e um ridículo gorro vermelho, que bem poderia ser a caricatura de um solidéu. Quem daria credibilidade a tal figura?

Gracián contava a seu favor com o boato de que ele era um representante especial da hierarquia cristã: um Arcebispo.  Supunha que tal boato serviria ao menos para facilitar as negociações. Tal suposição, que também era uma esperança, lhe dava ânimo para continuar em pé e ter lúcida a mente. Era uma grande oportunidade para, enfim, voltar ao seu pastoreio, ao exercício de sua vocação sacerdotal. A libertação do cativeiro lhe traria de volta tudo o que de mais precioso lhe havia restado após a sua expulsão da Ordem.

Apesar de suas múltiplas virtudes, o Pe. Gracián tinha dois grandes “defeitos”; o primeiro deles era o de confiar sem restrições nas pessoas e o segundo – associado ao primeiro – era uma “santa ingenuidade”. Tais “defeitos” já haviam sido notados por Santa Teresa de Jesus que, em carta, já lhe pedira para emendar-se.  Mas este era seu temperamento. Acreditava e agia como se na mente dos homens não houvesse maldade, logo ele que teve a maior parte de sua vida às voltas com a maldade humana.

Sua chegada a Tunis foi totalmente diferente daquela que ele vinha imaginando: levaram-no ao palácio e o fizeram ficar de joelhos diante do Paxá. E nesta posição incomoda e contra sua fé, teve que ouvir  perguntas sobre as novidades no reino de Espanha e de seu Rei. O Paxá mostrava interesse nos detalhes, nas minúcias. Coisas que Gracián não sabia, nem podia saber, pois já há algum tempo não pisava o solo espanhol. Ademais, o que ele menos queria fazer era falar sobre tais coisas. Seu desejo era iniciar as conversações sobre o seu resgate, coisa que o Paxá sequer fez menção em sua bateria de perguntas. Percebendo que a noite estava chegando e eram inúteis suas perguntas o Paxá mandou que o levassem para a prisão. E ali foi mantido por aquela noite e o dia seguinte. Ele esperava ser chamado para tratar de sua liberdade, mas em lugar disso vieram buscá-lo para o meterem na “prisão comum” dos cristãos prisioneiros e atar-lhe as pernas com a incomoda “travessa”.

A “prisão comum”, também chamada de masmorra, onde eram mantidos os prisioneiros cristãos, ficava abaixo do nível do solo, com algumas frestas por onde entravam um pouco de sol e ar. Tinha portas pesadas e muito bem guardadas, tornando impossível qualquer tentativa de fuga. Tais portas eram abertas ao amanhecer para que os prisio-neiros saíssem para trabalhar e fechada ao pôr-do-sol quando todos já haviam retornado. O espaço era baixo e estreito e, quando aí esteve como prisioneiro Gracián, chegou a abrigar 600 cativos.

Por ser um lugar tão estreito, coabitado por 600 pessoas, a maioria delas com correntes nos pés e nas mãos, é de se supor o barulho que ali  se produzia e a quase impossibilidade de se estar quieto sem ser empurrado de um lado para o outro quando algum dos prisioneiros se mexia. “Qualquer calabouço cristão é um jardim deleitoso em comparação com o que ali se passa”, escreveu Gracián.

Nessas condições, sair para o trabalho constituía, de certo modo, um prêmio. Podia-se, ao menos, respirar ar puro e mover o corpo com mais liberdade. Tal “prêmio” Gracián nunca recebeu. Permaneceu no interior da masmorra por todo o tempo, junto com outros vinte ou trinta prisioneiros muito idosos e doentes. Permanecer na masmorra significava ter que ficar deitado, pois era por demais penoso ficar em pé com as grossas correntes que lhe atavam as mãos e o infame cepo que levava aos pés, tornando o caminhar quase impossível e o sentar ou ajoelhar-se verdadeira tortura.

Mesmo em tão adversa situação os prisioneiros arranjaram um pequeno lugar que lhes servia de “igreja”; aí construíram um pequeno altar, donde Gracián rezava a Missa todos os dias. Carregado de correntes e com os pés presos pelo cepo, Jerônimo Gracián precisava de ajuda para fazer os movimentos próprios da liturgia da Santa Missa.

Pode parecer estranho que o Paxá, sendo muçulmano, permitisse que os prisioneiros cristãos praticassem tão ostensivamente a sua fé. Ele permitia, não por bondade ou ignorância, mas por esperteza. Percebera que a celebração da  Santa Missa e outras práticas devocionais dos cristãos deixavam seus prisioneiros menos irritados e mais dóceis. Certa vez, o Pe. Gracián fez uma homilia – para sustentar na fé alguns cristãos mais tíbios -  realçando a grandeza da fé cristã e o enganoso que era seguir  a religião de Maomé. Um dos guardas, tendo ouvido tudo aquilo, correu ao Paxá para contar-lhe o que estava acontecendo.  Esperava que ele castigasse os prisioneiros, mas, ao contrário, foi repreendido com estas palavras: “seu ‘cachorro’, quem te mandou ouvir o que prega o “papaz”? Queres, porventura, ser um cristão? Deixe-os. Não estão em seu lugar? Queres que falem bem de Maomé?”

Isto não significava que o Paxá nutria por Gracián alguma simpatia especial a ponto de permitir que ele continuasse cumprindo suas obrigações sacerdotais e zelo apostólico no interior da prisão. Como qualquer prisioneiro, estava sobre constante vigilância e ele, mais do que os demais, pois representava uma boa mercadoria de resgate. Se o Paxá algumas vezes o tirou de apuros maiores não foi, certamente, por simpatia, mas por interesse ou porque este era o desejo de Deus. Santa Edith Stein, em sua eloqüente dissertação sobre a “Oração da Igreja” nos relembra que, muitas vezes, Deus usa dos maus como seus instrumentos[95]  . Este parece ter sido, em muitos momentos, o caso do Pe. Gracián.

Assim foi, por exemplo, quando os soldados do Sultão vieram ao Paxá dizendo saber de fonte segura que Gracián era um inquisidor, que mandara queimar, na Espanha, mais de cinqüenta renegados e, por isso, o queriam para queimá-lo vivo. Assim haviam procedido com o frei João Venegas, Carmelita Calçado natural de Toledo. O queimaram pela simples razão de ser primo de um inquisidor.

Gracián não estava sendo acusado de parentesco com inquisidores, mas de ser ele mesmo um inquisidor, caso muito mais grave aos olhos dos muçulmanos. Mas o Paxá se pôs em defesa de Gracián com estas palavras: “Digam a estes senhores que de muita boa vontade lhes entregarei o meu Papaz para que  queimem, se quiserem, a ele e a todos os meus prisioneiros cristãos, e também a mim mesmo. Mas peço que considerem duas coisas: a primeira, meu papaz não é homem de tão pouca sorte e de tão baixo estado para que seja inquisidor; é um grande arcebispo que ia a Roma ser Cardeal e dentro de poucos dias seria Papa. A segunda coisa que peço considerem, é que o Sultão mandou resgatar o Governador Amatarráez, que está preso no castelo de Nápoles, e o governador Asán, que anda vagando nas galeras espanholas. Estes dois me darão em troca deste Papaz e, senão, ao menos me darão trinta mil escudos por seu resgate. Mas, apesar disto, se provarem que ele é um inquisidor, levem-no e o queimem”. Nada conseguiram provar e deixaram Gracián em paz.

No cativeiro o Pe. Gracián lamentava não saber o árabe. Se soubesse, poderia ajudar aos demais cativos com maior eficácia. Deus o atendeu neste desejo, com conseqüência perigosa, no entanto. Pouco depois da Páscoa foi posto na prisão um renegado – Mani era seu nome[96]  – sob a acusação de ter matado seu patrão. Mani sabia árabe e se dispôs a ensiná-lo ao Pe. Gracián, que durante as aulas ia lhe passando algumas verdades da fé cristã. Eis que a graça chegou para Mani e ele se converteu. Gracián ouviu sua confissão mas, para receber a absolvição, era necessário que confessasse publicamente sua renuncia à crença em Maomé. Tal confissão pública equivalia a um pedido de martírio, pois os muçulmanos não admitiam que os seus renegassem sua fé. Porém, Mani estava decidido a correr todos os riscos, saiu para o pátio, declarou sua fé em Jesus Cristo e voltou para a prisão para receber a absolvição. Ficaram Mani e o Pe. Gracián à espera do castigo, pois a este também não perdoariam por “desviar do caminho” um muçulmano.

O chefe da guarda, que ouvira a confissão pública, indignado com o fato perguntou: “quem te enganou?” e com grande cólera disse para os demais cristãos: “Este vosso Papaz pensa que irá nos converter a todos? Pois logo ficará sabendo o que ocorrerá!” E foi com grande pressa dar a notícia ao Paxá.

Os prisioneiros cristãos ficaram encolerizados com Gracián; não conseguiam entender como aquele homem que há pouco tempo atrás escapara de morrer queimado fora se meter, tão prontamente, em outra encrenca que punha em risco a sua vida. Um dos prisioneiros, resumindo o pensamento dos demais, disse: “Devias deixar este ‘cachorro’ ir para o inferno. Por querer salvá-lo, os turcos irão queimar os dois. Por mais favores que Deus lhe faça, receberás quinhentas bastonadas que acabarão por matá-lo.” Gracián apenas respondeu: “Ganhamos uma alma para Deus, venha o que vier”.

Duas horas mais tarde mandaram que os dois saíssem. Mas nada do previsto iria acontecer. Foram levados a uma pequena sala onde retiraram o cepo de madeira dos pés de Gracián e o colocaram nos de Mani (Afonso da Cruz). Nos pés de Gracián puseram uma nova travessa de ferro, mais pesada e incômoda. Concluída a operação foram embora e deixaram os dois sozinhos. Os prisioneiros cristãos se aproximaram cheios de alegria por estarem vivos e os levaram para o interior da prisão.

Poucos puderam entender – e ainda hoje poucos entendem – o temperamento e modo de proceder do Pe. Gracián. Para aqueles que o expulsaram da Ordem dos Carmelitas Descalços, era um arrogante e indisciplinado. Santa Teresa de Jesus, no entanto, o tinha na conta de portador da inocência dos santos. Outros o consideravam inconseqüente e, de certo modo, infantil em suas ações.  Mas, seja qual for a opinião que se tenha de Gracián, é inegável que jamais agiu de modo covarde ou ardiloso. Sempre teve a guiar suas ações o amor à sua Igreja e de seus fiéis, mesmo que tais ações significassem risco para a sua própria vida ou a sua honra. Uma pequena luz se faz sobre seu temperamento no diálogo que manteve com o Paxá pouco antes dos soldados do Sultão o acusarem de inquisidor.

Tendo recebido ordens do Sultão para tratar do resgate dos dois governadores mulçumanos o Paxá mandou chamar Gracián e mandou que escrevesse uma carta propondo trocar os dois governadores por ele. Gracián respondeu que não permitiria ser trocado pelos dois, pois aqueles governadores conheciam todos os portos da cristandade e eram, por isso, os que maiores males podiam fazer aos cristãos. Assim, ele preferia morrer a ser responsável pela perda da liberdade de muitos. É claro que uma resposta deste tipo só poderia desencadear a ira do Paxá. Poucos, a não ser aqueles tocados pela graça de profunda fé na misericórdia de Deus, ousariam enfrentar tão clara e diretamente um inimigo que detinha o poder de vida e morte.

Por esse pequeno episódio pode-se notar alguns traços da personalidade do Pe. Gracián: era destemido; respondia com palavras claras e diretas – não fazia rodeios; amava profundamente a sua Igreja e aos seus irmãos de fé; a possibilidade da morte física não o fazia recuar. Está claro que tais traços apenas se referem ao seu modo de ser em relação às coisas e fatos terrenos, mas – de certo modo – nos deixam ver uma alma inteiramente movida pelo sopro do Espírito Santo. Seu destemor não provinha de uma valentia mundana, inconseqüente, mas da submissão  e amor a Deus. Gracián foi, tanto no episódio de sua expulsão da Ordem como no cativeiro, um exemplo vivo daquela afirmação paulina: “quando me sinto fraco, então  é que sou forte”[97] . 

Tal opinião não é gerada por uma simpatia pessoal pelo padre Gracián. Afinal, Bengoechea - historiador da Ordem dos Carmelitas Descalços -  traçou com precisão e justiça – posto que estava baseado em documentos públicos – alguns aspectos da personalidade de Gracián enquanto homem e sacerdote. Escreveu aquele autor: “Quando o Padre Jerônimo chegou  àquele lugar (Tunis), logo percebeu a situação especial em que se encontrava e prontamente reagiu como sacerdote tomado pelo zelo de sua fé e pela caridade. Não demorou a dedicar-se à celebração da santa missa, à pregação, confissão, a aconselhar e ajudar aos que necessitavam. Tudo, menos ficar de braços cruzados. Em todo momento surge o apóstolo. E ali mesmo, preso em uma masmorra, com os pés presos a pesadas correntes, não pára: fala com os companheiros de prisão, escreve para os ausentes, negocia resgates e opera conversões, em constante atividade e vigilância.”[98].

Não se pode, aqui, deixar de lembrar uma das cartas de São Paulo aos Romanos. Ele escreveu: “Irmãos, quem nos separará do amor de Cristo? Tribulações? Angústias? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada?”. O Pe. Gracián por tudo isto passou e jamais pensou em afastar-se de Cristo e isto porque, como conclui São Paulo, “em tudo isto, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou”[99] .

10 A LIBERTAÇÃO DO CATIVEIRO 

Gracián, por muitas vezes, refugiava-se nas lembranças do tempo em que o mundo se mostrava, para ele, como uma terra de missão. Eram tempos de grandes projetos, de grandes e santas amizades. Não esquecia as lições que Santa Teresa de Jesus lhe ensinara em Beas, tampouco  o compromisso que assumira de sempre estar com o coração e a mente na “Ordem dos irmãos e irmãs Descalços da Virgem do Monte Carmelo”.

Tais lembranças lhe caíam na alma como refrigério e o enchiam de forças para continuar resistindo. Mas não podia ficar preso às lembranças, havia uma dura realidade a ser vencida: o seu cativeiro e suas conseqüências adversas, às vezes provocadas por cristãos mal-intencionados, como foi o caso de um mercador italiano de Trápani.

A Condessa de Olivares – vice-rainha da Sicília - , que tinha dois turcos sob prisão, os ofereceu ao Paxá em troca do Pe. Gracián. Tudo estava caminhando para um bom desfecho, mas apareceu um comerciante dizendo que conhecia o padre e que ele valia, pelo menos, seis mil escudos. O Paxá, impressionado com tão grande soma, interrompeu suas negociações com a Condessa e o resgate foi suspenso. Gracián não entendeu o porque daquele comerciante ter, deliberadamente, impedido – com informação tão maldosa – a sua libertação. O que lucrava ele com isto? Mais tarde, ficou sabendo de um diálogo que aquele comerciante teve com um renegado:

-          Então, o padreco pensava que iria, agora, livre para sua terra? Pois que se quebre nos ferros, ele é espanhol. É um daqueles que nos tem subjugados na Sicília, nossa terra.

Escandalizado por tão grande maldade, um renegado de nome Ramadán Holdax respondeu:

-          “Seu cachorro, herege, demônio, mau cristão! O que te fez aquele pobre padre para que você lhe tirasse a liberdade? Juro que lhe daria umas facadas se isto não trouxesse mais prejuízo ao padre”.

Os tempos de Deus não são os tempos dos homens. Gracián seria resgatado, mas não desta vez. Teria que esperar que o plano traçado por Deus seguisse o seu curso e, como acostuma acontecer, os homens não entendem que a misericórdia divina é incompreensível se a queremos compreender imaginando que a lógica de Deus segue a lógica humana. Mesmo Gracián, homem de grande devoção e profunda fé na bondade divina, não podia imaginar que o seu resgate já estava sendo preparado muito antes dele se tornar prisioneiro. 

Os caminhos de Deus 

Quando estava em Lisboa, como Vigário Provincial de Portugal, livrou da morte um judeu chamado Abraham Gebre, a quem alguns soldados queriam matar. Livre da morte, Abraham, agradecido, ofereceu a Gracián trezentos ducados. Em seu espírito de caridade –e  revelando algo de profético –, Gracián recusou a oferta e disse: “não faço o bem às pessoas por dinheiro, Deus me pagará melhor por mãos de outro judeu”.

Anos mais tarde da ocorrência deste fato, Simon Escanasi  - um rico judeu de Tunis – resolveu vender suas mercadorias em Nápolis mas, chegando ao porto de Gaeta, foi preso e teve seus bens embargados.

O Pe. Gracián tinha alguns parentes com importantes cargos naquela ilha. Um deles, que era juiz e sabendo que Simon era rico e poderoso em Tunis, negociou com ele o resgate: suspendeu a sua prisão e devolveu-lhe os bens dando-lhe, ainda, seiscentos escudos para o pagamento do resgate de Gracián. Agradecido, Simon levou o dinheiro e o entregou à família Lomellini – naturais de Genova -  que residiam em Tabarka (pertencente a Tunis) e tinha contrato com os turcos. Agora, nada mais havia a fazer senão aguardar uma oportunidade favorável para negociar com o Paxá a libertação do Pe. Jerônimo Gracián.

E a oportunidade apareceu. Chegando o dia de pagamento dos soldados o Paxá viu-se sem dinheiro suficiente para cumprir a sua parte. Os soldados, já irritados pelos atrasos no pagamento, o ameaçavam com insolência dizendo que o matariam caso não lhes desse logo o que a eles era devido. Temeroso por sua sorte, procurou Simon pedindo que lhe emprestasse algum dinheiro. Simon manteve sua fidelidade à promessa que fizera ao parente de Gracián que o libertara, ponderando com o Paxá: