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José Alberto Pedra |
José Alberto Pedra
Jerônimo Gracián
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12 O PROFETA EM SUA TERRAUma das intrigantes afirmações evangélicas, que não obstante transformou-se em ditado popular, é aquela narrada por Mateus onde Jesus diz: “É só em sua pátria e em sua família que um profeta é menosprezado” (Mt 13, 57). Muitas interpretações já foram dadas a tal afirmação. Seja qual for a interpretação que se lhe queira dar é inegável que podemos encontrar na vida de quase todos os santos da Igreja momentos em que aquela afirmação é totalmente aplicável. Não são desconhecidas as contrariedades e sofrimentos por que teve que passar São Francisco de Assis para manter, pelo menos, os traços principais de sua Ordem mendicante; Santa Teresa de Jesus não ficou imune à grandes perseguições e acusações tendo, inclusive, que defender-se diante da Inquisição; modernamente o padre Pio – hoje elevado à condição de modelo de vida santa – foi duramente menosprezado e ridicularizado por seus irmãos de Ordem: os frades menores capuchinhos. A causa para beatificação do Pe. Gracián está em curso. O processo deixa claro que este Carmelita Descalço viveu uma vida exemplar, um homem de seu tempo. Fiel à sua Igreja mesmo nos momentos mais difíceis, quando não poucos fraquejariam. Bem analisando, não é de todo despropositado dizer que o Pe. Jerônimo Gracián de la Madre de Dios foi um profeta em sua terra. Sua família religiosa não apenas o ignorou, fez pior, pretendeu jogá-lo no esquecimento da história, como de fato conseguiu por longo tempo. Porém, se os descalços não o queriam, e isto não incluía a todos, evidentemente, muitos – que não eram seus irmãos de Ordem – o tinham em elevada conta e estima, alguém digno, com ares de santidade, a quem se podiam confiar as dores da alma ou a fundação de novos conventos. É por tal razão que vemos um Gracián vilipendiado, perseguido e expulso de sua Ordem, ou seja, alguém que ostentava todos os deméritos para se tornar um pária, gozar de prestígio e respeito tanto pelo povo simples como pela alta hierarquia da Igreja e da Coorte espanhola. Com as devidas licenças eclesiásticas, Gracián partiu de Roma para tratar de seus documentos em Madri. Ao que parece, a viagem de Roma a Madri foi sem sobressaltos. Mas não a sua estadia em terras espanholas. Deve ter sido uma grande emoção retornar à sua terra, quase oito anos passados, depois de sofrer a humilhação de uma expulsão injusta, ser prisioneiro na África, assumir o cargo de Teólogo do Cardeal Deza e principalmente poder rever aqueles que ele tanto amava. Visita, no início de dezembro, comunidades das monjas descalças de Consuegra, Cuervas e Toledo. Como a Coorte havia se mudado para Valladolid, para lá se dirigiu, chegando no início de março de 1601. Buscou, primeiro, hospedaria entre os Descalços que o recusam; hospedou-se, então, no convento dos Calçados111 . Gracián, por seu espírito pouco voltado a ver o lado da maldade humana, considerou que os Carmelitas descalços não o hospedaram por uma certa “tibieza”. Não lhe ocorreu que se tratava de algo mais sério que tibieza. Alguns de seus antigos companheiros de Ordem estavam verdadeiramente irritados em saber que ele andava pela Espanha vestindo o hábito do Carmelo. Não satisfeitos com todo o mal que haviam feito àquele padre, reiniciaram com suas intrigas e pedidos para que lhe fosse aplicada a sentença condenatória de 1592 – a que o havia expulsado da Ordem e impedido de continuar vestindo o hábito dos Carmelitas Descalços. De tais coisas veio a saber Gracián. Deve ter sorrido – mesmo sabendo que, além do mais, era vigiado por todas as partes. A sua situação agora era muito melhor, tinha todas as armas para os ridicularizar, no entanto, uma vez mais mostra a grandeza de sua formação teresiana: aprecia quando a injustiça recai sobre si[112] . Não se importou com o reboliço que deixava atrás de si, preferiu dedicar-se inteiramente ao objetivo que lhe trouxera à Espanha: preparar os papéis para sua ida, em missão, a Marrocos. Ter um espírito de perdão não significa renunciar aos sentimentos humanos. Gracián sempre perdoou seus perseguidores, chegou a dizer que “eles agiam deste modo (perseguindo e expulsando) porque achavam que estavam fazendo o melhor para a Ordem”. Isto não significa que o perdão apaga o sofrimento – na verdade o santifica. Gracián, como todo ser humano, sofria na alma com as perseguições movidas contra ele; sofria com a frieza de seus irmãos de Ordem, com a morosidade com que caminhavam os seus pedidos, mas sabia que tudo isso não passava de tormentas provocadas por ambições e inconstâncias humanas e, com esta certeza, continuava cumprindo a missão que Santa Teresa lhe havia dado; nada podia ser maior que continuar trilhando – sem desvios – na obra fundacional de Teresa de Jesus. Um outro tipo de sofrimento estava prestes a se abater sobre ele: a morte de sua mãe, Dona Joana Dantisco, mulher forte e fiel. Grande amiga de Santa Teresa de Jesus, com ela manteve uma troca de cartas muito significativas . Tais cartas revelam não somente o apreço de uma para com a outra, mas também o grau de suas virtudes. Dona Joana morreu assistida por aquele filho sacerdote a quem tanto amou; filho que chegou ao seu leito de morte – providencialmente – depois de passar por incontáveis perigos de vida e danos morais. Em 7 de outubro de 1601, Gracián escreveu a Maria de São José, carmelita no Convento de Consuegra , uma carta onde narrou a enfermidade e edificante morte de sua mãe. Tal carta, um pouco longa, merece que se transcreva algumas passagens. Ela levanta um véu que cobre algo dessa mulher que trouxe ao mundo o confessor, confidente, amigo e colaborador da Santa Fundadora do Carmelo Descalço. Descobre, ainda, um Gracián que, cheio de amor humano por sua mãe, soube – como poucos – transformar tal amor em um sentimento espiritual, tal como lhe ensinara Teresa de Jesus e hoje podemos ler em “Caminho da Perfeição”[113] . Escreveu Gracián: A graça do Senhor dê a Vossa Reverência os dons que desejo, amém. Escrevo a todas, pois são necessárias as orações de todas para o que direi. Eu estava, já algum tempo, determinado a ir-me para a Berberia, mas a cada vez que eu decidia me pôr a caminho aparecia algum empecilho. Por fim, resolvi ir às escondidas pois aqui, o Duque de Lerma e alguns outros, andam com pensamentos muitos aborrecidos para mim, que não desejo outra coisa senão humilhações por Cristo. Andávamos, aqui, dois na solicitação das coisas das Índias e em algumas obtivemos sucesso; ao padre que me acompanhava – frei Martin de Inácio de Loyola, que era descalço franciscano - , foi sagrado Bispo porque dizem que não se pode fazer bem as conversões se não for como os apóstolos fizeram: levando faculdades para que, aquele que vai convertendo, ordene clérigos entre os convertidos. Por medo de tais coisas eu ia partir às escondidas, sem me despedir de minha mãe – para minha grande tristeza. Foi então que Nosso Senhor me fez cair com febre alta e, ainda não havia me curado, começaram a passar mal Anica e minha mãe; a menina, com febre altíssima e minha mãe com disenteria e vômitos, com um pouco de febre. Dia de sábado - quando minha mãe, costumeiramente, comungava – ao meio dia, Nosso Senhor a levou como uma santa. Logo que adoeceu se confessou muito piedosamente. Um dia – quando pararam os vômitos –, comungou com grande devoção, recebeu a unção dos enfermos, respondendo todas as perguntas deste sacramento, pois nunca lhe faltou o ouvido e a fala até que, às doze e quarenta e cinco, Deus a levou. Eu nunca saí da cabeceira de seu leito e por três noites a velei, sem qualquer cansaço, mesmo que fossem cem noites. Fiquei consolado por sua boa morte e tenho por certo que ela está no céu. Em nota de rodapé ele acrescentou: Pouco antes de morrer lhe dei o hábito do Carmelo, como se fora uma monja, com todas as bênçãos. Com tal hábito ela foi sepultada. O Pe. Gracián tinha algo dentro de si que o movia como um turbilhão. Sua vida era uma incansável “roda viva”: mal havia concluído um trabalho, já tinha outros projetados. Sua capacidade para lidar com diferentes coisas e afazeres, ao mesmo tempo, era impressionante. Ele bem poderia ficar por algum tempo em Valladolid, em luto por sua querida mãe. Mas, como ele mesmo disse, “tenho por certo que ela está no céu”, nada mais havia a fazer, pois alegria maior não pode existir em saber que nossos entes queridos estão na casa do Pai. Após cumprir seus compromissos de visita canônica a alguns convento da região, partiu de Valladolid no início de novembro. Tinha pressa em começar o empreendimento que agora lhe ocupava todo o interesse: as missões. No dia 17 do mesmo mês tomou um barco para atravessar o estreito de Gilbraltar em direção a Ceuta, Marrocos. De Ceuta escreveu uma carta cheia de entusiasmo, reafirmando o seu desejo pelo martírio em nome de Jesus Cristo[114] . Mas seu ímpeto missionário foi continuamente freado pela burocracia. Teve que retornar diversas vezes à Espanha, pois nunca davam por completo os papéis e documentos para que ele realizasse sua missão com liberdade. Mesmo assim, com todas as dificuldades, ele se dedica à pregação da fé até a metade de 1602. Percebendo que eram inúteis seus esforços e grande perda de tempo e energia continuar insistindo, dá por concluída sua missão na África. Mas o espírito de Santa Teresa, e o desejo de salvar almas não o abandonaram, ao contrário, na impossibilidade de pregar a Missão na África ele se ofereceu, aos cardeais da Propaganda fide, para a missão da Etiópia. Enquanto esperava resposta se instalou em Madri. Este episódio das Missões na vida do Pe. Gracián não pode passar como se fosse apenas um ímpeto de momento. Sua percepção da vida carmelitana era totalmente missionária, ao contrário do Pe. Dória e seus seguidores. Não se pode esquecer que ainda se encontrava em Portugal, como Vigário Geral da Ordem, em 1586, escreveu um livro – que lhe custou algumas dores de cabeça, provocadas pelos dorianos, - cujo sugestivo título era Estímulo à propagação da fé. Um outro escrito, publicado em Nápoles (1593) e mais tarde em Madri (1616), Zelo pela propagação da fé, mereceu do historiador o seguinte comentário: Uma das glórias mais puras e legítimas do Pe. Jerônimo Gracián foi o seu zelo em levar a fé cristã por toda parte da terra. Nisto, como em muitas outras coisas, procedeu em total conformidade com a Madre Teresa de Jesus, capaz de – sozinha – pôr fogo no mundo com o ardor do seu amor missionário[115] . Serviu à causa missionária escrevendo, enviando freis em missões ao Gongo, quando ainda era Provincial do Carmelo Teresiano e indo, ele mesmo, para terras distantes como missionário. Quando as reformas dorianas fechavam – para o Carmelo Espanhol - as possibilidades missionárias tão queridas e desejadas por Santa Teresa, empenhou-se por reabri-las no ramo dos Carmelitas Descalços da Itália, obtendo neste empreendimento grande sucesso. Possui todos os títulos legítimos para figurar entre os grandes missionários de sua época.[116] Mas nada disso arrefecia os ânimos de seus inimigos espanhóis. Enquanto permaneceu em Madri teve que lidar com os pequenos desgostos e intrigas dos seus irmãos Descalços. É de supor que tais querelas zumbiam ao seu redor como moscas que vão e voltam, mas que maiores danos não fazem senão importunar e impedir a concentração. Mesmo para um santo – principalmente para estes, que nada mais querem senão trabalhar pelo Reino de Deus – tal falta de sossego pode levar à exaustão. Gracián chegou bem perto disto e pensou seriamente em retornar à Itália. Não é fácil ser profeta na própria família. Mas suas tentativas falharam e teve que permanecer em sua pátria. Vamos encontrá-lo, neste período, em grandes e diferentes atividades: pregava intensamente em muitos lugares e se dedicava às visitas aos Carmelos das Descalças; dedicou grande tempo em busca de recursos para a impressão dos seus escritos e na preparação do processo para beatificação de Teresa de Jesus. Pode parecer pouco, mas a extensão e intensidade com que se devotava a tais tarefas acabaram minando a sua saúde. O primeiro sinal se manifesta com o entorpecimento do seu braço direito. “Não escrevo tão extensamente” – conta ele – “porque desde a Quaresma que, pregando com grande energia em um convento de Madri, por movimentar os braços com violência, me ficou dolorido o braço direito, tal dor não diminuiu, aumentou e deixa minha mão entorpecida ao escrever”.[117] Continua desenvolvendo sua atividade apostólica até que Deus começa movimentar a história para que ele cumpra sua última tarefa na terra. No início de 1607 recebe um convite para pregar a Quaresma em Pamplona. A princípio reluta em aceitar mais este encargo, além dos que já vinha desenvolvendo, mas acaba por concordar com o pedido, como ato de obediência a seu superior de então, Pe. João de Heredia, Provincial dos Calçados de Aragão. O que ele não sabia é que outra tarefa já estava sendo urdida e ele seria, mais uma vez, o “servo fiel”, um “instrumento” nas mãos de Deus. Antes de partir para Pamplona, chega-lhe às mãos um pedido do Marquês de Guadaleste, recém-nomeado embaixador de Felipe III para os PaísesBaixos. O pedido era direto: renunciar à pregação projetada para Pamplona e ir com ele para a Bélgica. Gracián responde ao Marquês dizendo que o compromisso de Pamplona está sob o voto de obediência ao qual não pode renunciar. Inconformado, o novo Embaixador põe em ação todas as suas influências e acaba por conseguir a autorização por ele pretendida. Tudo parecia correr conforme os planos do embaixador, mas ele não podia imaginar que seu gesto desencadearia uma luta atroz na alma do Pe. Gracián[118] . Ele se colocou a questão: o que dará maiores frutos: ir ou ficar? Longo tempo meditou sobre as possibilidades de uma alternativa e de outra, por fim decide seguir com o embaixador. Considerou que as razões para ficar tinham um caráter excessivamente humano; as razões para partir eram de índole sobrenatural. Em suas próprias palavras ele escreveu: “uma delas é o desejo de morrer por Cristo e por Ele padecer martírio. E relembrando a parábola dos talentos, continua: A doutrina de teologia escolástica que ouvi e à qual dediquei muito tempo;,onde se ensina a defender a fé e a arte da esgrima contra os hereges, nunca a exercitei e é de pouco proveito nesta terra, mas há de ser útil naquela e, se pudesse, não gostaria que Deus me pedisse contas daquele talento, que ficaria ocioso até o fim da vida”. Em 29 de maio de 1607 saiu de Pamplona acompanhando o Marquês de Guadaleste e sua esposa. Era a despedida definitiva da Pátria, a ela jamais retornaria. Passando por Paris encontrou-se com Ana de São Bartolomeu, secretária de Santa Teresa, com quem viria a manter estreitas relações para fixar o legado espiritual da Madre Fundadora. Deve ter sido um encontro de grande conforto para ambos. Gracián pôde falar com alguém que viveu com a sua amada Teresa até os últimos momentos de sua vida. E Ana de São Bartolomeu pôde reviver a alegria de Teresa quando ditava para ela as cartas a ele endereçadas. Gracián deixou Paris cheio de planos e esperanças para a sua última jornada. 13 A ÚLTIMA JORNADADepois de longa viagem, chegou a Bruxelas e, ao que parece, com bom ânimo pois, mal passaram oito dias de sua chegada, ele escreveu uma carta[119] cheia de planos e boas impressões à sua irmã – Juliana da Mãe de Deus – que se encontrava no Carmelo de Sevilha. O que escreveu naquela carta bem mostra a fidelidade deste homem àquela que nele depositou toda a confiança e amor espiritual e o seu indômito espírito empreendedor para as coisas de Deus. Ele escreveu: Será uma novidade para você receber uma carta minha de Bruxelas, e certamente estará se perguntando: quem me trouxe até aqui? Eu creio que foi Deus e nossa santa mãe Teresa que como não poderia deixar de ser, anda perambulando por estas terras. É inacreditável a devoção que a ela, às suas monjas e aos seus livros se tem em toda a França e Bélgica. Todos seus livros estão traduzidos para o francês e agora sairá uma edição em flamenco e têm dado tantos frutos – tanto para afervorar aos católicos como para conversão de hereges. Depois de narrar, aos detalhes, sobre os conventos teresianos que encontrou e visitou, continua sua carta fazendo uma suposição: No principal, estou entendendo a que vim: imprimir minhas obras, pois há nestas terras mais comodidade que em qualquer outro lugar e como tenho tanto a fazer sobre isto e em outros negócios importantes, penso me envolver pouco em coisas de freis e monjas, somente – quando muito – fazer algumas pregações e incentivar a vinda dos carmelitas teresianos. Pode parecer estranho que um homem que viveu quase toda a sua vida no calor das grandes e santas batalhas agora queira ficar quieto em um canto, placidamente escrevendo algum tratado que a poucos interessaria. Aqui é necessário fazer uma pequena volta na história. Gracián sempre foi um escritor fino e perspicaz, treinado na grande universidade de Alcalá de Henares. Se os seus escritos são desconhecidos do grande público, a razão é só uma: o ostracismo a que foi submetido por seus irmãos de Ordem. Ele nunca deixou de escrever. E escreveu muito. É lamentável que somente agora, passados quase quinhentos anos, suas obras comecem a sair da escuridão. Mas, talvez aqui seja necessário retomar o livro de Eclesiastes que nos recorda que os tempos, os caminhos e os planos de Deus nem sempre são os caminhos e os planos dos homens, pois a determinação do tempo para plantar e do tempo para colher, do tempo para chorar e do tempo para se alegrar (Ecl.3,1-8) pertencem a Deus e são, para os homens, um mistério. Talvez agora os tempos estejam maduros para se compreender o espírito e a mensagem que o Pe. Jerônimo Gracián da Mãe de Deus nos deixou. Seu ímpeto para escrever vinha dos bancos escolares, mas – já sacerdote – estando em Sevilha se pôs a meditar sobre o que escrever e, enquanto pesava sobre estas coisas, aproximou-se dele Frei Francisco de Jesus – que havia concluído sua oração mental – e lhe disse: “Nosso Senhor Jesus Cristo me disse que diga a você que escreva livros para proveito das almas”. Gracián ficou surpreso com tal revelação, pois nada havia comentado a respeito com o Frei Francisco. Considerando que tratados de teologia, lógica e metafísica seriam de proveito para poucos e, ademais, sobre tais assuntos já havia bons livros de santos doutores, passou a se dedicar à “teologia mística e temas de devoção; oração e trato interior da alma com Deus”[120] . Sobre o legado escrito do Pe. Gracián comentaremos, mais extensamente, no próximo capítulo. O importante, por enquanto, é deixar claro que não é despropositado ver na sua ida para a Bélgica um tempo, dado por Deus, para que este homem pudesse ter as condições necessárias para trabalhar – mais sossegadamente – em seus escritos, onde podemos ler seus pensamentos e as descrições de suas obras em favor e na fidelidade à Santíssima Trindade e à Ordem fundada por Santa Teresa de Jesus. Um ano mais tarde, está o Pe. Gracián envolvido em uma diversidade de ocupações que ele mesmo narra em carta[121] : Deus seja louvado, vou bem de saúde nesta terra e como meu desejo não é outro senão servir a Deus – e aqui há razões muito sérias para isto-, estou contente. Na continuação daquela carta diz “que por aqui sempre andamos em batalhas contra os hereges; com isto, e escrevendo contra as más doutrinas e mandando imprimir o que já está escrito, passamos a vida. Às vezes, faço algumas pregações para as Madres Descalças; em outros assuntos delas não me intrometo... e assim, fico tranqüilo em minha cela onde passo minha vida eremítica... ocupando o maior tempo possível em oração para acabar minha vida que, espero em Deus, seja este ano”.
Esta última frase pode fazer
supor que o Pe. Gracián estivesse doente e à espera da morte. Mas não
é esta a verdade, afinal ele mesmo afirmou no começo desta carta que
estava bem de saúde. É bem provável que ele estivesse vivendo o estado
de beatitude, aquele mesmo estado que podemos sentir no poema que
Santa Teresa de Jesus escreveu: Mas ainda não era chegada a sua hora; ainda tinha pela frente mais seis anos de jornada. Anos cheios de dinamismo apostólico e grande interiorização contemplativa. O trabalho e a oração o rejuvenesciam a ponto de confidenciar às Monjas do Carmelo de Consuegra: nunca tive tanta saúde e forças como agora, embora com grande desejo de descansar este ano[123] . As atividades que mais tomam o seu tempo e suas forças são a de escrever e imprimir seus escritos anteriores e redigir novos. Não menor empenho punha na propagação e divulgação das obras de Teresa de Jesus, por quem continuava a desenvolver uma intensa campanha por sua beatificação. Era, para ele, um grande consolo e estímulo a boa fama e estima que a “Mãe Fundadora” gozava na Bélgica e na França, fato que não ocorria – com a mesma expressividade - na alta hierarquia do Carmelo Espanhol. Tratou de distribuir estampas, retratos e recordações de sua mãe espiritual. Preparou, com carinho e esmero a declaração processual para a beatificação de Teresa de Jesus, segundo o formulário próprio chegado da Itália. Seus esforços não foram em vão, o Pe. Gracián teve a felicidade e alegria de poder celebrar a beatificação de sua Santa. Em nenhum momento, no entanto, abandonou a sua vocação de pregador e o seu “zelo pelas almas”. Em 1610 se dirige a Amberes para pregar a Quaresma. Escreveu a sua irmã Juliana da Mãe de Deus: Vim de Bruxelas a este castelo de Amberes para pregar a quaresma; mesmo pregando todos os dias (que na minha idade é demasiado cansativo), o gosto de ajudar a mil e seiscentas almas de soldados espanhóis que aqui se encontram sem ter ninguém que os instrua, me anima...[124] Permaneceu em Amberes até o final do ano. Estava pronto para retornar a Bruxelas quando caiu gravemente enfermo, com febre tão alta que houve temor por sua vida. Depois de longo e duro tratamento retomou a saúde e as suas múltiplas atividades. Em maio de 1611 Gracián enfrenta, novamente, a morte de pessoa muito querida. A primeira foi a de sua querida mentora espiritual: Teresa de Jesus; a segunda, de sua mãe: Joana Dantisco; e agora estava diante da morte da Madre Maria de São José, excelente religiosa, de grande discrição e talento, irmã muito querida. Muito sofreu Gracián com esta perda. Maria de São José era para ele mais que uma irmã, era confidente e conselheira; graças a ela foram conservadas a maior e mais rica coleção de cartas que dele conhecemos. Ademais, como reconhece Astigarraga, “graças ao afeto e cuidado filial de Maria de São José (Dantisco) é possível reconstruir com notável aproximação o texto de uma boa parte das cartas dirigidas por santa Teresa a seu principal colaborador, Pe. Jerônimo Gracián de la Madre de Dios, máximo protagonista, com ela, nessa aventura histórica que é o Carmelo Teresiano”[125] Mas, se muito sofreu, não permitiu que o sentimento superasse o seu dever. Seria natural que esfriasse suas relações com o convento de Consuegra – onde era priora Maria de São José –, no entanto, Gracián não perdeu o amor que tinha pelo seu convento de Consuegra. Isto ele deixou claro ao escrever às monjas daquele convento: Estou tão ocupado que não posso escrever a cada uma em particular, como gostaria; na verdade, como as amo tanto a todas, e muito mais depois que a Madre Maria de S. José foi para o céu, parece-me que estaria cometendo uma afronta a meu convento se quisesse mais a uma que a outra.[126] O ano de 1612 trouxe para o Pe. Gracián um presente que deve ter sido, ao mesmo tempo, motivo de alegria mas também de saudosas lembranças. Retornando a Amberes, para pregar o Advento e ajudar a nova fundação Teresiana ali instalada, encontrou, como priora, Ana de São Bartolomeu[127] , que, segundo ele, continuava sincera, simples e muito santa. Não pôde deixar de exclamar: “ parece que estou no tempo da primitiva ‘descalcez’”[128] . Tal expressão é perfeitamente compreensível, pois é inegável que Ana de São Bartolomeu foi, e continua sendo, uma fonte fidedigna do carisma de Santa Teresa de Jesus. Não foi por outra razão que ela colocou sob a proteção da Santa o convento de Amberes pedindo, inclusive, que fosse ela a priora daquela casa. Tudo indica que obteve tal proteção pois escreveu em sua autobiografia: “tenho por certo que a Santa governa esta casa e tem por ela particular cuidado”[129] . O Pe. Gracián não podia deixar de entender tal encontro como um presente do céu. A Madre Ana, como ele, amiga e confidente de Santa Teresa, também sofrera grandes e graves perseguições por querer manter a pureza dos ensinamentos de Teresa de Jesus. Ele tinha, agora, uma interlocutora à altura, que podia entender completamente os seus esforços pela divulgação da obra da Madre Fundadora e pela sua canonização. Podia entender, também, que ele, Grácian, estava seguindo plenamente o ideal de Teresa de Jesus em sua constante luta pelas missões. Já se aproximando do fim de sua peregrinação na terra, aumentava em seu coração o amor pelo Carmelo Teresiano e, usando de todas as influências e pondo em jogo todo os meios que tinha, buscou, incansavelmente, que os Teresianos se instalassem e prosperassem nos países onde o protestantismo havia se estabelecido. A última carta de que se tem notícia, escrita pelo Pe. Gracián, transborda de afeto pelos Carmelitas Teresianos, embora lamente que alguns deles ainda criticavam o que havia escrito sobre o zelo pela salvação das Almas. Com esta carta envia – para sua irmã Juliana – um pequeno livro recém-impresso: Arte de bem morrer. Esta carta foi escrita sete dias antes de sua morte. Nunca pôde afastar de seu espírito uma grande saudade do Carmelo Teresiano. Nada lhe seria mais caro que morrer entre os seus irmãos Descalços, “aos quais nunca os tive no coração como agora; embora quisesse morrer entre eles... me calo e busco a Deus, que sabe que minha intenção é os servir”[130] . Não pôde realizar aquele desejo. No dia 20 de setembro saiu, acompanhado de outro religioso, para atender assuntos do seu ministério sacerdotal no vilarejo de Aloste. Tendo se demorado mais do que previra, chegou, de retorno, tarde da noite e encontrou os portões das muradas da cidade de Bruxelas já fechados. Buscou, então, a casa paroquial – que ficava fora das muradas - para passar a noite. Nesta mesma noite o Pe. Gracián foi atingindo por uma angústia até então por ele desconhecida. Não se tratava de uma angústia comum, que advém quando se está diante de algo desconhecido. Era uma angústia que o sufocava e tomava todo seu corpo, como se suas energias e disposição para reagir não mais lhe pertencessem. O mal-estar tomava proporções tais e tão grandes eram suas ânsias de vômito que não teve outra saída senão pedir ajuda ao frei que o acompanhava: queria levantar-se e não podia. Com ajuda pôde caminhar um pouco e lhe sobreveio grande jorro de vômito. Tal esforço apenas piorou o seu estado; entrou em tal estado de fraqueza que não pôde mais voltar para o leito. Preparam, então, um outro – no chão – com a esperança que melhorasse. Mas tal não sucedeu. Tendo amanhecido, o Pe. Gracián pediu que fossem ao convento avisar de seu estado de saúde. O mensageiro, não sabendo distinguir a diferença dos hábitos dos religiosos, ao encontrar um dominicano lhe disse que fosse à casa paroquial atender um frei da sua Ordem que se encontrava muito doente. Chegando à casa, o Frei dominicano logo percebeu que não se tratava de um irmão de sua Ordem e se pôs a fazer algumas brincadeiras a respeito. Grande foi a alegria do Pe.Gracián em ver aquela batina preta que deve lhe ter parecido ser um anjo do céu que tinha vindo lhe visitar, com tal ânimo se confessou. Deve ter se recordado, nesta ocasião, que vestia o hábito dominicano quando foi aprisionado pelos mulçumanos e, agora, era um dominicano que o atendia nos últimos momentos de sua peregrinação rumo à liberdade eterna. Poucas horas antes de expirar pôde ser levado ao convento dos Calçados – onde vivia–, morrendo placidamente às seis horas da tarde de 21 de setembro de 1614. Contava 69 anos e dois meses. O Pai eterno chamara o seu filho. Era hora de receber o seu prêmio. Tal como São Paulo, combatera o bom combate e, apesar das grandes adversidades, permaneceu na fé. 14 PE. JERÔNIMO GRACIÁN, SEUS ESCRITOS E SUA MÍSTICA Em uma obra recente sobre a mística do Carmelo[131] podemos ler: “Entre o grupo da escola da espiritualidade carmelitana brilha, com luz própria, o Pe. Jerônimo Gracián”. Sobre a sua personalidade místico-literária o Pe. Simeón[132] testemunha que era impressionante. Nos 40 anos que transcorreram de sua profissão em Pastrana até sua morte jamais deixou de escrever. É bem verdade que não escreveu frios tratados acadêmicos. Escreveu diretamente para as almas que precisavam de um guia no caminho da perfeição cristã, por isso são escritos claros, singelos e curtos. São, no entanto, páginas perfeitas, tanto no conteúdo como na forma literária, que merecem ser incluídas entre as melhores dos escritores do século de ouro espanhol. Sua espiritualidade tem como centro e ponto alto a doutrina sobre a oração mental. Sobressai em seus escritos místicos a doutrina sobre a união espiritual, que constitui a substância da vida mística, como também os fenômenos interiores que normalmente a acompanham. A obra escrita do Pe. Gracián é tão ampla e profunda que merece estudo particular. Apenas como uma amostra, muito sintética e incompleta, indicamos e comentamos, abaixo, alguns de seus escritos. Sobre as missõesNão seria faltar com a verdade afirmar que o Pe. Jerônimo Gracián foi um grande e, talvez, o primeiro missionário do Carmelo Teresiano. É claro que aqui não se está falando de missões em eu sentido clássico. Aliás, não é despropositado reclamar uma nova visão sobre tal termo. Foi muito sugestivo, por exemplo, o título que Henry Godin e Y. Daniel deram ao livro que escreveram e publicaram: França, país de missão? Por estranho que possa parecer, associar a idéia de missão à evangelização de povos distantes já não faz sentido. A rápida descristianização do ocidente e a nova perspectiva do povo de Deus expostas nos documentos do Concilio Vaticano II exigem que tal termo perca o seu “quê” de aventura em terras estranhas. A sofisticada e ilustrada França está aberta à atividade missionária, afirmam aqueles autores. Isto significa que não é necessário ir longe para ser missionário. Santa Teresa do Menino Jesus jamais saiu do claustro; e quem ousaria negar que exerceu e continua exercendo uma impressionante atividade missionária? Não terá sido ação missionária a decisão do Pe. Gracián de enviar missionários ao Congo e ao México – quando era Provincial da Ordem Teresiana? Que nome se pode dar à sua atividade apostólica no ambiente muçulmano, quando aí esteve como prisioneiro? E o seu zelo pela conversão dos hereges na Bélgica? Seu coração era puro desejo pelo “zelo das almas”. É verdade que nunca participou, pessoalmente, de um grupo “missionário”, mas é totalmente verdadeiro que se ofereceu – chegando a retornar à Espanha para conseguir os salvo-condutos necessários – para ir em diversas expedições missionárias. Também é inegável sua influência na criação da “Congregação para a difusão da fé”. Na Itália, junto à Ordem dos Carmelitas Teresianos, impulsionou e animou – o quanto foi possível – a obra missionária, sobretudo na Pérsia e no Oriente. Por volta de 1608, tal era a sua a sua presença e importância junto a Sé Apostólica para assuntos de missões, que foi indicado Bispo da Armênia. Mas não chegou à sagração. Este fato em nada o melindrou pois “Nosso Senhor me dá a graça de não querer nada, a não ser o que Ele quer”, escreveu à sua irmã Maria de São José. Se restar alguma dúvida sobre o valor missionário do Pe.Gracián, talvez o testemunho histórico do Pe. Silvério de Santa Teresa, ajude em alguma coisa: Uma das glórias mais puras e legitimas do Pe. Jerônimo Gracián foi a sua dedicação em expandir a fé cristã por todos os cantos da terra. Nisto, como em tantas outras coisas, procedeu em total conformidade com a M. Teresa de Jesus que, sozinha, - com seu amor missionário – podia incendiar o mundo.
Seu grande interesse pelas
missões ficou gravado na história do Carmelo Teresiano por suas ações
e por seus escritos. Destes últimos podemos recordar: Sobre espiritualidadeSobre o Pe. Gracián foi lançada uma sombra que obscureceu a sua vida mística e de grande mestre da espiritualidade teresiana. Dele apenas se ressalta a grande disposição para o trabalho e o temperamento sempre disposto a lutar pelo restabelecimento da verdade, quando o que estava em jogo eram as infâmias que atentavam contra as verdades da fé ou da honra das monjas e dele mesmo. O entusiasmo com que assumia seus encargos obscureceram, de certo modo, o místico de grande recolhimento interior e dotado de um carisma especial para entender e orientar as almas que vinham até ele. Não é necessário gastar argumentos sobre a nobreza de seu caráter e muito menos sobre o grande diretor de almas que foi. É suficiente relembrar que a ele Santa Teresa de Jesus vez voto de obediência e o elegeu como confessor e conselheiro. Ao Pe. Gracián devemos a obra mestra da espiritualidade teresiana “Castelo Interior” ou “Moradas”. Esta obra foi escrita por Santa Teresa em obediência ao seu pedido.
A Beata Ana de São Bartolomeu,
Carmelita de grande discernimento e santidade, também o tinha
por confessor133. Para não citar demasiados nomes, pois longa ficaria
a relação, basta ressaltar que foram poucos os Carmelos Teresianos de
Espanha, Portugal, Itália e Bélgica que não o tiveram por mestre ou
conselheiro. A ele também recorreram outras Ordens não Teresianas.
Para comprovar o alcance de sua ação como diretor espiritual basta
consultar as cartas que deixou. Elas nos mostram que o Pe. Gracián não
ficou restrito aos religiosos e religiosas. Grande era o seu apreço
pelos homens e mulheres que viviam no mundo. Das obras que escreveu,
muitas a estes eram dirigidas. Pode-se dizer que o seu magistério
espiritual se estendeu em abundantes escritos de catequese devocional.
Alguns deles merecem ser relembrados: Os carmelitas teresianos têm particular apreço por São José. Tal apreço tem origem na grande devoção que neste patriarca tinha Santa Teresa de Jesus. Ela o declarou “mestre da oração”. Tal era seu afeto pelo esposo de Maria que o primeiro Carmelo que fundou o tem por patrono. Em tal devoção, o Pe. Gracián a ela se igualava e isto é notável no mais completo, ordenado e erudito tratado que se escreveu, até então, sobre o esposo de Maria. O título deste tratado: “Sumário das excelências do glorioso São José”, mais conhecido por seu título abreviado: Josefina. A história desta obra tem uma peculiaridade que traz à vista a sensibilidade do Pe. Gracián pela devoção dos mais simples. Um dia, estando em Roma, falando com o Prefeito do Sacro Palácio, chegaram dois carpinteiros, da confraria de São José, para pedir ao Prefeito licença para imprimir um pequeno livro de orações e louvores ao seu Santo. O Prefeito negou o pedido. Os dois carpinteiros começaram a derramar lágrimas com tanta ternura, que deixaram o Pe. Gracián e o Prefeito enternecidos; daí resultou que o Prefeito mandou que Gracián lesse o livro e escrevesse, para satisfazer os confrades, honrar o Santo e levar o bem às almas134 . Se grande era sua devoção por São José, Maria ocupava, em seu coração, lugar especial. Seu amor pela Virgem Maria era tão grande que chegou a despertar maldosos comentários de alguns mal-intencionados confrades.
Sobre Nossa Senhora
escreveu:
Não se pode, para as
pretensões desta pequena biografia, enumerar e analisar todo o acervo
escrito do Pe. Jerônimo Gracián. Aqui apenas estão enumeradas algumas
delas, às quais se deve acrescentar, evidentemente, duas outras obras
de grande interesse histórico e autobiográfico:
Mas, evidentemente, tal
relação teria uma falha lamentável se não incluísse:
Onde, de modo exuberante e
totalmente dentro da doutrina da Igreja, o Pe. Gracián defende o
magistério carismático da mulher na comunidade cristã. Ele fala de
Teresa de Jesus. Tão penetrante é a sua visão que redige, por
antecipação, um voto pela declaração de Teresa de Jesus, Doutora da
Igreja. A história lhe fez justiça. Nestes diálogos o Pe. Gracián exibe seu método de lidar com as almas e, ao mesmo tempo, o rigor analítico de um historiador. Formulando perguntas, comparando-as, buscando os fundamentos, faz brilhar a simplicidade e sinceridade da alma de uma santa. Deixamos de mencionar muitos outros documentos escritos pelo Pe. Gracián[135] , tais como os Sermões, as cartas e as iluminadas peças de defesa de sua honra e de inocência diante das injúrias e inverdades sobre ele lançadas por seus opositores. Infelizmente nenhum deste material encontra-se, ainda, traduzido para o português. Mas é de lamentar, mais ainda, que mesmo no idioma original (espanhol) o acesso às obras do Pe.Gracián seja difícil. Temos a sincera esperança que o público brasileiro, que tem Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz como mestres da oração e do seguimento a Cristo, muito breve terá acesso às obras daquele sem o qual não é possível entender completamente a fundação do carisma que deu origem ao que, na história, tornou-se conhecido como Carmelo Descalço e hoje, com maior justiça e precisão: O Carmelo Teresiano. 15 A REABILITAÇÃO PONTIFÍCIA E A CAUSA DE BEATIFICAÇÃO No contexto da vida contemporânea, quando os direitos humanos tomaram a sua correta dimensão, chega a ser escandaloso o processo a que foi submetido o Pe. Gracián e sua expulsão da Ordem - da qual foi um dos principais protagonistas - chega parecer obra de ficção. Pode-se alegar – com certa razão – que é necessário compreender os costumes e crenças da época em que tudo aconteceu. Mas, mesmo levando em consideração as trevas e superstições que ainda dominavam o século XVI, não se pode ler as perseguições, calúnias e, finalmente, a expulsão da Ordem do Carmelo Teresiano que sofreu o Pe. Gracián sem que sobrevenha um mal estar. Os “costumes do tempo” não podem ser responsabilizados pelas práticas maliciosas de alguém ou de um grupo. Isto seria uma generalização que atenta contra a caridade – posto que joga a todos “no mesmo barco” – e um erro de perspectiva histórica posto que ignora a dinâmica dos grupos humanos e a diversidade de consciências que o constitui. O caso do Pe. Gracián não pode ser debitado aos “costumes de sua época”. É mais correto dizer que ele foi vítima da ideologia de um grupo de homens que pretendeu apropriar-se – dando um rumo diferente – de uma obra da qual Santa Teresa, São João da Cruz e ele foram, e são, os fundamentais protagonistas. A tais homens não se deve condenar, pois o próprio Gracián não os condenou, ao contrário, chegou atribuir-lhes o título de santos, pois agiam na pura intenção de “estarem fazem o bem”. O que não está permitido – pelas informações históricas que hoje estão à disposição – é imaginar que estavam corretos nas ações que praticaram e nas acusações que fizeram. Tanto isto é verdade que em seis de março de 1595, passados pouco mais de dois anos de sua expulsão da Ordem, o Papa Clemente VIII – reconhecendo o erro a que fora induzido – restituiu ao Pe. Gracián todas as prerrogativas que lhe foram tiradas, suspendeu a expulsão, a excomunhão e outras infâmias impostas ele. Este trecho da Bula Papal é claro e não deixa margem a dúvidas: Concedemos-vos e damos licença para que volteis à Ordem dos freis Carmelitas Descalços e novamente nela seja recebido; que possas usar e gozar de todas as graças, privilégios, indultos, favores, prerrogativas e voz ativa e passiva, como se dela nunca houvésseis sido expulso e privado. Mandamos, para que se cumpra, aos Vigários e Definidores e outros superiores e frades da dita Ordem, que o recebam e tratem benignamente e permitam usar e gozar pacificamente de tais privilégios e graças... Totalmente reabilitado podia retornar ao Carmelo Descalço, vestir o hábito da Ordem e, naturalmente, seguir suas práticas. Mas forças poderosas se levantaram contra a Bula Papal e com o argumento de que seu retorno à Ordem faria reacender antigos rancores e traria desarmonia para o Carmelo, trataram de o convencer a não exigir os direitos que lhe foram devolvidos. Certamente com grande pesar, mas sempre pensando na unidade e paz da Ordem que tanto amava, acedeu. Buscou os Carmelitas Calçados que o receberam com alegria e bom grado, deixando-o livre para seguir os ritos e costumes do Carmelo Teresiano. O importante, para o Pe. Gracián e para o restabelecimento da verdade, é o reconhecimento, pela Santa Sé, da probidade, honradez e santidade deste homem que nada mais fez senão aplicar suas forças e inteligência na “vinha do Senhor”. A sua humildade e espírito de obediência, no entanto, tornou possível que fosse jogada sobre sua pessoa e sua obra uma grande sombra. Por três séculos ficou esquecido ou, quando muito, considerado um frei pouco significante na grande obra de Santa Teresa. Foi necessário que viessem os apelos do Santo Padre João Paulo II para a revisão das tragédias e mal-entendidos, produzidos por distorções de entendimento do Magistério da Igreja para que, como uma semente forte à espera da água pura, brotasse a urgência de reabilitar e declarar oficialmente que Jerônimo Gracián de la Madre de Dios, sempre foi um Carmelita Descalço e um dos principais protagonistas na construção daquela Ordem. A Declaração oficial de reabilitação do Pe. Gracián somente foi produzida em 15 de dezembro de 1999. É uma declaração simples, mas carregada de doçura por um irmão que sofreu inocentemente e, por saber que era inocente, seu então superior, Pe. Elias de San Martin, lhe escreveu dizendo: “sua coroa não está perdida, mas duplicada”. Extrato da declaração oficial de reabilitaçãoO Definitório Geral, em sua sessão 47 de 15 de dezembro de 1999, seguindo o exemplo do Santo Padre neste ano jubilar, julgou conveniente fazer uma declaração oficial que REVOGA A SENTENÇA DE EXPULSÃO DA ORDEM pronunciada contra o P. Jerônimo Gracián, filho e discípulo predileto de nossa Mãe Santa Teresa de Jesus, como gesto oficial de reabilitação e de reparação pela injustiça de que foi vítima. Com efeito, examinando os estudos publicados antes e depois do Capítulo geral de 1991, os fatos históricos sobre os quais lamentamos profundamente são, especialmente, a expulsão da Ordem do Pe. Jerônimo Gracián e de seu secretário o Pe. Bartolomeu de Jesus, assim como os severos castigos impostos às Madres Ana de Jesus e Maria de São José: todas elas pessoas da máxima confiança de nossa Santa Mãe e testemunhas de primeira ordem no grupo fundacional. Também é de lamentar o fato de que, às injustiças que sofreram em vida, se acrescentou o tratamento injusto que receberam tais pessoas em nossa historiografia, apagando-as de onde deveriam estar ou atribuindo-lhes defeitos que na realidade não tinham..... Hoje, nas vésperas do Grande Jubileu, sentimos o dever de expressar profundo pesar pela expulsão da Ordem infligida ao Pe. Jerônimo Gracián de la Madre de Dios e pela conseqüente ferida, fonte de conflitos e divisões que foram abertos nas mentes e corações dos filhos e filhas de Santa Teresa de Jesus. Quando o Pe. Geral, Elias de San Martin, pediu ao Pe. Gracián que, na caridade, seguisse o exemplo de São Paulo: Cupio anthema esse pro fratibus méis (eu desejaria ser anátema, ser eu mesmo separado do Cristo por meus irmãos)[136][, sabia que estava dirigindo tal pedido a alguém que, como São Paulo, daria a própria vida para que nenhum de seus irmãos se perdessem. O Pe. Gracián carregou, sozinho, a maldição sobre ele injustamente lançada, tal era o seu amor por seus irmãos. O que o Pe. Elias de San Martin não sabia é que, naquela carta, ele pronunciava uma profecia: “pois sua coroa não está perdida, mas duplicada”. Efetivamente, impedido de voltar à sua Ordem, o Pe. Gracián estava livre para se dedicar mais intensamente à obra que sempre moveu o seu espírito: o “zelo pela salvação das almas”. O caráter heróico de tal zelo lhe dá legitimo direito de participar da galeria dos santos homens e mulheres da Ordem do Carmelo Teresiano, homens e mulheres que foram e continuam sendo exemplos para todos aqueles que querem viver “em obséquio a Jesus Cristo”[137] . Os primeiros passos já estão dados para a beatificação do Pe. Gracián. Em 15 de dezembro de 2000 o Definitório Geral da Ordem dos Carmelitas Descalços atendeu a petição a ele encaminhada pela “Federação do Carmem” (Andaluzia), “Mosteiro de Antequera” (Espanha), “Mosteiro Nossa Senhora da Assunção e São José” (Curitiba) e do “Mosteiro de Sevilha” (Espanha). Pelo valor histórico de tal documento vale a pena sua inteira transcrição: Amadas Irmãs Nosso Definitório Geral, na Seção 64 do dia 15 de dezembro de 2.000, considerando as vossas petições (do dia 10 de novembro de 2.000 – Federação Virgem do Carmo, Andaluzia, 14 de novembro de 2.000, mosteiro de Antequera, 13 de setembro de 2.000, Mosteiro de Curitiba e 14 de novembro de 2.000, Mosteiro de Sevilha), julgou oportuno que a Postulação Geral da Ordem proceda a dar os passos necessários, em conformidade com as normas canônicas vigentes contidas no cânon 1403 do Código de Direito Canônico e principalmente na constituição apostólica “Divinus Perfectionis Magister”, de 23.I.1983, e nas “Normae servandae in inquisitionibus ab episcopis faciendis in causis sanctorum” da Congregação para as causas dos Santos de 17.II.1983, para a introdução das causas do Venerável Padre Jerônimo da Mãe de Deus (Dantisco), sacerdote professo de nossa Ordem, nascido em Valladolid (Espanha), em 6 de junho de 1545 e falecido em Bruxelas (Bélgica), em 21 de setembro de 1614, e da Madre Maria de São José (Salazar), monja professa do Mosteiro de Malagón (Espanha), fundadora e priora dos Mosteiros de Sevilha (Espanha) e Lisboa (Portugal), nascida em Toledo (Espanha) no ano de 1548 e falecida em Cuerva (Espanha) em 19 de outubro de 1603. Que a vida exemplar destas duas grandes figuras do Carmelo Teresiano primitivo seja testemunho cristão da fé e sua experiência infatigável da busca e cumprimento da Vontade do Pai sejam para nós, seus irmãos e irmãs, um incentivo para viver fielmente, com valentia e amor ao seguimento de Cristo hoje. O documento está assinado pelo Prepósito Geral da Ordem – Fr. Camilo Maccise, OCD e pelo Secretário Geral - Fr. Silvano Vescovi, OCD. Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz e todos os Santos e Santas do Carmelo terão dito: Amém!
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
______________________ Notas de Rodapé
[ 1] Mt. 20, 1-16. |

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02 giu 2003 by
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