Introdução
1.
"Com os olhos fixos no mistério da
Encarnação do Filho de Deus, a Igreja
prepara-se para transpor o limiar do
terceiro milênio"[1],
para ir ao encontro do seu Senhor com
fidelidade renovada, generosa e
sustentada pela esperança do encontro
derradeiro e definitivo. "É como um
convite para uma festa de casamento",
foi como o Papa definiu esta celebração
jubilar[2]:
são as núpcias de Deus com a humanidade,
por meio da Encarnação do seu Filho no
tempo. "Deus armou a sua tenda no meio
de nós" (Jo 1,16), para morar e dialogar
conosco, para libertar-nos de toda
escravidão e ensinar-nos os caminhos da
solidariedade e do serviço.
2.
Quanto a nós também, membros da grande
família do Carmelo, religiosos e leigos,
este acontecimento deve ser vivido como
um tempo da graça, uma passagem, que se
renova na fidelidade criativa. Os
grandes temas do Jubileu, como a
peregrinação, a porta santa, a
purificação da memória, o testemunho dos
mártires, a nova solidariedade
profética, têm ressonâncias vivas em
nosso coração e em nossa fé.
3.
Somos convidados a retornar à essencial
sobriedade da Regra, como fizeram
os nossos Santos e Santas, promotores e
inspiradores de refundações e
renovamentos. Queremos convidar-vos a
olhar para o passado, para o presente,
mas sobretudo para o futuro, para onde
nos guia o Espírito através dos desafios
dos sinais dos tempos e lugares.
I
DIRIJAMOS OS OLHARES PARA OS NOSSOS
FUNDADORES[3]
1. Uma história dinâmica
4.
Na origem da nossa Ordem não houve uma
figura carismática isolada. Foi um grupo
de peregrinos que, após terem deixado o
Ocidente para se entregarem "ao serviço
do Senhor", quiseram condividir
aspirações e experiências, agrupando-se
nas encostas do Monte Carmelo. Num
contexto de grande fervor pela radical
renovação da Igreja no seguimento de
Cristo pobre e mestre de fraternidade, o
itinerário para a Terra Santa e a
permanência naqueles lugares eram, no
século XII, a forma suprema de uma nova
recomposição dos ideais.
5.
Estabelecer-se, por aqui e por ali, em
algum daqueles lugares significativos
para a história da Salvação, exigia o
compromisso de uma releitura dos grandes
eventos e das grandes figuras ligadas
àqueles diversos pontos, e se compreende
assim o que uma testemunha histórica nos
conta sobre os carmelitas:
"Outros, imitando o exemplo do santo
solitário,
o profeta Elias, viviam como
eremitas no Monte
Carmelo, que se eleva
próximo da cidade de
Porfíria <e Haifa>, junto à fonte
chamada fonte
de Elias, não longe do Mosteiro da santa
virgem
Margarida. Viviam na solidão, cada um
com seu
modo de vida próprio, dentro das grutas
como em
colmeias, onde, como abelhas, produziam
o mel
divino de doçura espiritual
(...): este Monte
Carmelo, onde morou Elias,
situa-se a 4 milhas
de Acre, nas proximidades do mar"[4].
6.
Esta é a nossa origem. Os nossos pais
estavam sendo guiados por um
propositum de generoso seguimento de
Jesus, seguimento que se concretizava
numa forma de vida comunitária,
inspirada pela meditação contínua e
orante da Palavra, pelo diálogo e
discernimento em comum, pelo trabalho
manual e pelo serviço recíproco, pela
comunhão dos bens, pela sobriedade e
simplicidade de estruturas e de espaços,
pela centralidade da Eucaristia ali onde
rezavam. A tradição espiritual - também
já presente naquele lugar devido a
anteriores estabelecimentos de monges
bizantinos - era mantida viva por
meios diversos: a oração sálmica, a
mortificação do corpo, a purificação do
coração, a luta espiritual, a solidão, a
flexibilidade ampla das prescrições, a
espera vigilante da volta do Senhor.
7.
Na transmigração forçada para a Europa
aquele propositum foi conservado
com a associação às recém-nascidas
famílias dos frades mendicantes. Isto
permitiu fazer sábias adaptações do
núcleo carismático inspirador sem
comprometer as suas grandes intenções
orientadoras. O processo de erradicação
da Palestina e de reinserção na Europa
exigiu opções corajosas e fidelidade
dinâmica.
2. Dinamismo para enfrentar novos
desafios
8. O
Carmelo teve de enfrentar novos desafios
nos séculos XV-XVII ao acontecer a
grande reviravolta da modernidade, com o
impor-se da racionalidade e o emergir de
uma nova dignidade e autonomia da
pessoa. Neste tempo surgiram numerosas
"reformas" que a partir dos inícios do
século XV propuseram um retorno ao ideal
primitivo: nasceram as nossas
comunidades contemplativas femininas e
cresceram formas de agregação de leigos
atraídos pela vida dos carmelitas. É
ainda deste tempo o desenvolvimento
progressivo da devoção mariana nas suas
formas populares e a multiplicação de
iniciativas culturais e sociais à sombra
dos nossos conventos.
9.
Entre todos os movimentos de renovação é
necessário salientar o de Teresa de
Jesus coadjuvada por João da Cruz. Mais
do que uma "reforma" foi uma verdadeira
"refundação". O seu magistério
espiritual e atividade de fundadores de
"conventos e mosteiros reformados"
foram, nestes séculos, modelo e
inspiração para toda a Ordem do Carmo.
Além disto, quanto ao Carmelo do ramo
antigo, foram muito fecundos tanto a
reforma turonense, que ofereceu místicos
e escritores espirituais de destaque,
como o papel desenvolvido por Maria
Madalena de' Pazzi na sua paixão ardente
pela Igreja e na sua experiência mística
nascida das Escrituras e da Liturgia.
3. Nova tomada de consciência
10. Este nosso
último século, com as sua rápidas e
profundas mudanças, tem-nos ajudado a
ter crescente consciência do nosso
carisma e da nossa espiritualidade. Ao
fim de um século marcado pela
secularização, pela busca da justiça e
da liberdade e pela globalização, apesar
de tudo, está-se impondo uma irrupção
planetária da exigência de
espiritualidade e, até mesmo, de
experiência mística.
11. É justamente
no horizonte desta sensibilidade que
aparece com extrema clareza, ao
crepúsculo da tarde deste século, que
podemos interpretar a nova compreensão
do seu carisma e da sua missão por parte
da família do Carmelo. Contribuíram para
esta nova visão numerosas e grandes
figuras de escritores e historiadores da
vida espiritual. Mas é, sobretudo, o
exemplo de vida e o magistério doutrinal
de Santa Teresa do Menino Jesus, doutora
da Igreja, e de Edith Stein, do Beato
Tito Brandsma e da Beata Isabel da
Trindade, que nos ajudam a aprofundar e
procurar a inculturação do carisma
carmelita.
12. Eles, de
fato, sentiram os novos problemas
emergentes e os assinalaram. Recordemos
alguns destes: a espiritualidade mais
simples e a sede de fraternidade mais
universal, o mistério da Trindade e o
desafio da cultura, um novo rosto da
Igreja e a memória das nossas raízes
israelitas, a nova comunicação e a
consciência da dignidade da mulher, o
diálogo com as religiões e uma nova
teologia da Cruz e do martírio, o posto
central do Salvador e a liberdade do
cristão adulto. Assinalaram-nos novos
alcances e novas linguagens inspirados
em nosso imenso patrimônio e que falam
às novas gerações.
13. Ao longo de
um século inteiro, numa e outra tradição
carmelitana de vida e de história,
reencontrou-se assim a riqueza das
origens: a Regra, a tradição mariana e a
eliana, o exercício da pastoral.
Felizmente se recuperou a originalidade
da "tradição teresiana", sem se negar a
sua continuidade em relação com os
elementos vitais dos quatro séculos que
lhe antecederam. Tivemos também a graça
da celebração de vários centenários e a
inscrição no álbum dos Santos ou dos
Beatos ou dos Doutores de irmãos nossos
e irmãs. Esta longa caminhada coloca-nos
diante de uma grande tarefa: o apelo a
corresponder com fidelidade criativa ao
Senhor que, pelos sinais dos tempos e
dos lugares, no limiar do Terceiro
Milênio, nos fala ao coração.
II
TRANSPOR O LIMIAR DO NOVO MILÊNIO COM
IDENTIDADE RENOVADA
14. Um dos
grandes símbolos mais significativos do
Jubileu é a passagem pela Porta Santa.
Por primeiro é o Papa quem a atravessará
na Santa Noite do próximo Natal,
"mostrando à Igreja e ao mundo o Santo
Evangelho, fonte de vida e de esperança
para o Terceiro Milênio que vem
chegando"[5].
Até à "Porta Santa" nos achegaremos
todos como peregrinos e, passando
por ela, daremos com a humanidade toda
mais um passo rumo ao encontro
definitivo com o Cristo Senhor.
15. São gestos e
símbolos que nos trazem à memória
valores vitais que marcaram a nossa
identidade e ainda a devem animar e
orientar. Expressões como
peregrinação, noite, encontro com
Cristo, porta da vida, mas também,
purificação da memória, martírio,
reconciliação com Deus e com a
comunidade, gostosa fraternidade,
cânticos de libertação - e outras -
caracterizaram os estágios mais
vigorosos da nossa espiritualidade e
permanecem ainda como fonte de
inspiração. Transpondo aqueles limiares,
carreguemos a nossa memória histórica e,
para entrarmos neste novo milênio com
identidade bem clara, percorramos alguns
marcos. Nós os sinalizamos a fim de nos
orientarmos nesta estrada.
16. 1º Viver
em peregrinação. A experiência da
peregrinação, sem dúvida, está enraizada
na história nossa. Devemos continuamente
retornar a ela: pôr-nos a caminho até à
periferia, até outras situações
sócio-culturais, para explorarmos novas
possibilidades de encontros, de
testemunho e de serviço. A sabedoria
orientadora da nossa espiritualidade nos
aponta claras metas e métodos adequados
para vivermos a liberdade cristã e
colocarmo-nos ao serviço dos nossos
irmãos e irmãs.
17. 2º Fiéis
à grande tradição. Um aspecto em
muita evidência desde as nossas origens
foi o enraizamento na grande tradição
espiritual do monaquismo. Foi o que
deu origem à busca do relacionamento
vital com o Profeta Elias apresentado no
documento pós-sinodal Vita Consecrata
como "modelo de vida religiosa
monástica" e como "profeta audaz e amigo
de Deus"[6].
A Regra toma para si fielmente a
sabedoria espiritual, ascética e orante
do monaquismo clássico. A intensa
devoção a Santa Maria do Monte Carmelo
tem sensibilidades patrísticas e
monásticas: pensemos nos títulos de
Mãe, Patrona, Irmã, Virgem Puríssima.
A interpretação nova da Regra,
cuja releitura procuramos fazer a partir
dos diversos contextos
geográfico-culturais, pode ser um modelo
a se aplicar também a outros setores da
nossa vida e da nossa espiritualidade.
18. 3º
Centralizados em Cristo. O
cristocentrismo, parte essencial da
Regra, que sempre foi expresso pela
frase "in obsequio Jesu Christi", dá
sentido a toda a Regra e às suas
perspectivas, como um movimento interno
estrutural e, no texto que a encerra no
seu final, como perspectiva
escatológica, pela sua alusão ao retorno
do Senhor como Juiz e Salvador[7].
Tal impostação teve nestes oito séculos
notável ampliação, e também preciosos
enriquecimentos. Todos os nossos grandes
mestres, de Teresa de Jesus a João da
Cruz, de Maria Madalena de' Pazzi a
Teresa de Lisieux, de Edith Stein a Tito
Brandsma, tiveram uma especial paixão
pela busca do rosto do Senhor, pelo
diálogo com Ele, coração a coração, pela
descoberta de uma nova linguagem, que se
fazia necessária para descrever os
caminhos da plena transformação em Deus.
Segundo a sensibilidade ética e
espiritual das línguas, dos lugares e
dos tempos, as várias gerações de irmãos
e irmãs carmelitas contribuíram para
manter central o mistério de Cristo nos
modelos de santidade e para explorar as
insondáveis riquezas da sua Encarnação.
Também nós de hoje somos convidados a
continuar estas experiências e a
vivê-las em diálogo com a nossa tradição
espiritual e com a religiosidade
popular.
19. 4º A
assídua meditação da Palavra do Senhor.
A meditação da Palavra é outra estrutura
vital do projeto carmelita da vida no
seguimento de Cristo. As expressões
"meditantes" e "vigilantes" exprimem o
movimento do ler e meditar, do rezar e
reconhecer com os olhos do coração a
presença do Senhor na sua Palavra e em
todos os acontecimentos.
Este "meditar na Palavra do Senhor",
retomado na escola da Regra por
Teresa de Jesus e outros místicos do
Carmelo, prepara para a oração como um
diálogo de amizade com Deus e para a
contemplação como união com Ele, Palavra
de Deus encarnada. O nosso carisma
contemplativo e a atualizada prática da
"lectio divina" têm tudo para ganhar de
um diálogo sério com as novas
hermenêuticas e com as novas releituras.
A Palavra de Deus nas Escrituras
torna-se Palavra de Deus em nós no
encontro contemplativo, para ser Palavra
de Deus na vida. Devemos viver esta
leitura da Palavra não somente para nós,
mas também para exprimi-la nas aulas de
espiritualidade, nos encontros de
"lectio divina", na metodologia pastoral
para ensinar ao Povo de Deus uma
aquisição existencial, contemplativa e
orante das riquezas da Palavra.
20. 5º A
interpelação feita pela sede de
espiritualidade. Nossa
tradição espiritual é hoje desafiada de
maneira singular pelo fenômeno de uma
sede de espiritualidade, que muitas
vezes se encarna num tipo de
espiritualismo. Sob a luz da experiência
e doutrina dos nossos santos, somos
convidados a dar indicações e propostas
práticas, oferecer pistas de solução,
operar um discernimento evangélico a fim
de remover o risco de experiências
superficiais do sagrado. Somos chamados
a viver uma vital e encarnada
espiritualidade inculturada nas
realidades diversas, que seja não apenas
teoria, mas experiência de vida feita de
solidariedade com todas as pessoas, com
as suas alegrias e esperanças, suas
tristezas e angústias.
21. 6º A vida
fraterna em comunidade e o empenho
apostólico. O projeto de uma
fraternidade acolhedora e respeitosa,
orante e solidária, pobre e flexível,
mostra-se com evidência na Regra,
assim como na refundação teresiana. Hoje
estamos em condição de entender melhor o
valor daquele modelo original e de
apreciá-lo. Ao mesmo tempo, descobrimos
também novos desafios por uma
fraternidade autêntica, aberta a
dimensões de solidariedade mais globais
e que seja capaz de fazer crescer uma
"espiritualidade de comunhão"[8],
que se expanda até os horizontes da
evangelização dos povos, que era uma
paixão dos nossos santos. Teresa de
Jesus consagra toda a sua vida e sua
obra a esta dimensão apostólica da
oração, Teresa de Lisieux deseja
evangelizar em todas as épocas e para lá
da sua existência terrena, Tito Brandsma
defende a dignidade e a liberdade das
pessoas contra toda idolatria racista ou
ideologia, Edith Stein vive a
disponibilidade de condividir o trágico
destino do povo judeu ameaçado pela
violência da Shoah ("O Holocausto").
III
ORIENTAÇÕES PRÁTICAS PARA TRANSPOR O
LIMIAR DO NOVO MILÊNIO
22. O apelo
simbólico do "transpor o limiar" abre
diante de nós desafios novos e novos
horizontes. Nós vos convidamos a
considerar alguns.
23. 1º
Fidelidade criativa: peregrinos rumo à
autenticidade. Somos herdeiros de
longa e rica tradição, que alimentou
muitos santos. Uma vez que estamos
atravessando o limiar de um novo milênio
somos chamados a permanecer fiéis a esta
tradição espiritual e, ao mesmo tempo, a
reinterpretá-la criativamente em
benefício das futuras gerações de tal
modo que possa dar vida e conduzir
muitos pelo meio da noite, onde a alma
amante é transformada no Amado[9].
24. 2º
Caminhando na companhia de Maria, Mãe e
Irmã. Maria é uma presença constante
no Carmelo. Ela nos guia e acompanha
para que sigamos os passos de Jesus, seu
Filho. Ela nos ensina a considerar no
íntimo dos nossos corações tudo o que
acontece, a louvar a Deus por aquilo que
se faz em nós e por intermédio de nós.
Ao entrar no novo milênio vamos
enfrentar o desafio de apresentar Maria
às novas gerações de tal maneira que
possa ainda ser proclamada
bem-aventurada. Isto exige de nós
meditarmos profundamente nos valores
centrais das nossas tradicionais
devoções marianas de modo a sermos
capazes de oferecer maneiras de nos
relacionarmos com a Mãe de Deus, que
fala aos corações do povo em cujo meio
vivemos.
25. 3º Lectio
Divina: caminhar acompanhados pela
Palavra. Toda a Igreja redescobriu
nos últimos anos os antigos tesouros da
"lectio divina" que a muitos conduz até
às alturas da contemplação. A Palavra de
Deus meditada e rezada deve ser o
acompanhamento de tudo o que fizermos[10].
Muitos Carmelitas da Idade Média eram
conhecidos como "Mestres da Sagrada
Página". É a Palavra de Deus que dá a
vida. Mergulhemo-nos nesta Palavra a fim
de podermos tornar-nos uma palavra de
vida para os outros. "O Pai pronunciou
uma Palavra que era o seu Filho e sempre
a repete num silêncio profundo; por isso
no silêncio deve ela ser ouvida pela
alma"[11].
26. 4º
Vocações: caminhar até outros contextos.
A semelhança da maioria das Ordens
testemunharemos uma radical mudança se
considerarmos o lugar donde provêm as
nossas vocações. A diminuição atual das
vocações em algumas áreas em comparação
com o passado, e a abundância em outras
áreas do mundo estão mudando a
fisionomia do Carmelo. Os que vieram
antes de nós responderam com todo
coração ao que entendiam que Deus estava
a lhes dizer. De maneira igual nós
também devemos procurar ler os sinais
dos tempos e dos lugares para seguirmos
a Deus até lá onde nos está conduzindo.
27. 5º
Formação: ajudar aos outros na
caminhada. Temos um dever: oferecer
a melhor formação possível àqueles que
Deus nos manda. Há uma grande sede de
Deus neste nosso mundo e a
espiritualidade carmelitana tem imensas
possibilidades para dar uma resposta a
esta sede e conduzir as pessoas a uma
vida de mais profundidade no seu
relacionamento com Deus. Temos
salientado nos últimos anos a
importância da formação e temos criado
um programa formativo para os nossos
irmãos, irmãs e leigos carmelitas. Novo
passo vital é concentrar os cuidados
sobre a formação dos formadores. Só se
dá o que se tem. Quanto mais os nossos
formadores estiverem radicados na
tradição espiritual do Carmelo tanto
mais terão o que oferecer aos formandos.
28. 6º Vida
comunitária: caminhar juntos.
Sabemos estar vivendo numa época de
individualismo crescente que devemos
enfrentar de olhos abertos. A vida
comunitária é essencial para o nosso
carisma e missão na Igreja. Apesar do
individualismo das nossas sociedades, as
pessoas estão em busca de comunidades
autênticas. O testemunho da nossa vida
tem assim a possibilidade de tornar-se
mais importante e eficaz no futuro; por
isso é urgente para nós favorecermos a
fraternidade e para ela formarmos os
nossos candidatos.
29. 7º
Missão: guiar os outros pelo caminho.
Cheios de esperança olhamos para o
futuro e com fé firme de que o Carmelo
terá muito para oferecer às próximas
gerações. As pessoas com razão esperam
dos carmelitas, irmãos e irmãs, que
sejam capazes de oferecer uma orientação
segura baseada na sua experiência de
Deus. A meta da viagem espiritual é
tornar-se um só com Cristo e viver já
agora uma nova criação. Muitos desejam
crescer no seu relacionamento com Deus,
contudo não encontram muitas vezes
nenhuma pessoa para instruí-los sobre
como andar com segurança no meio da
noite escura até o alto da montanha, que
é o Cristo Senhor. Em todas as formas de
apostolado por nós assumidas é
importante corresponder às necessidades
que o povo tem de guias espirituais e,
ao mesmo tempo, estar abertos para os
testemunhos, que nos evangelizam.
30. 8º
Justiça e paz: entrar para vir para
fora. A autenticidade de qualquer
experiência de Deus é comprovada na vida
quotidiana. Uma verdadeira experiência
de Deus transborda num desejo de que o
Reino de Deus possa vir, e num mais
profundo empenho pelos valores do Reino.
Os Carmelitas, irmãos e irmãs,
procurarão naturalmente difundir o amor
e o conhecimento dAquele que encontraram
na sua oração. Ao vermos que muita gente
não consegue satisfazer às mais
elementares exigências humanas, o nosso
amor a Deus impede-nos de aceitar esta
situação tranqüilamente. A contemplação,
que é o núcleo do carisma da Ordem,
manifesta-se espontaneamente por meio de
um genuíno amor ao próximo. Isto
comporta a pergunta sobre a razão por
que existem assim tantas injustiças
neste nosso mundo. Um esforço pela
justiça e pela paz combina bem com uma
vocação contemplativa. Sem este esforço
toda experiência contemplativa é
suspeita.
31. 9º
Transpor a porta da nossa história.
Há portas que não conseguimos
ultrapassar com toda liberdade e
sinceridade: trata-se da nossa própria
história, dos relacionamentos passados e
presentes entre carmelitas da antiga
observância e carmelitas teresianos.
Trata-se do influxo que sensibilidades
culturais e nacionais lançam até mesmo
nos relacionamentos entre as nossas
províncias e entre grupos de mosteiros
por motivo de diferentes tradições
espirituais e sensibilidades ascéticas,
ou também, simplesmente, por causa de
preconceitos e fechamentos entre as
pessoas em particular. Devemos fazer uma
releitura libertadora de certos
episódios ou momentos históricos menos
autênticos ou dominados por tensões ou
pouca comunicação. Somos chamados a dar
testemunho de um diálogo de paz e de
perdão recíproco, humilde e sincero, de
uma nova situação de fraternidade e
convivência nas diferenças. As múltiplas
formas de diálogo, de comunhão e de
projetos que se realizaram neste último
decênio, devem continuar e tornar-se
mais fecundas e comprometer todas as
pessoas e instituições. O nível da vida
fraterna em comunidade será sempre o
ponto de partida para o diálogo e para
uma comunhão mais vasta, que pode e deve
envolver juntamente os leigos, que
desejem participar de modo mais intenso
da espiritualidade e missão do Carmelo[12].
Conclusão
32.
Transponhamos a porta do Terceiro
Milênio debaixo da proteção de Maria
que, seguindo a tradição espiritual do
Carmelo, contemplamos e experimentamos
como nossa Mãe e Irmã afetuosa. Ela
continua a acompanhar-nos com a sua
fidelidade à "sequela Christi", com o
exemplo da reflexão orante dentro do
coração, com o convite a fazer tudo o
que o Mestre disser, com o cântico de
gratidão e de libertação, com a presença
ao pé da Cruz do Filho humilhado, com a
maternidade espiritual no meio dos
discípulos.
Transponhamos a porta de uma nova época
em companhia do grande Profeta Elias e
dos nossos santos e santas, que tantas
vezes tiveram de atravessar os limiares
de novas terras e de muitas fronteiras.
Transponhamos a porta da nossa
interioridade para aí reconhecermos, sob
a luz de Cristo, as marcas da graça e da
misericórdia.
Transponhamos os limiares trancados de
todas as portas que separam, que
bloqueiam a comunicação, dividem e
renegam a fraternidade e a comunhão.
Transponhamos a porta deste novo Milênio
com fé viva e esperança operosa, para de
coração puro e total generosidade
servirmos ao Senhor dos séculos.
Roma, 14 de novembro de 1999
Festa de Todos os Santos do Carmelo
Frei José Chalmers O.Carm. Prior
Geral - Frei Camilo Maccise
O.C.D., Preposto Geral