Index  [ ]  [  ]
Curia Generalizia dei Carmelitani Scalzi - Corso d'Italia, 38 - 00198 ROMA - Italia
email ocdinfo@pcn.net              Tel. +39-06-854431           Fax +39-06-85350206


Frei José Chalmers O.Carm. Prior Geral   -  Frei Camilo Maccise O.C.D., Preposto Geral
PARA TRANSPOR A PORTA SANTA
Como irmãos e irmãs caminhemos ao encontro do Novo Milênio
 

 

 

 

 

 

 

Introdução

 

1.       "Com os olhos fixos no mistério da Encarnação do Filho de Deus, a Igreja prepara-se para transpor o limiar do terceiro milênio"[1], para ir ao encontro do seu Senhor com fidelidade renovada, generosa e sustentada pela esperança do encontro derradeiro e definitivo. "É como um convite para uma festa de casamento", foi como o Papa definiu esta celebração jubilar[2]: são as núpcias de Deus com a humanidade, por meio da Encarnação do seu Filho no tempo. "Deus armou a sua tenda no meio de nós" (Jo 1,16), para morar e dialogar conosco, para libertar-nos de toda escravidão e ensinar-nos os caminhos da solidariedade e do serviço.

 

2.       Quanto a nós também, membros da grande família do Carmelo, religiosos e leigos, este acontecimento deve ser vivido como um tempo da graça, uma passagem, que se renova na fidelidade criativa. Os grandes temas do Jubileu, como a peregrinação, a porta santa, a purificação da memória, o testemunho dos mártires, a nova solidariedade profética, têm ressonâncias vivas em nosso coração e em nossa fé.

 

3.       Somos convidados a retornar à essencial sobriedade da Regra, como fizeram os nossos Santos e Santas, promotores e inspiradores de refundações e renovamentos. Queremos convidar-vos a olhar para o passado, para o presente, mas sobretudo para o futuro, para onde nos guia o Espírito através dos desafios dos sinais dos tempos e lugares. 

 

I

 

DIRIJAMOS OS OLHARES PARA OS NOSSOS FUNDADORES[3]

 

1. Uma história dinâmica

 

4.       Na origem da nossa Ordem não houve uma figura carismática isolada. Foi um grupo de peregrinos que, após terem deixado o Ocidente para se entregarem "ao serviço do Senhor", quiseram condividir aspirações e experiências, agrupando-se nas encostas do Monte Carmelo. Num contexto de grande fervor pela radical renovação da Igreja no seguimento de Cristo pobre e mestre de fraternidade, o itinerário para a Terra Santa e a permanência naqueles lugares eram, no século XII, a forma suprema de uma nova recomposição dos ideais.

 

5.       Estabelecer-se, por aqui e por ali, em algum daqueles lugares significativos para a história da Salvação, exigia o compromisso de uma releitura dos grandes eventos e das grandes figuras ligadas àqueles diversos pontos, e se compreende assim o que uma testemunha histórica nos conta sobre os carmelitas:

 

                   "Outros, imitando o exemplo do santo solitário,

                   o profeta Elias, viviam como  eremitas no Monte

                   Carmelo, que  se  eleva  próximo  da  cidade de

                   Porfíria <e Haifa>, junto à fonte chamada fonte

                   de Elias, não longe do Mosteiro da santa virgem

                   Margarida. Viviam na solidão, cada um  com  seu

                   modo de vida próprio, dentro das grutas como em

                   colmeias, onde, como abelhas, produziam  o  mel

                   divino de doçura  espiritual  (...): este Monte

                   Carmelo, onde  morou Elias, situa-se a 4 milhas

                   de Acre, nas proximidades do mar"[4].

  

6.       Esta é a nossa origem. Os nossos pais estavam sendo guiados por um propositum de generoso seguimento de Jesus, seguimento que se concretizava numa forma de vida comunitária, inspirada pela meditação contínua e orante da Palavra, pelo diálogo e discernimento em comum, pelo trabalho manual e pelo serviço recíproco, pela comunhão dos bens, pela sobriedade e simplicidade de estruturas e de espaços, pela centralidade da Eucaristia ali onde rezavam. A tradição espiritual - também já presente naquele lugar devido a anteriores estabelecimentos de monges bizantinos -  era mantida viva por meios diversos: a oração sálmica, a mortificação do corpo, a purificação do coração, a luta espiritual, a solidão, a flexibilidade ampla das prescrições, a espera vigilante da volta do Senhor.

 

7.       Na transmigração forçada para a Europa aquele propositum foi conservado com a associação às recém-nascidas famílias dos frades mendicantes. Isto permitiu fazer sábias adaptações do núcleo carismático inspirador sem comprometer as suas grandes intenções orientadoras. O processo de erradicação da Palestina e de reinserção na Europa exigiu opções corajosas e fidelidade dinâmica.

 

2. Dinamismo para enfrentar novos desafios

 

8.       O Carmelo teve de enfrentar novos desafios nos séculos XV-XVII ao acontecer a grande reviravolta da modernidade, com o impor-se da racionalidade e o emergir de uma nova dignidade e autonomia da pessoa. Neste tempo surgiram numerosas "reformas" que a partir dos inícios do século XV propuseram um retorno ao ideal primitivo: nasceram as nossas comunidades contemplativas femininas e cresceram formas de agregação de leigos atraídos pela vida dos carmelitas. É ainda deste tempo o desenvolvimento progressivo da devoção mariana nas suas formas populares e a multiplicação de iniciativas culturais e sociais à sombra dos nossos conventos.

 

9.       Entre todos os movimentos de renovação é necessário salientar o de Teresa de Jesus coadjuvada por João da Cruz. Mais do que uma "reforma" foi uma verdadeira "refundação". O seu magistério espiritual e atividade de fundadores de "conventos e mosteiros reformados" foram, nestes séculos, modelo e inspiração para toda a Ordem do Carmo. Além disto, quanto ao Carmelo do ramo antigo, foram muito fecundos tanto a reforma turonense, que ofereceu místicos e escritores espirituais de destaque, como o papel desenvolvido por Maria Madalena de' Pazzi na sua paixão ardente pela Igreja e na sua experiência mística nascida das Escrituras e da Liturgia.

 

3. Nova tomada de consciência

 

10.     Este nosso último século, com as sua rápidas e profundas mudanças, tem-nos ajudado a ter crescente consciência do nosso carisma e da nossa espiritualidade. Ao fim de um século marcado pela secularização, pela busca da justiça e da liberdade e pela globalização, apesar de tudo, está-se impondo uma irrupção planetária da exigência de espiritualidade e, até mesmo, de experiência mística.

 

11.     É justamente no horizonte desta sensibilidade que aparece com extrema clareza, ao crepúsculo da tarde deste século, que podemos interpretar a nova compreensão do seu carisma e da sua missão por parte da família do Carmelo. Contribuíram para esta nova visão numerosas e grandes figuras de escritores e historiadores da vida espiritual. Mas é, sobretudo, o exemplo de vida e o magistério doutrinal de Santa Teresa do Menino Jesus, doutora da Igreja, e de Edith Stein, do Beato Tito Brandsma e da Beata Isabel da Trindade, que nos ajudam a aprofundar e procurar a inculturação do carisma carmelita.

 

12.     Eles, de fato, sentiram os novos problemas emergentes e os assinalaram. Recordemos alguns destes: a espiritualidade mais simples e a sede de fraternidade mais universal, o mistério da Trindade e o desafio da cultura, um novo rosto da Igreja e a memória das nossas raízes israelitas, a nova comunicação e a consciência da dignidade da mulher, o diálogo com as religiões e uma nova teologia da Cruz e do martírio, o posto central do Salvador e a liberdade do cristão adulto. Assinalaram-nos novos alcances e novas linguagens inspirados em nosso imenso patrimônio e que falam às novas gerações.

 

13.     Ao longo de um século inteiro, numa e outra tradição carmelitana de vida e de história, reencontrou-se assim a riqueza das origens: a Regra, a tradição mariana e a eliana, o exercício da pastoral. Felizmente se recuperou a originalidade da "tradição teresiana", sem se negar a sua continuidade em relação com os elementos vitais dos quatro séculos que lhe antecederam. Tivemos também a graça da celebração de vários centenários e a inscrição no álbum dos Santos ou dos Beatos ou dos Doutores de irmãos nossos e irmãs. Esta longa caminhada coloca-nos diante de uma grande tarefa: o apelo a corresponder com fidelidade criativa ao Senhor que, pelos sinais dos tempos e dos lugares, no limiar do Terceiro Milênio, nos fala ao coração. 

 

II

 

TRANSPOR O LIMIAR DO NOVO MILÊNIO COM IDENTIDADE RENOVADA

 

14.     Um dos grandes símbolos mais significativos do Jubileu é a passagem pela Porta Santa. Por primeiro é o Papa quem a atravessará na Santa Noite do próximo Natal, "mostrando à Igreja e ao mundo o Santo Evangelho, fonte de vida e de esperança para o Terceiro Milênio que vem chegando"[5]. Até à "Porta Santa" nos achegaremos todos como peregrinos e, passando por ela, daremos com a humanidade toda mais um passo rumo ao encontro definitivo com o Cristo Senhor.

 

15.     São gestos e símbolos que nos trazem à memória valores vitais que marcaram a nossa identidade e ainda a devem animar e orientar. Expressões como peregrinação, noite, encontro com Cristo, porta da vida, mas também, purificação da memória, martírio, reconciliação com Deus e com a comunidade, gostosa fraternidade, cânticos de libertação - e outras - caracterizaram os estágios mais vigorosos da nossa espiritualidade e permanecem ainda como fonte de inspiração. Transpondo aqueles limiares, carreguemos a nossa memória histórica e, para entrarmos neste novo milênio com identidade bem clara, percorramos alguns marcos. Nós os sinalizamos a fim de nos orientarmos nesta estrada.

 

16.     1º Viver em peregrinação. A experiência da peregrinação, sem dúvida, está enraizada na história nossa. Devemos continuamente retornar a ela: pôr-nos a caminho até à periferia, até outras situações sócio-culturais, para explorarmos novas possibilidades de encontros, de testemunho e de serviço. A sabedoria orientadora da nossa espiritualidade nos aponta claras metas e métodos adequados para vivermos a liberdade cristã e colocarmo-nos ao serviço dos nossos irmãos e irmãs.

 

17.     2º Fiéis à grande tradição. Um aspecto em muita evidência desde as nossas origens foi o enraizamento na grande tradição espiritual do monaquismo. Foi o que deu origem à busca do relacionamento vital com o Profeta Elias apresentado no documento pós-sinodal Vita Consecrata como "modelo de vida religiosa monástica" e como "profeta audaz e amigo de Deus"[6]. A Regra toma para si fielmente a sabedoria espiritual, ascética e orante do monaquismo clássico. A intensa devoção a Santa Maria do Monte Carmelo tem sensibilidades patrísticas e monásticas: pensemos nos títulos de Mãe, Patrona, Irmã, Virgem Puríssima. A interpretação nova da Regra, cuja releitura procuramos fazer a partir dos diversos contextos geográfico-culturais, pode ser um modelo a se aplicar também a outros setores da nossa vida e da nossa espiritualidade.

 

18.     3º Centralizados em Cristo. O cristocentrismo, parte essencial da Regra, que sempre foi expresso pela frase "in obsequio Jesu Christi", dá sentido a toda a Regra e às suas perspectivas, como um movimento interno estrutural e, no texto que a encerra no seu final, como perspectiva escatológica, pela sua alusão ao retorno do Senhor como Juiz e Salvador[7].

          Tal impostação teve nestes oito séculos notável ampliação, e também preciosos enriquecimentos. Todos os nossos grandes mestres, de Teresa de Jesus a João da Cruz, de Maria Madalena de' Pazzi a Teresa de Lisieux, de Edith Stein a Tito Brandsma, tiveram uma especial paixão pela busca do rosto do Senhor, pelo diálogo com Ele, coração a coração, pela descoberta de uma nova linguagem, que se fazia necessária para descrever os caminhos da plena transformação em Deus. Segundo a sensibilidade ética e espiritual das línguas, dos lugares e dos tempos, as várias gerações de irmãos e irmãs carmelitas contribuíram para manter central o mistério de Cristo nos modelos de santidade e para explorar as insondáveis riquezas da sua Encarnação. Também nós de hoje somos convidados a continuar estas experiências e a vivê-las em diálogo com a nossa tradição espiritual e com a religiosidade popular.

 

19.     4º A assídua meditação da Palavra do Senhor. A meditação da Palavra é outra estrutura vital do projeto carmelita da vida no seguimento de Cristo. As expressões "meditantes" e "vigilantes" exprimem o movimento do ler e meditar, do rezar e reconhecer com os olhos do coração a presença do Senhor na sua Palavra e em todos os acontecimentos.

          Este "meditar na Palavra do Senhor", retomado na escola da Regra por Teresa de Jesus e outros místicos do Carmelo, prepara para a oração como um diálogo de amizade com Deus e para a contemplação como união com Ele, Palavra de Deus encarnada. O nosso carisma contemplativo e a atualizada prática da "lectio divina" têm tudo para ganhar de um diálogo sério com as novas hermenêuticas e com as novas releituras. A Palavra de Deus nas Escrituras torna-se Palavra de Deus em nós no encontro contemplativo, para ser Palavra de Deus na vida. Devemos viver esta leitura da Palavra não somente para nós, mas também para exprimi-la nas aulas de espiritualidade, nos encontros de "lectio divina", na metodologia pastoral para ensinar ao Povo de Deus uma aquisição existencial, contemplativa e orante das riquezas da Palavra.

 

20.     5º A interpelação feita pela sede de espiritualidade. Nossa   tradição espiritual é hoje desafiada de maneira singular pelo fenômeno de uma sede de espiritualidade, que muitas vezes se encarna num tipo de espiritualismo. Sob a luz da experiência e doutrina dos nossos santos, somos convidados a dar indicações e propostas práticas, oferecer pistas de solução, operar um discernimento evangélico a fim de remover o risco de experiências superficiais do sagrado. Somos chamados a viver uma vital e encarnada espiritualidade inculturada nas realidades diversas, que seja não apenas teoria, mas experiência de vida feita de solidariedade com todas as pessoas, com as suas alegrias e esperanças, suas tristezas e angústias.

 

21.     6º A vida fraterna em comunidade e o empenho apostólico. O projeto de uma fraternidade acolhedora e respeitosa, orante e solidária, pobre e flexível, mostra-se com evidência na Regra, assim como na refundação teresiana. Hoje estamos em condição de entender melhor o valor daquele modelo original e de apreciá-lo. Ao mesmo tempo, descobrimos também novos desafios por uma fraternidade autêntica, aberta a dimensões de solidariedade mais globais e que seja capaz de fazer crescer uma "espiritualidade de comunhão"[8], que se expanda até os horizontes da evangelização dos povos, que era uma paixão dos nossos santos. Teresa de Jesus consagra toda a sua vida e sua obra a esta dimensão apostólica da oração, Teresa de Lisieux deseja evangelizar em todas as épocas e para lá da sua existência terrena, Tito Brandsma defende a dignidade e a liberdade das pessoas contra toda idolatria racista ou ideologia, Edith Stein vive a disponibilidade de condividir o trágico destino do povo judeu ameaçado pela violência da Shoah ("O Holocausto").

 

III 

 

ORIENTAÇÕES PRÁTICAS PARA TRANSPOR O LIMIAR DO NOVO MILÊNIO

 

 

22.     O apelo simbólico do "transpor o limiar" abre diante de nós desafios novos e novos horizontes. Nós vos convidamos a considerar alguns.

 

23.     1º Fidelidade criativa: peregrinos rumo à autenticidade. Somos herdeiros de longa e rica tradição, que alimentou muitos santos. Uma vez que estamos atravessando o limiar de um novo milênio somos chamados a permanecer fiéis a esta tradição espiritual e, ao mesmo tempo, a reinterpretá-la criativamente em benefício das futuras gerações de tal modo que possa dar vida e conduzir muitos pelo meio da noite, onde a alma amante é transformada no Amado[9].

 

24.     2º Caminhando na companhia de Maria, Mãe e Irmã. Maria é uma presença constante no Carmelo. Ela nos guia e acompanha para que sigamos os passos de Jesus, seu Filho. Ela nos ensina a considerar no íntimo dos nossos corações tudo o que acontece, a louvar a Deus por aquilo que se faz em nós e por intermédio de nós. Ao entrar no novo milênio vamos enfrentar o desafio de apresentar Maria às novas gerações de tal maneira que possa ainda ser proclamada bem-aventurada. Isto exige de nós meditarmos profundamente nos valores centrais das nossas tradicionais devoções marianas de modo a sermos capazes de oferecer maneiras de nos relacionarmos com a Mãe de Deus, que fala aos corações do povo em cujo meio vivemos.

 

25.     3º Lectio Divina: caminhar acompanhados pela Palavra. Toda a Igreja redescobriu nos últimos anos os antigos tesouros da "lectio divina" que a muitos conduz até às alturas da contemplação. A Palavra de Deus meditada e rezada deve ser o acompanhamento de tudo o que fizermos[10]. Muitos Carmelitas da Idade Média eram conhecidos como "Mestres da Sagrada Página". É a Palavra de Deus que dá a vida. Mergulhemo-nos nesta Palavra a fim de podermos tornar-nos uma palavra de vida para os outros. "O Pai pronunciou uma Palavra que era o seu Filho e sempre a repete num silêncio profundo; por isso no silêncio deve ela ser ouvida pela alma"[11].

 

26.     4º Vocações: caminhar até outros contextos. A semelhança da maioria das Ordens testemunharemos uma radical mudança se considerarmos o lugar donde provêm as nossas vocações. A diminuição atual das vocações em algumas áreas em comparação com o passado, e a abundância em outras áreas do mundo estão mudando a fisionomia do Carmelo. Os que vieram antes de nós responderam com todo coração ao que entendiam que Deus estava a lhes dizer. De maneira igual nós também devemos procurar ler os sinais dos tempos e dos lugares para seguirmos a Deus até lá onde nos está conduzindo.

 

27.     5º Formação: ajudar aos outros na caminhada. Temos um dever: oferecer a melhor formação possível àqueles que Deus nos manda. Há uma grande sede de Deus neste nosso mundo e a espiritualidade carmelitana tem imensas possibilidades para dar uma resposta a esta sede e conduzir as pessoas a uma vida de mais profundidade no seu relacionamento com Deus. Temos salientado nos últimos anos a importância da formação e temos criado um programa formativo para os nossos irmãos, irmãs e leigos carmelitas. Novo passo vital é concentrar os cuidados sobre a formação dos formadores. Só se dá o que se tem. Quanto mais os nossos formadores estiverem radicados na tradição espiritual do Carmelo tanto mais terão o que oferecer aos formandos.

 

28.     6º Vida comunitária: caminhar juntos. Sabemos estar vivendo numa época de individualismo crescente que devemos enfrentar de olhos abertos. A vida comunitária é essencial para o nosso carisma e missão na Igreja. Apesar do individualismo das nossas sociedades, as pessoas estão em busca de comunidades autênticas. O testemunho da nossa vida tem assim a possibilidade de tornar-se mais importante e eficaz no futuro; por isso é urgente para nós favorecermos a fraternidade e para ela formarmos os nossos candidatos.

 

29.     7º Missão: guiar os outros pelo caminho. Cheios de esperança olhamos para o futuro e com fé firme de que o Carmelo terá muito para oferecer às próximas gerações. As pessoas com razão esperam dos carmelitas, irmãos e irmãs, que sejam capazes de oferecer uma orientação segura baseada na sua experiência de Deus. A meta da viagem espiritual é tornar-se um só com Cristo e viver já agora uma nova criação. Muitos desejam crescer no seu relacionamento com Deus, contudo não encontram muitas vezes nenhuma pessoa para instruí-los sobre como andar com segurança no meio da noite escura até o alto da montanha, que é o Cristo Senhor. Em todas as formas de apostolado por nós assumidas é importante corresponder às necessidades que o povo tem de guias espirituais e, ao mesmo tempo, estar abertos para os testemunhos, que nos evangelizam.

 

30.     8º Justiça e paz: entrar para vir para fora. A autenticidade de qualquer experiência de Deus é comprovada na vida quotidiana. Uma verdadeira experiência de Deus transborda num desejo de que o Reino de Deus possa vir, e num mais profundo empenho pelos valores do Reino. Os Carmelitas, irmãos e irmãs, procurarão naturalmente difundir o amor e o conhecimento dAquele que encontraram na sua oração. Ao vermos que muita gente não consegue satisfazer às mais elementares exigências humanas, o nosso amor a Deus impede-nos de aceitar esta situação tranqüilamente. A contemplação, que é o núcleo do carisma da Ordem, manifesta-se espontaneamente por meio de um genuíno amor ao próximo. Isto comporta a pergunta sobre a razão por que existem assim tantas injustiças neste nosso mundo. Um esforço pela justiça e pela paz combina bem com uma vocação contemplativa. Sem este esforço toda experiência contemplativa é suspeita.

 

31.     9º Transpor a porta da nossa história. Há portas que não conseguimos ultrapassar com toda liberdade e sinceridade: trata-se da nossa própria história, dos relacionamentos passados e presentes entre carmelitas da antiga observância e carmelitas teresianos. Trata-se do influxo que sensibilidades culturais e nacionais lançam até mesmo nos relacionamentos entre as nossas províncias e entre grupos de mosteiros por motivo de diferentes tradições espirituais e sensibilidades ascéticas, ou também, simplesmente, por causa de preconceitos e fechamentos entre as pessoas em particular. Devemos fazer uma releitura libertadora de certos episódios ou momentos históricos menos autênticos ou dominados por tensões ou pouca comunicação. Somos chamados a dar testemunho de um diálogo de paz e de perdão recíproco, humilde e sincero, de uma nova situação de fraternidade e convivência nas diferenças. As múltiplas formas de diálogo, de comunhão e de projetos que se realizaram neste último decênio, devem continuar e tornar-se mais fecundas e comprometer todas as pessoas e instituições. O nível da vida fraterna em comunidade será sempre o ponto de partida para o diálogo e para uma comunhão mais vasta, que pode e deve envolver juntamente os leigos, que desejem participar de modo mais intenso da espiritualidade e missão do Carmelo[12]

 

Conclusão 

 

32.     Transponhamos a porta do Terceiro Milênio debaixo da proteção de Maria que, seguindo a tradição espiritual do Carmelo, contemplamos e experimentamos como nossa Mãe e Irmã afetuosa. Ela continua a acompanhar-nos com a sua fidelidade à "sequela Christi", com o exemplo da reflexão orante dentro do coração, com o convite a fazer tudo o que o Mestre disser, com o cântico de gratidão e de libertação, com a presença ao pé da Cruz do Filho humilhado, com a maternidade espiritual no meio dos discípulos.

          Transponhamos a porta de uma nova época em companhia do grande Profeta Elias e dos nossos santos e santas, que tantas vezes tiveram de atravessar os limiares de novas terras e de muitas fronteiras.

          Transponhamos a porta da nossa interioridade para aí reconhecermos, sob a luz de Cristo, as marcas da graça e da misericórdia.

          Transponhamos os limiares trancados de todas as portas que separam, que bloqueiam a comunicação, dividem e renegam a fraternidade e a comunhão.

          Transponhamos a porta deste novo Milênio com fé viva e esperança operosa, para de coração puro e total generosidade servirmos ao Senhor dos séculos.

 

 

 

Roma, 14 de novembro de 1999

Festa de Todos os Santos do Carmelo

 

 

Frei José Chalmers O.Carm. Prior Geral   -  Frei Camilo Maccise O.C.D., Preposto Geral


------

    [1]. Incarnationis mysterium (IM)  Bula de designação do Grande Jubileu 1

    [2]. IM 4

    [3]. Teresa de Jesus  Fundações  14,4

    [4]. Tiago de Victry  Historia  orientalis  sive  hierosolymitana  em  J. Bongars Gesta Dei per Francos  Hannover  1611  v.I  p.1074s

    [5]. IM 8

    [6]. Vita Consecrata  (VC) 84

    [7]. Regra  9.14.24

    [8]. Cf. VC 46.51

    [9]. São João da Cruz Noite Escura  v.5

    [10]. Regra  19

    [11]. São João da Cruz  Ditos de luz e de amor  21 (98)

    [12]. Cf. Vita Consecrata 54

 

 

 

 

     
[ English [ Italiano] [ Español] [ Français ] [ Deutsch]
[ ] [  ]

Updated 18 mar 2006 by OCD General House
Corso d'Italia, 38 - 00198 Roma - Italia
 ++39 (06) 854431  FAX ++39 (06) 85350206