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2-3

Ildefonso Moriones OCD

O CARMELO TERESIANO

Páginas de sua história

 Tradução do original de Vitoria  
Ediciones El Carmen:
Monjas do Mosteiro de São José
Jundiaí - SP
     Brasil

 

TERESA DE AHUMADA, MONJA CARMELITA

C O N T E N T S

INTRODUÇÃO 1-  A ORDEM DO CARMO
2 -  TERESA DE AHUMADA, MONJA CARMELITA 3 -  SÃO JOSÉ DE ÁVILA
4 -  AS CONSTITUIÇÕES TERESIANAS 5 - AS CONSTITUIÇÕES TERESIANAS
6 - TERESA DE JESUS, FUNDADORA DE FRADES 7 - CARMELITAS “CALÇADOS” E “DESCALÇOS
8 -  A NOVA PROVÍNCIA SOB O GOVERNO DO PADRE GRACIÁN 9 - FREI JOÃO DA CRUZ, O HOMEM INTERIOR
10 - MUDANÇA DE SUPERIOR E DE RUMO 
O P. NICOLAU DE JESUS MARIA, DÓRIA
11 - O LEGADO DO PADRE DÓRIA
12 - ANTES QUEBRAR DO QUE DOBRAR.
DUAS ORDENS DE CARMELITAS DESCALÇOS
13 - A CONGREGAÇÃO ESPANHOLA
14 - UMA HISTÓRIA DIFÍCIL DE CONTAR 15 - A CONGREGAÇÃO ITALIANA
PRINCIPAIS PROTAGONISTAS
16 - NOVOS REFORÇOS:
DOMINGO RUZOLA E TOMÁS DE JESUS
17 - EXPANSÃO DA CONGREGAÇÃO ITALIANA
18 - DIFUSÃO DAS FILHAS DE SANTA TERESA O MUNDO 19 - RESTAURAÇÃO (SÉCULO XIX) E
NOVA EXPANSÃO DA ORDEM (SÉCULO XX)
20- O CARMELO TERESIANO E A  RENOVAÇÃO DA VIDA
RELIGIOSA PROMOVID
A PELO VATICANO II
.

 

CAPÍTULO II

TERESA DE AHUMADA, MONJA CARMELITA

            Diferentemente das Beneditinas ou das Clarissas, por exemplo, que com Santa Escolástica e Santa Clara iniciaram o ramo feminino das respectivas Ordens paralelamente ao ramo masculino, as Carmelitas tardaram dois séculos e meio em adquirir sua plena configuração jurídica, à qual chegaram através de uma longa evolução.

            Do período eremítico da Ordem não há notícia sobre a existência de monjas Carmelitas. Em troca, quase desde sua chegada à Europa, os Carmelitas foram acolhendo sob sua direção e fazendo partícipes dos tesouros espirituais e privilégios da Ordem, mulheres piedosas, de acordo com os costumes da época e segundo as diversas formas de participação dos seculares na vida dos religiosos, desenvolvidas durante a Idade Média.

            A Bula Cum Nulla de Nicolau V constitui um momento decisivo na história das Carmelitas, concedida a pedido da comunidade das beatas carmelitas de Florença em 1452. É tal a importância do documento, que se pode considerar essa data como a da fundação da segunda Ordem Carmelitana. E como a Bula foi expedida durante o generalato de Soreth, que se interessou grandemente pela organização da vida das Carmelitas e fundou pessoalmente várias comunidades, pode-se considerar o Beato como o fundador das Carmelitas. Na realidade a Bula de Nicolau V coroa um longo período evolutivo, que poderíamos chamar de pré-história, e abre uma nova etapa em que as Carmelitas contam já com sua própria história. Desde 1452, com efeito, fundaram-se mais de 180 mosteiros, dos quais 59 ainda subsistem.

            A história das Carmelitas tem sido pouco estudada e pouco conhecida até quase nossos dias. A grande diversidade de costumes e leis existente entre os conventos dificultava também o trabalho. Ultimamente adiantou-se muito nesse campo: a revista Carmelus dedicou o primeiro fascículo de 1963 ao estudo do tema As monjas carmelitas até Santa Teresa de Jesus, e pouco depois o P. Catena publicou uma monografia dedicada à história e espiritualidade das Carmelitas [1] .

            Esses estudos põem em relevo a vitalidade do ramo feminino da Ordem e, ao mesmo tempo, a grande variedade de vida, costumes e legislação existente entre os diversos mosteiros. Se o Beato Soreth, por exemplo, criou um núcleo de mosteiros bastante homogêneo na França e nos Países Baixos, sua influência na Itália e Espanha foi quase nula. Com freqüência os mosteiros são fruto de uma transformação paulatina de grupos de beatas que, ao ir participando cada vez mais plenamente da vida da Ordem, convertem-se em monjas propriamente ditas, adotando sua Regra e Constituições. Cada mosteiro, poderíamos dizer, segue sua trajetória histórica própria, que deve ser estudada detidamente, evitando a tentação de aplicar a uma situação concreta, às vezes pouco conhecida, critérios de interpretação ou leis que não lhe pertencem.

            Tudo isso convém ter em conta ao aproximar-se do estudo de Santa Teresa, monja carmelita. A jovem Teresa de Ahumada faz-se carmelita no mosteiro da Encarnação de Ávila, recebendo a herança dos primeiros ermitães do Carmelo, enriquecida por três séculos de tradição, e condicionada ao mesmo tempo pela configuração histórica da comunidade na qual aprende a vivê-la.

            Sobre a situação do Carmelo espanhol, no momento de Santa Teresa entrar nele, e sobre o estado do mosteiro da Encarnação de Ávila em particular, lançaram uma nova e decisiva luz os estudos do P. Otger Steggink [2] . Recolhamos em síntese os elementos mais importantes.

            Na Espanha havia, naquele período, onze conventos de monjas Carmelitas: 7 em Andaluzia, 3 em Castela e um em Valência. Cada mosteiro procedia de um grupo diferente de pessoas. Todos tinham começado como beatérios, evoluindo mais ou menos rapidamente para a plena configuração religiosa. Alguns tinham chegado inclusive à forma jurídica de sanctimoniales, adotando as leis da clausura papal. Outros não tinham introduzido ainda a clausura. Cada um tinha sua fisionomia própria, como é natural: ainda que professavam a mesma Regra, podiam ter constituições e costumes diferentes.

            Também é lógico que estes mosteiros, tendo sido em sua origem  grupos de seculares que se haviam reunido para ajudar-se mutuamente a viver seu ideal de vida cristã, mantivessem costumes que em um ambiente estritamente religioso se julgassem imperfeições. O contato com seus amigos e familiares, conversas de puro passatempo, o fato de perdurar um pouco as diferenças sociais, compreende-se perfeitamente nas diversas fases de evolução destas casas. Por isso, mais que olhá-las à luz de uma legislação posterior, crendo que tinham decaído de seu fervor primitivo, há que considerá-las a caminho para uma assimilação cada vez maior do ideal religioso. A partir desta perspectiva histórica, valoriza-se muito melhor a realidade do Carmelo feminino anterior a Santa Teresa.

            O mosteiro da Encarnação de Ávila, onde Teresa de Ahumada vestiu o hábito da Virgem a 2 de novembro de 1536, após um ano de postulantado, tinha nascido em 1478, também como beatério, transformando-se sucessivamente em mosteiro carmelitano. Em 4 de abril de 1515, coincidindo com o batismo de Teresa, inaugurou-se a nova casa, ampla e espaçosa, que reuniria sob seu teto a parte mais ilustre da nobreza de Ávila, chegando a reunir cerca de 200 monjas.

            No ambiente da Encarnação Teresa encontrou refúgio ao fugir da casa paterna, encontrou a amizade de Juana Suárez e o apoio de uma mestra de noviças bem formada que a introduziu nos segredos da vida religiosa e lhe falou dos seus gloriosos antepassados no Carmelo. Em meio da confusão causada pelo excessivo número de monjas, não todas dotadas de verdadeira vocação, pôde discernir também um núcleo sadio e desejoso de levar a sério a vida religiosa. Basta recordar que 30 delas passarão aos mosteiros da madre Teresa e 22 perseverarão neles. É também significativo que outras religiosas pedissem a Rubeo que corrigisse na Encarnação muitos dos pormenores que Teresa retocou ao fundar São José.

            Teresa de Ahumada aprendeu, pois, a ser monja Carmelita em um ambiente histórico determinado, com muitos elementos positivos e com outros muitos que ela, à medida que foi amadurecendo em sua vida interior e em sua experiência de Deus, foi julgando negativos e, inclusive, prejudiciais para algumas almas. E após 27 anos dessa experiência concreta, inspirada pelo Espírito Santo, concebeu a idéia de criar um convento mais simples e menor, no qual se pudesse viver o ideal religioso carmelitano sem os inconvenientes que trazia consigo o ambiente da Encarnação.

            E neste sentido, a experiência da Encarnação influi também, de maneira reflexa, no novo mosteiro que Teresa fundará. Quais são os elementos negativos que ela tratará de evitar ou prevenir desde o início?

            Em primeiro lugar, o excessivo número de monjas. Na tradição da Ordem não existia nenhum limite a este respeito. Cada comunidade crescia segundo o número de pessoas que se iam associando a ela e segundo a capacidade da casa na qual se habitava (a média nas comunidades carmelitanas do século XVI era de umas 45 monjas). A Santa tinha visto o que eram 180 mulheres juntas. E para evitar que se criasse uma situação semelhante, pensou no número de 15 como limite máximo, que logo ampliou para 20. Sua casa devia ser um pequeno colégio apostólico.

            Rompe também desde o princípio com o costume de exigir dote das que quisessem entrar em seu mosteiro. “Contentes com a pessoa, se não tem nenhuma esmola para dar à casa, nem por isso se deixe de receber”. O beatério ou o mosteiro podia converter-se para muitas, em uma pensão vitalícia, onde, pago o dote ao entrar, tinham direito a ser mantidas o resto de sua vida. Teresa põe o acento nas qualidades pessoais e na verdadeira vocação religiosa da postulante.

            Outra inovação notável da Santa será a absoluta igualdade e espírito fraterno entre todas. Como dizíamos acima, as diferenças sociais estenderam-se também aos mosteiros e foram muitas as monjas que na visita de Rubeo queixaram-se dos inconvenientes que disso provinham.

            Quanto à clausura, a atitude da Santa é muito decidida: “Com grandíssimo encerramento, assim de nunca sair, como de não ver sem levar o véu diante do rosto”. Era o melhor modo de acabar com todos os ressaibos de trato excessivo com seculares que continuavam vivos na Encarnação, e de fechar-lhes a porta para que não tornassem a entrar no futuro. Note-se que a Santa diz expressamente que pode-se falar sem véu com pais, irmãos ou “casos tão justos como estes”, a juízo da priora. A norma não é um valor absoluto em si, senão um meio para afugentar visitantes importunos: “é importante que quem nos vem visitar parta com algum proveito e não seja perda de tempo para eles como para nós”.

            A Santa também se opõe terminantemente ao regime tradicional de vigário-confessor, que tinha uma certa jurisdição sobre as monjas, podendo intervir em assuntos de disciplina, conceder permissões, dispensas, etc. Em seu mosteiro, a priora será a única responsável, e não quer que ninguém de fora se intrometa no regime interno. Em uma palavra: “Que tudo passe pela mão da priora”.

            E para terminar esta breve lista de elementos que, ao menos em parte, indicam a repercussão da vida da Encarnação no mosteiro criado por Teresa, acrescenta o P. Steggink a seguinte reflexão, com a qual encerramos também este capítulo: “Contudo, não se deve considerar sua obra como uma simples re-forma, isto é, uma extirpação de abusos e a reorganização da vida regular. Muito pobre seria nosso conceito da obra teresiana se víssemos nela uma mera rebelião contra os abusos e defeitos de organização. A nova forma de vida carmelitana, inspirada no mais profundo espírito evangélico e no ideal eremítico-contemplativo carmelitano, com sua clara finalidade dogmática, mais que de reforma, deve qualificar-se de obra criadora e fundadora, que coloca a madre Teresa de Jesus entre as primeiras figuras da Igreja da Contra-Reforma. Sua atividade reformadora não parece ser mais que um aspecto secundário da obra” [3]

CAPÍTULO III

SÃO JOSÉ DE ÁVILA

           

            Ao aproximar-nos do mosteiro de São José inaugurado por Teresa de Jesus em 24 de agosto de 1562 e dispor-nos a seguir a trajetória da nova fundação, tenha-se em conta, em primeiro lugar, que vamos fixar nossa atenção quase exclusivamente na protagonista principal, que logo começará a chamar-se de “a Madre Fundadora”. Acha-se ela na maturidade de seus 47 anos de idade, 27 deles passados no mosteiro da Encarnação, o que constitui uma longa experiência de vida religiosa; e leva sobretudo em seu coração uma profundíssima experiência de Deus e um projeto de vida que, pensa, irá facilitar às almas consagradas o caminho para a união com Deus, que ela tinha conseguido finalmente encontrar através de muitos anos de busca e de sofrimento. Advirta-se também que, quando suas seguidoras começam a chamá-la de Fundadora, o fazem porque têm consciência de que é ela a criadora das comunidades que as acolheram em seu seio, sem excluir por isso a comunhão e continuidade com toda a tradição anterior da Igreja e do Carmelo, como ficou claro no capítulo anterior.

            E sem mais preâmbulos, vejamos brevemente os aspectos históricos mais destacados dessa nova comunidade reunida em torno da Madre Teresa.

            O primeiro detalhe importante é que a Madre dá início à sua fundação com quatro aspirantes que vêm diretamente de seus ambientes familiares. São jovens, generosas, dispostas a tudo e Teresa oferece-se para guiá-las em seu empenho e a criar com elas uma comunidade nova, organizando sua vida do modo mais conveniente para conseguir o fim a que se propõem.

            Um dos aspectos da originalidade carismática da Santa está precisamente nessa sua disponibilidade pessoal, que a leva a manifestar às demais, com simplicidade e sinceridade, sua própria experiência e que, com seu exemplo  as estimula, suscitando nelas o desejo de encaminhar-se por um caminho que leva a tais alturas. A missão de Teresa em meio às suas filhas consiste em ajudá-las a viver, cada uma de modo personalíssimo e irrepetível, sua própria experiência. É este um elemento básico que nenhuma análise histórica, nem teológica poderá fazer-nos perceber exatamente. Poderemos recolher todas as palavras da Santa que chegaram até nós, poderemos catalogar muitíssimos testemunhos contemporâneos, porém, nunca chegaremos a conhecê-la tão profundamente como uma destas jovens que tiveram a dita de conviver com ela vários anos. A vida se transmite vivendo e a convivência vai ampliando cada vez mais esse conhecimento pessoal que logo se torna difícil de traduzir em princípios ou transmitir a outras pessoas. Sem dúvida, ainda tendo em conta esta limitação de nosso conhecimento histórico, todo esforço por aproximar-nos o mais possível à realidade de São José de Ávila está justificado.

            A Santa, pois, ainda que sempre tenha presente o fim, que para todas é o mesmo, trata de ensiná-lo a cada uma segundo sua capacidade. Cada alma que chega a este mundo tem que viver sua aventura a sós com Deus, combatida pelo demônio e o amor próprio. É um caminho que começa com o batismo e não termina até a morte, sempre em busca de Deus. E, como cada uma tem seu amor próprio e o demônio não coloca para todas os mesmos tropeços, a habilidade da guia consiste em saber indicar a cada uma qual é o seu caminho. A Santa procura ajudar a suas novas companheiras com todos os meios a seu alcance, fazendo-lhes compreender que o agente principal é Deus, cuja ação misteriosa escapa ao alcance de nosso olhar, mas que necessita também de nosso esforço e nossa colaboração, pois, ainda que possamos ajudar pouco, podemos estorvar muito.

            Aquelas jovens logo compreenderam que a experiência e a sabedoria da Madre Teresa eram algo fora do comum e para evitar que o tempo ou a ausência da Madre as privasse desse tesouro, pediram-lhe que pusesse por escrito tudo isso que costumava dizer-lhes. E assim nasceu o Caminho de Perfeição (1566): “Este livro contém avisos e conselhos que Teresa de Jesus dá às irmãs religiosas e filhas suas”. Como se dissesse: isto é o que eu costumo dizer-lhes nas reuniões de comunidade, nas conversas particulares com elas, cada vez que se apresenta uma circunstância ou ocasião oportuna. E o livro se converterá rapidamente em um prolongamento da presença da Madre entre suas filhas. Não será mais um livro de teorias, senão uma experiência vivida que se transmitirá com eficácia a quantas almas se aproximarem dessas páginas com ânimo aberto e desejoso de aprender. Enquanto viver a Madre, ela as ensinará; depois que morrer, o livro continuará recordando seus ensinamentos.

            E efetivamente, nas comunidades que irão surgindo, ainda depois da morte da Santa, ela será considerada a verdadeira mestra de noviças: à noviça entregarão seus escritos e a mestra titular se sentirá só uma ajudante da Santa, com a missão de esclarecer os pontos mais difíceis que a noviça não conseguir entender por si mesma. Este aspecto, fundamental para compreender o Caminho de Perfeição em toda sua transcendência para a vida do Carmelo Teresiano, moveu alguns ultimamente a chamá-lo “O Evangelho teresiano”, pondo em relevo que, como o Evangelho leva-nos ao conhecimento da Pessoa de Cristo, o Caminho de Perfeição tem que nos levar ao conhecimento da pessoa da Madre Teresa [4] .

            Tendo, pois, em conta, que na eficácia do livro tem tanta ou mais importância a pessoa da Madre Teresa que suas idéias, recordemos quais são as linhas mestras do livro, as idéias básicas sobre as quais gira o magistério teresiano em seus primeiros anos de São José de Ávila, o que – em uma palavra – a Santa quer que suas filhas não esqueçam nunca:

            Reuniram-se em uma casa pobre, despojada de luxos supérfluos, poucas em número, como em um colégio apostólico, para corresponder ao amor do Senhor, ir crescendo em sua amizade e poder assim negociar mais eficazmente com Ele em favor de seus irmãos. A Igreja inteira, em especial o sacerdócio, será o objeto de suas conversações com o amigo Deus; suas preocupações e desvelos serão para as necessidades de todas as almas.

            Caminho real para crescer na amizade com Deus é a vida de oração, que exige como condições indispensáveis: o amor do próximo, o desprendimento das coisas deste mundo – sobretudo de si mesmo – e a humildade, que é andar na verdade [5] . Princípios, como se vê, claríssimos e que ninguém duvida em admitir. A dificuldade apresenta-se na hora de aplicá-los em circunstâncias concretas. É então, quando o demônio e o amor próprio desempenham seu papel, traindo a alma. É amor do próximo dizer sim, ou dizer não? É desprendimento próprio defender-se, ou calar? É humildade deixar que nossos talentos fiquem esquecidos, ou fazê-los reluzir porque humildade é andar na verdade?  Responder a estas perguntas não é tão simples, e assim se explicam as digressões da Santa em seu livro. Cada vez que se recorda de um detalhe da experiência pessoal ou alheia, escreve-o  sem preocupar-se demasiadamente se seu lugar mais indicado é aquele ou outro, com a esperança de que quando suas irmãs se encontrarem em circunstâncias semelhantes, recordem-no e tirem proveito. As idéias fundamentais serão sempre as mesmas, as aplicações práticas são ilimitadas; cada pessoa é diferente das demais e os dias não são todos iguais. Assimilando esse tesouro de experiência, no momento oportuno sentir-se-á sua utilidade.

            Levando a sério estas orientações da Madre, muito cedo as filhas de Teresa vêm-se livres de toda preocupação terrena e das exigências do amor próprio. Reconhecendo cada uma o pouco que possui e o muito que lhe falta, ajudando-se mutuamente com delicadeza e sinceridade que sugere o amor verdadeiro, assimilam com alegria o clima de serenidade que irradia da Madre e sentem-se parte integrante do ambiente maravilhoso que se criou em torno dela. A Santa, dito com outras palavras, sabe criar um ambiente no qual as almas vêm abrir ante seus olhos um horizonte ilimitado para o qual dirigir seus passos. (O noviciado teresiano mais que ensinar a praticar uma porção de coisas, abre uma porta, introduz em um caminho que vai durar a vida toda). E esse horizonte é o trato de amizade com Deus, Pai que está nos céus; cujo nome se deseja santificar, sobretudo quando se experimentou  a vinda de seu reino à alma; cuja vontade deseja-se cumprir, seriamente, não por costume, enquanto durar o breve “hoje” que é esta vida, acompanhadas e sustentadas pela presença de Jesus na Eucaristia, ainda que “tão disfarçado neste acidentes de pão e vinho, que é grande tormento para quem não tem outra coisa que amar nem outro consolo”; cujo perdão se alcança perdoando de verdade aos irmãos, não à força de penitências ou de boas intenções de reconciliação; e cujo auxílio é a única garantia segura contra os enganos do demônio vestido de anjo de luz, e para livrar-se de todo mal.

            A segunda parte do livro é simplesmente um comentário do Pai nosso. Quem deseja viver vida de oração não pode buscar melhor caminho que o que Cristo mesmo nos ensinou.

            O Caminho de Perfeição contém, como se vê, algumas idéias básicas, fundamentais, claríssimas. O que importa à Santa é que cada noviça que chega à sua casa, as vá assimilando e fazendo suas segundo sua própria capacidade, e empenhe-se em prosseguir avançando sempre por esse caminho com a ajuda de Deus, pois na realidade o noviciado não termina nunca. 


[1] C. CATENA, Le Carmelitane. Storia e spiritualità. Roma,1969. (Textus et studia historica carmelitana 9).

[2] Ver especialmente O. STEGGINK, Experiencia y realismo en Santa Teresa y San Juan de la Cruz (Madri,1974) p. 13-98, e do mesmo autor, Arraigo e innovación. Madri,1976 (BAC Minor 41).

[3] O. STEGGINK, Arraigo e innovación, p. 185.

[4] O. RODRIGUEZ, The Teresian Gospel. An introduction to a fruitful reading of the Way of perfection. Pro manuscripto. Darlington Carmel,1974.

[5] Cf. I. MORIONES, El Carisma teresiano. Estudio sobre los orígenes. Roma,1972, p.43-44.

     
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