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4-5

Ildefonso Moriones OCD

O CARMELO TERESIANO

Páginas de sua história

 Tradução do original de Vitoria  
Ediciones El Carmen:
Monjas do Mosteiro de São José
Jundiaí - SP
    Brasil

 

AS CONSTITUIÇÕES TERESIANAS

C O N T E N T S

INTRODUÇÃO 1-  A ORDEM DO CARMO
2 -  TERESA DE AHUMADA, MONJA CARMELITA 3 -  SÃO JOSÉ DE ÁVILA
4 -  AS CONSTITUIÇÕES TERESIANAS 5 - AS CONSTITUIÇÕES TERESIANAS
6 - TERESA DE JESUS, FUNDADORA DE FRADES 7 - CARMELITAS “CALÇADOS” E “DESCALÇOS
8 -  A NOVA PROVÍNCIA SOB O GOVERNO DO PADRE GRACIÁN 9 - FREI JOÃO DA CRUZ, O HOMEM INTERIOR
10 - MUDANÇA DE SUPERIOR E DE RUMO 
O P. NICOLAU DE JESUS MARIA, DÓRIA
11 - O LEGADO DO PADRE DÓRIA
12 - ANTES QUEBRAR DO QUE DOBRAR.
DUAS ORDENS DE CARMELITAS DESCALÇOS
13 - A CONGREGAÇÃO ESPANHOLA
14 - UMA HISTÓRIA DIFÍCIL DE CONTAR 15 - A CONGREGAÇÃO ITALIANA
PRINCIPAIS PROTAGONISTAS
16 - NOVOS REFORÇOS:
DOMINGO RUZOLA E TOMÁS DE JESUS
17 - EXPANSÃO DA CONGREGAÇÃO ITALIANA
18 - DIFUSÃO DAS FILHAS DE SANTA TERESA O MUNDO 19 - RESTAURAÇÃO (SÉCULO XIX) E
NOVA EXPANSÃO DA ORDEM (SÉCULO XX)
20- O CARMELO TERESIANO E A  RENOVAÇÃO DA VIDA
RELIGIOSA PROMOVID
A PELO VATICANO II
.

 

CAPÍTULO IV

AS CONSTITUIÇÕES TERESIANAS

             Vimos mais acima como o Patriarca Alberto sintetizou genialmente os elementos fundamentais da vida carmelitana que, aperfeiçoados por Inocêncio IV e ainda que um pouco obscurecidos por aderências estranhas, chegaram intactos até Teresa. Ela, em sua nova casa, quis voltar ao ideal primitivo da Regra, libertando-a dessas aderências e apresentando-a a suas filhas em toda sua pureza. De fato, os elementos contidos na Regra carmelitana são de per si suficientes e não necessitam  de acréscimos se são vividos e assimilados em toda sua profundidade. “Gostaria que seguisse a Regra, – escreve a Santa - que já é suficientemente rigorosa, fazendo as outras coisas com mais suavidade” [1] .

Porém, esses princípios não são tão fáceis de entender e colocar em prática como parece à primeira vista: “Há algumas que muito padecem até entender a perfeição, e até o espírito da nossa Regra, e talvez venham a ser as mais santas; porém, estas não saberão quando é correto desculpar-se, nem quando não o é, desconhecendo alguns outros detalhes que, compreendidos, talvez lhes facilitassem a tarefa. Mas elas não conseguem fazê-lo e, o que é pior, não julgam ser isso perfeição” [2] . Nada de estranho, pois, que da mesma maneira que os ermitães do Carmelo recorreram a Santo Alberto em busca de uma orientação para suas vidas consagradas a Cristo, recorressem também à Madre Teresa suas companheiras e filhas de São José, pedindo-lhe uma codificação mais explícita do novo estilo de vida implantado por ela. E assim nasceram suas Constituições, que podem ser consideradas como uma verdadeira reinterpretação da Regra carmelitana, vivificada pelo carisma teresiano.

Ao ler estas Constituições, convém ter em conta que não são fruto de uma elocubração mental, nem foram elaboradas ao estilo de um receituário onde se aponta o melhor de quanto existe em matéria de disciplina religiosa. São, melhor dizendo, expressão de uma síntese vivida, pelo que cada prescrição, cada conselho, cada palavra, tinha uma ressonância própria nas companheiras de Teresa, ressonância que nunca poderá perceber em toda sua força quem não tiver vivido essa realidade. E, com essa ressalva, passemos a resumir o conteúdo destas Constituições, que para as filhas de Teresa constituirão – mais que a Regra mesma – o esquema de vida de suas comunidades e a síntese jurídica do espírito de sua Madre Fundadora.

Para comodidade do leitor, seguiremos a ordem material da Regra, segundo a numeração estabelecida no capítulo primeiro.

 

1. Quanto à madre priora, ao estabelecido na Regra acrescenta a Santa um esclarecimento importante: a seu ofício corresponde “prover às necessidades quer espirituais, quer temporais, com amor de mãe. Procure ser amada para ser obedecida” (n.º 34). Acentua também explicitamente sua missão de mãe e mestra espiritual: “Todas as irmãs, uma vez por mês, dêem conta à Priora de como têm caminhado na oração e como o Senhor as conduz: sua Majestade lhe dará luz para guiar, caso não forem bem. [...] Quando a Priora vir que não há ninguém suficientemente apta para o ofício de mestra de noviças, ela mesma assuma esse ofício” (n.º 41). A nota de humildade e espírito de serviço que exige a Regra, a Santa a recorda graficamente: “A tábua com os nomes das que devem varrer comece com o da Madre Priora, para que em tudo dê bom exemplo” (n.º 22). “Nunca a Priora, nem qualquer outra irmã sejam chamadas por algum título nobiliárquico” (n.º 30).

Ter-se-á advertido que na Regra não se estabelece nenhum período fixo para a duração do superior no governo. Nas Constituições primitivas de Santa Teresa tampouco. Porém, se deduz claramente de sua função no grupo, que a figura da priora teresiana inclui uma certa estabilidade. De fato, como se vê nos livros de eleições dos primeiros conventos, não existia nenhum limite taxativo de tempo. Nas Constituições de 1581, estabelecer-se-á expressamente que podem reelegê-la, sem limite nenhum, enquanto o desejarem, contanto que tenham “três quartos dos votos” (c. 1, n.º 5). Quer dizer, que quando encontrarem uma verdadeira madre que satisfaça às necessidades da comunidade, nenhum condicionamento jurídico externo as obriga a mudá-la. E se depois de feita a eleição, a designada não corresponder ao que dela se esperava? A isso responde a Santa com seu realismo costumeiro: “Não é possível que todas as que se elegerem para preladas tenham talento para isso. Quando isso for observado, de nenhuma se deve deixar passar o primeiro ano sem tirá-las do cargo. Porque em um ano não podem causar muito dano, mas em três podem destruir o convento ao tornarem habitual a imperfeição” (Modo de visitar conventos, 9).

             A Santa acrescenta finalmente um princípio de eqüidade canônica importantíssimo para compreender a figura da priora teresiana: “A Madre Priora pode dispensar em todas essas coisas, conforme o que for justo, com discrição e caridade” (n.º 31).

2. “Todo o tempo em que não se encontrem com a comunidade ou ocupadas em ofícios da casa, cada uma esteja na própria cela ou na ermida que a Priora lhes designar. Numa palavra, estejam no lugar de seu recolhimento, empenhadas em algum trabalho, salvo nos dias de festa, conformando-se nesse retiro ao que prescreve a regra, isto é, que cada uma esteja sozinha” (n.º 8).

3. “A nossa Regra diz que oremos sem cessar. Por isso, façamo-lo com todo o cuidado possível, que é o mais importante, não deixando de cumprir os jejuns e disciplinas, bem como o silêncio requerido pela Ordem; porque já sabeis: para que a oração seja verdadeira, devemos recorrer a isso, pois os prazeres e a oração são incompatíveis” (Caminho 4,2). Este princípio fundamental da Regra carmelitana a Santa o completou acrescentando em suas Constituições duas horas diárias de oração: uma desde o despertar até o começo da recitação do Ofício divino no coro, outra à tarde, na hora que se julgar mais oportuna para a comunidade. É de se notar aqui que, não obstante o costume muito difundido já naquele tempo na Espanha de praticar a meditação como ato comunitário, começando-a e terminando-a com uma oração, a Santa limita-se a indicar nas Constituições que se dê o sinal para a oração, deixando a cada religiosa a liberdade de escolher o lugar. Às duas horas de oração acrescenta a Santa uma hora diária de leitura espiritual “porque esse alimento é tão necessário para a alma quanto a comida para o corpo” (n.º 8) e dois exames de consciência: um breve, ao terminar a manhã, e que cada uma fará onde estiver antes de ir para o refeitório, outro que farão todas juntas no coro antes do descanso, e que, junto com a leitura do ponto de meditação para a manhã seguinte, durará quinze minutos. Importante também a flexibilidade da legislação teresiana que permite o intercâmbio entre leitura e oração: “Durante essa hora de oração, poderá ser feita a leitura, se na hora indicada depois das Vésperas se acharem com espírito para ter oração. Façam isso conforme virem que mais as ajuda a se recolher” (n.º 7).

4. Quanto às ocupações com as quais podem alternar o retiro na cela e a oração, além das indicadas acima no n.º 2, a Santa assinala as visitas no locutório, advertindo que “é importante que quem nos vem visitar parta com algum proveito e não seja perda de tempo para eles como para nós” (n.º 18).

5. “A Missa será rezada às oito horas no verão e às nove no inverno. As que comungarem fiquem um pouco no coro” (n.º 4).

            Acerca da recitação do Ofício divino, a Santa segue a legislação da Igreja, acrescentando à recomendação de simplicidade e naturalidade no canto um princípio de solenização progressiva, moderno como tudo o que foi estabelecido por ela: “Acabada a oração, rezem a seguir as Horas até Noa, exceto se for solenidade ou festa de um santo pelo qual as irmãs tenham particular devoção; neste caso deixarão para cantar Noa antes da Missa. Nos domingos e dias de festa, cantar-se-ão a Missa e as Vésperas; e as Matinas nos dois primeiros dias de Páscoa; e nos outros dias de solenidade, especialmente no dia do glorioso São José, poderão cantar Laudes” (n.º 2).

            6. As prescrições da Regra sobre a pobreza, a Santa as abraça com entusiasmo, enriquecendo-as com a profundidade doutrinal do Caminho e detalhes muito importantes em suas Constituições: “As irmãs não possuam nada de seu, nem se lhes consinta, quer para comer quer para vestir; nem tenham arca, nem arquinha, nem gaveta, nem armários, salvo as que têm os ofícios da comunidade; nem para nada em particular, mas tudo seja em comum. Isto é muito importante, porque em pequenas coisas pode o demônio ir relaxando a perfeição da pobreza. Por isso tenha muito cuidado a Priora em que, quando vir alguma irmã apegada a algo, seja livro, cela, ou qualquer outra coisa, tire-lho” (n.º 10).

            7. Sobre a reunião ou capítulo semanal, a Santa acrescenta ao estabelecido na Regra uma referência explícita à correção evangélica: “Nenhuma repreenda a outra pelas faltas que a vir cometer; se forem grandes, seja avisada a sós com caridade; se após três repreensões não se emendar, avise-se a Madre Priora, sem falar com nenhuma outra irmã. Como há zeladoras, encarregadas de observar as faltas, descuidem-se, deixem passar as que virem, ocupando-se bem mais com as próprias. Não se intrometam com quem falte aos próprios ofícios, a não ser em coisa grave, em que estão todas obrigadas  a avisar, como se disse. Tenham grande cuidado em não se desculpar, a não ser quando necessário, e terão grande proveito nisso” (n.º 29).   

            Mais tarde se acrescentou às Constituições da Santa a parte das Constituições da Encarnação onde se explica o cerimonial concreto com o qual se desenvolvia o capítulo, começando com a leitura de um texto da Regra e Constituições, comentado brevemente pela Priora, se o julgar conveniente (n.º 43-48).

            (Dos dias em que estiveram só as quatro primeiras noviças de São José, nos diz Isabel de S. Domingo: “faziam seu capítulo de culpas no qual se ajudavam umas às outras na caridade”).

            8. A Regra carmelitana leva um selo de austeridade e rigor na alimentação que a Santa conserva em suas Constituições, temperando-o de discrição e acentuando o aspecto evangélico da penitência. Começa repetindo a prescrição da Regra: “Jejuar-se-á desde o dia da Exaltação da Santa Cruz, que é em setembro, até a Páscoa da Ressurreição, exceto aos domingos. Conforme o que prescreve a Regra, não se há de comer carne perpetuamente, exceto em caso de necessidade” (n.º 11).

            A Madre Teresa acrescenta logo seu pormenor para ensinar a unir a penitência corporal com a “penitência racional”, como dirá São João da Cruz: “Nenhuma irmã fale se se lhe dá muito ou pouco para comer, se está bem ou mal guisado” (n.º 22). E para evitar que a excessiva penitência prejudique a saúde, continua: “A Priora e a provisora cuidem de que, quanto o Senhor manda, seja bem preparado, de modo que possam passar com o que se lhes dá, pois não possuem outra coisa. As irmãs sejam obrigadas  a dizer à Madre Priora as necessidades que tiverem, e as noviças à sua Mestra, tanto nas coisas de vestir como nas de comer, e se necessitam mais do que o costume, ainda que não seja grande a necessidade” (n.º 22).

            9. Constantemente em seus escritos, a Santa faz suas as exortações da Regra que convidam a buscar a perfeição na caridade, esperando a salvação somente de Jesus Cristo. Nas Constituições sublinha com sutileza este aspecto da vida comunitária: “Todas se amem reciprocamente, como Cristo recomenda muitas vezes a seus Apóstolos. Pois sendo tão poucas, isso será fácil. Procurem imitar seu Esposo, que deu a vida por nós. Esse amar-se umas às outras indistintamente, e não em particular, é muito importante” (n.º 28).

            10. A Santa viveu como poucos e soube inculcar em suas filhas o amor à lei comum do trabalho. Não contente com as expressões da Regra, que dedica ao tema um dos capítulos mais extensos, acrescenta por sua conta nas Constituições, pormenores de importância fundamental para definir o estilo de vida que ela vai implantando em seu novo Carmelo.  Não obstante os séculos de tradição mendicante que interpõem-se entre ela e a Regra, a Santa prescreve: “Há de se viver de esmola sempre, sem nenhuma renda, e, enquanto se puderem sustentar, não peçam nada. Somente em caso de grave necessidade pedirão esmola. Do contrário, como fazia São Paulo, valham-se do trabalho das próprias mãos, e o Senhor lhes proverá do necessário” (n.º 9). A comunidade teresiana decide, pois, viver de seu trabalho; porém, a Madre Fundadora quer que seja um compromisso aceito também, como todos os demais de suas Constituições, por todas e cada uma com grande convicção pessoal: “Nunca se dê às Irmãs trabalho com prazo fixo; cada uma procure trabalhar para alimentar as outras. Tenham grande apreço pelo que diz a Regra: quem quiser comer deve trabalhar, como o fazia São Paulo (2Ts 3,10). Se alguma quiser, por vontade própria, empenhar-se num trabalho com prazo, para o realizar cada dia, faça-o livremente. Porém, não se lhe imponha penitência caso não o termine” (n.º 24).

            Enquanto nas Constituições da Encarnação estava prevista uma sala comum de trabalho, presidida pela priora ou uma delegada sua, a Santa manda-as trabalhar “cada uma na própria cela ou na ermida que a Priora lhes designar [...] empenhadas em algum trabalho, salvo nos dias de festa” (n.º 8). “Não tenhais neste convento de São José, sala de trabalhos” (Caminho 4,9). Dessa maneira salvaguarda-se melhor o silêncio e o recolhimento, evitando que o trabalho possa prejudicar a vida de oração. Por isso, estabelece também que “para viver não façam trabalhos requintados, mas o fiar e o coser, ou coisas que não sejam tão primorosas que de tal modo ocupem o pensamento que impeçam de o ter em Nosso Senhor” (n.º 9). “O corpo deve trabalhar, pois é certo que procureis sustentar-vos, e a alma, descansar” (Caminho 34,4).

            11. Sobre a santificação da noite, elemento de tanta importância na tradição monástica, a Regra acrescenta à prescrição de meditar dia e noite na lei do Senhor e velar em oração a de observar com maior rigor o silêncio. As Constituições carmelitanas acrescentaram depois a prescrição de recitar as Matinas à meia-noite. A Santa mantém o grande silêncio, desligando-o da recitação de Completas para poder ter a recreação depois da ceia, e fixa seu início às 20 hs: “No verão e no inverno, às oito horas, será dado o sinal do silêncio, que será observado com todo cuidado até o fim de Prima do dia seguinte” (n.º 7). Em troca, abandona o costume de recitar as Matinas à meia-noite (as recitarão entre nove e onze horas, n.º 1), substituindo esse costume com outro pormenor de grande importância para a santificação da noite: quinze minutos antes de deitar-se, reunir-se-ão no coro para fazer o exame de consciência e, em seguida “a que for encarregada pela Madre Priora lerá em vernáculo um breve trecho sobre o mistério que deverão meditar no dia seguinte” (n.º 1). E esse mistério será o primeiro ponto de referência ao despertar no dia seguinte: “No verão, levantem-se às cinco e estejam em oração até às seis. No inverno, levantar-se-ão às seis e ficarão em oração até às sete” (n.º 2).

            Quanto ao silêncio durante o resto do dia, esclarece a Santa que para uma conversa longa, necessita-se da permissão da priora. Para as coisas necessárias nos ofícios ou “para uma pergunta ou resposta, ou poucas palavras, isso poderá ser feito sem licença” (n.º 7).

            12. A Regra termina com um convite à generosidade individual: “Se alguém ultrapassar o estrito cumprimento de suas prescrições, o Senhor, ao voltar, dar-lhe-á a paga. Proceda-se, contudo, com discrição, que é a reguladora das virtudes”. Convite que a Santa faz seu, mas com uma restrição: “Ninguém tome outras disciplinas nem faça outras penitências sem licença” (n.º 59).

            A este núcleo fundamental de elementos enunciados na Regra e expressos por Santa Teresa com novo vigor em suas Constituições, a Madre Fundadora acrescenta, por conta própria, um capítulo inteiro sobre o modo de comportar-se na recepção das noviças e sobre as qualidades que se devem exigir das que desejam abraçar o estilo de vida apresentado por ela: “Atente-se muito às que tiverem de receber, que sejam pessoas de oração e que pretendam toda a perfeição e o menosprezo do mundo [...] e que tenham saúde e entendimento” (n.º 21).

            Outro capítulo que pode considerar-se totalmente novo é o dedicado às enfermas: “As enfermas sejam tratadas com muito amor, magnanimidade e piedade, segundo a nossa pobreza. Louvem a Deus, nosso Senhor, quando forem largamente providas. Em lhes faltando os alívios que os ricos podem permitir-se em suas doenças, não se desconsolem, pois a isso hão de vir determinadas. Isto é ser pobres: carecer de algo no tempo de maior necessidade. A Madre Priora ponha todo o cuidado em que antes falte o necessário às sãs, do que alguns alívios às enfermas. Sejam visitadas e consoladas pelas irmãs. Seja enfermeira uma irmã que tenha a habilidade e a caridade exigidas para esse ofício. As enfermas procurem então mostrar a perfeição que adquiriram quando tinham saúde, tendo paciência e importunando o menos que puderem, quando o mal não for grave. A enferma obedeça à enfermeira para que possa tirar proveito da doença, lucrar com ela e edificar às irmãs. As doentes tenham roupa de linho, camas com colchões e sejam tratadas com grande asseio e caridade” (n.º 23).

            Um terceiro elemento, finalmente, que tampouco está na Regra e que a Santa introduz atribuindo-lhe importância capital, é o das recreações. Uma hora depois do almoço e um tempo indeterminado depois da ceia: “Acabada a refeição, a Madre Priora poderá permitir que conversem sobre o que mais lhes agrade, desde que não se trate de coisas inconvenientes à conversação de uma boa religiosa. E, durante todo este tempo, trabalharão com a roca” (n.º 26). “De modo algum se permitam jogos. O Senhor concederá a algumas a graça de recrear as outras. Fundadas nisso, todo o tempo é bem empregado. Procurem não ser pesadas umas às outras; que as brincadeiras e palavras sejam com discrição. Terminada a hora que passam juntas, no verão poderão dormir uma hora. Quem não quiser dormir, guarde silêncio” (n.º 27). “Depois de Completas e da oração [colação?], como acima foi dito, no inverno e no verão a Madre poderá permitir que as irmãs conversem, tendo todas os seus trabalhos, pelo tempo que a Madre Priora julgar oportuno” (n.º 28).

            Deste resumo das Constituições teresianas resulta um quadro completo de orientações e critérios fundamentais que, aprendidos no modelo vivo que era a Madre Fundadora, plasmaram com eficácia assombrosa a vida de suas primeiras discípulas; e a Santa não cabia em si de alegria ao vê-las avançar com tanta rapidez pelo caminho da perfeição. As noviças encontravam todos esses elementos vividos em síntese maravilhosa pela Madre Fundadora e suas companheiras e as novas comunidades teresianas foram-se propagando a um ritmo extraordinário: “[...] Em quinze dias – dirá a Santa – fica assentado nosso modo de viver, e as que entram não fazem mais do que seguir o que vêem nas que já estão” [3] .

 

CAPÍTULO V

IRRADIAÇÃO DE UM CARISMA

            Quando a Santa viu, como dizíamos, o êxito assombroso de sua idéia, como aquelas jovens viviam felizes sua entrega generosa ao Senhor e que aprendiam em poucos meses o que lhe tinha custado muitos anos, começou a pensar seriamente na difusão de sua descoberta: “O tempo fazia crescer em mim o desejo de contribuir para o bem de alguma alma; eu muitas vezes sentia-me como quem tem um grande tesouro guardado e deseja dá-lo para que todos gozem, mas tem as mãos atadas para não poder distribuí-lo. Eu tinha a impressão de estar com as mãos atadas dessa maneira porque eram tantas as graças recebidas naqueles anos que me pareciam mal empregadas apenas em mim. Eu servia ao Senhor com minhas pobres orações e procurava que as irmãs fizessem o mesmo e valorizassem muito o bem das almas e o progresso de Sua Igreja. Quem com elas se relacionava saía edificado. E nisso se embebiam os meus grandes desejos” [4] .

            A casinha de São José estava cheia, enquanto outras muitas almas continuavam batendo em sua porta. A única solução para atender a esses pedidos era criar para elas outras comunidades semelhantes. Ao estabelecer o número limitado para seu projeto de fundação, a Santa não somente o defendia contra os inconvenientes experimentados na Encarnação, como também havia introduzido no modelo de comunidade criado por ela um princípio de multiplicação cuja transcendência histórica se deixaria sentir em seguida.

             Porém, antes de lançar-se com todo o ser em sua empresa de Fundadora, necessitava  a permissão e a bênção de seus superiores. Era impensável ter que repetir toda a aventura de Ávila em cada nova fundação. Além disso, as coisas tinham mudado muito: a autorização que agora necessitava não era para embarcar em uma empresa cujo êxito desconhecia, mas sim para propagar um estilo de vida perfeitamente definido e comprovado com a experiência de cinco anos. E esta bênção chegou com a passagem providencial do Padre Rubeo por Ávila, em fevereiro de 1567. O Geral, que se encontrava ali por ocasião de sua visita canônica às províncias espanholas, aproveitou algumas tardes para saudar às monjas de São José e manteve longas conversas com a Madre Teresa. Foram momentos de gozo espiritual para ambos e de consolo para o Geral da Ordem, em meio a tantos dissabores: “Ele se alegrou – diz-nos a Santa – por ver como vivíamos e por encontrar uma reproduçãoainda que imperfeita – dos princípios de nossa Ordem” [5] . Rubeo aprovou entusiasmado a comunidade teresiana e animou a Madre Fundadora a fundar quantas casas pudesse, outorgando-lhe as patentes necessárias e acolhendo as novas fundações sob sua jurisdição imediata. Mostrou-se inclusive ressentido de que o Provincial não tivesse admitido a de São José.

            A partir desse momento, inicia o que o Padre Efrén qualifica de “cascata de fundações” [6] e que durará até a morte da Santa: Medina del Campo em 1567, Malagón e Valladolid em 1568, Toledo e Pastrana em 1569, Salamanca em 1570, Alba de Tormes em 1571, Segóvia em 1574, Beas e Sevilha em 1575, Caravaca em 1576, Villanueva de la Jara e Palência em 1580, Soria em 1581, Granada e Burgos em 1582. A história detalhada dessas fundações pode-se ler escrita em primeira pessoa pela mesma Santa em suas Fundações, ou enriquecida com toda a documentação da época nas grandes biografias teresianas.

            Aqui vamos fixar nossa atenção sobre uma pergunta de fundo que surge espontânea ao observar um fenômeno histórico semelhante: qual é o segredo desse êxito? A que se deve a rapidez dessa difusão, se se considera que as novas Carmelitas fundam em 10 anos na Espanha, mais conventos que os fundados pelo Carmelo tradicional em todo um século? O que faz a mensagem de Teresa de Jesus tão atraente? Para responder a essas perguntas com a brevidade costumeira nesse livro, eu assinalaria duas como sendo as causas principais desse fenômeno: em primeiro lugar, o ideal mesmo representado por Teresa; em segundo lugar, sua maravilhosa pedagogia, sua arte para conquistar as almas e guiá-las pelos caminhos do espírito.

A MENSAGEM DE TERESA DE JESUS

            “Em começando alguma a ter oração – constata com simplicidade a mesma Madre – já não quer outra coisa, a modo de dizer, senão enclausurar-se nestas casas” [7] .

            Vemos pela história, que os fundadores de Ordens religiosas costumam responder a uma necessidade da Igreja sentida com particular urgência no momento em que eles atuam: seja a pregação ao povo de Deus em momentos de particular abandono pastoral, ou a assistência aos enfermos, ou a educação  das crianças abandonadas, etc. Normalmente trata-se de uma necessidade palpável, por assim dizer, no ambiente, que muitos estão percebendo sem encontrar a maneira de intervir. Nestas circunstâncias aparece uma pessoa, dotada de qualidades iminentes e enriquecida de carismas extraordinários pelo Espírito Santo, põe mãos à obra, acha a fórmula mais apta para resolver o problema. Reúne em torno de si um pequeno núcleo de colaboradores e seu exemplo começa em seguida a contagiar a muitas outras pessoas que estavam vivendo essas mesmas inquietudes. A ressonância, o eco que nessas pessoas acha o programa de vida proposto pelo fundador explica, ao menos em parte, a rapidez da difusão de sua obra.

            Voltando agora ao caso de Santa Teresa, poderíamos perguntar-nos: todas essas pessoas que tinham oração, e que parece a estavam esperando para entrar em seus conventos, por que não haviam entrado em outros já existentes?  Possuímos o testemunho de bastantes pessoas que desejavam abraçar a vida religiosa, mas não à maneira dos religiosos de então. A necessidade, vivamente sentida por muitos, e à qual Santa Teresa vinha responder, era de uma vida espiritual mais interior, mais simples, mais em conformidade com o Evangelho e com os Padres da Igreja, como reação ao observantismo muito difundido ainda. Observantismo originado, sobretudo, pelas congregações reformadas do século XV, que em seu afã por acabar com o relaxamento, foram sobrecarregando a vida religiosa de cerimônias e práticas exteriores que afogavam as almas e as retraíam de entrar na vida religiosa, não obstante seu desejo de entregar-se a Deus [8] .

            E não é uma coincidência casual o fato de que estas almas de paladar novo tivessem sido formadas, em sua maioria, sob a direção dos Jesuítas. Sabemos que Santo Inácio, pondo em marcha 20 anos antes sua Companhia de Jesus, tinha pretendido precisamente criar um novo estilo de clérigos que, vivendo em toda a sua plenitude o ideal religioso, porém livres de estruturas e cerimônias desnecessárias, pudessem prestar um serviço mais eficaz à Igreja. E este novo estilo espiritual de Inácio e seus seguidores era assimilado também pelas pessoas que entravam em contato com a Companhia. “Nem todas as pessoas espirituais me contentam para nossos mosteiros – escreve a Santa em 28 de junho de 1568 – se não as que esses padres confessam, e, assim, quase todas as que estão neles, e não me recordo agora de nenhuma das que recebi que não seja sua filha, porque são as que nos convêm; pois, como eles tinham formado minha alma, o Senhor fez-me a mercê de que nestes mosteiros tenha-se implantado seu espírito”. Como à Santa não contentava qualquer tipo de pessoa espiritual, tampouco a estas pessoas contentava qualquer tipo de vida religiosa; e, ao aparecer no horizonte da Igreja o modelo teresiano, acolhem-no com o entusiasmo que a história documenta.

 

A PEDAGOGIA TERESIANA

            O segundo elemento – como dizíamos – que contribuiu para a rápida difusão do Carmelo Teresiano foi a pedagogia da Madre Teresa. “O Senhor chamou-me à vida religiosa, – diz-nos Maria de São José – vendo e tratando com nossa Madre e suas companheiras, as quais moviam as pedras com sua admirável vida e conversação, o que me fez segui-las foi a suavidade e discrição de nossa boa Madre. E, creio verdadeiramente que, se os que têm ofício de atrair almas a Deus usassem da astúcia e manha que aquela santa usava, atrairiam muito mais almas” [9] .

 

            A Madre Maria de São José não pode ser mais explícita: fala-nos de “astúcia e manha” para facilitar às almas seus primeiros passos por um caminho que deve conduzi-las à meta dificílima na qual se experimenta, finalmente, “quão suave é o padecer por Cristo”.

            Ao repassar os elementos mais destacados dessa pedagogia teresiana, tenha-se em conta, como advertimos também ao falar do Caminho de Perfeição, que as pessoas que se aproximavam da Santa ou entravam em contato com suas comunidades percebiam uma síntese vivida, um estilo característico, um ambiente no qual cada um encontrava-se como em sua casa e sentia-se contagiado e convidado a participar. A enumeração desencarnada desses elementos poderá ajudar-nos apenas a formar uma pálida idéia do que foi a realidade histórica, porém, nem por isso carece de utilidade o fato de recordá-los.

            Sem pretender que sejam os únicos, nem talvez os mais importantes – pode ser que estudando à Santa, se encontrem outros mais necessários em uma circunstância determinada – quero advertir aqui que a individuação desses elementos não foi puramente casual, senão fruto de uma investigação que, seguindo sua trajetória ao longo do primeiro século de vida da Ordem, pôs em relevo sua transcendência histórica, tanto nos primeiros passos do Carmelo Teresiano, como em sua evolução posterior.

 

INTERIORIDADE

 

            O primeiro destes elementos característicos da pedagogia teresiana é a interioridade.Ocupe-se mais com o interior do que com o exterior”, prescreve a Santa nas Constituições (n.º 40) falando da mestra de noviças. Mais que na eficácia das estruturas ou da observância regular – às normas da convivência acomodam-se suas noviças desde o primeiro dia – a Santa crê na eficácia da direção pessoal: respeito à pessoa – “não há de levar a todas da mesma maneira” - ,  “trate-as com piedade e amor sem escandalizar-se de suas faltas, porque hão de progredir pouco a pouco. Vá exercitando na mortificação, de acordo com o que cada uma pode suportar”. O fim da formação é “formar almas onde more o Senhor” e a isso hão de ser dirigidos todos os esforços da mestra, ajudando a noviça a entrar nos segredos da oração e guiando-a pelo caminho da caridade. “Entendamos, filhas minhas, - escreverá a Santa em Moradas I,2,17 - que a verdadeira perfeição é o amor a Deus e ao próximo. Quanto mais fielmente guardarmos esses dois mandamentos, tanto mais perfeitas seremos. A nossa Regra e as nossas Constituições, em seu conjunto, não servem senão de meios para seguir isso com mais perfeição”.

DISCRIÇÃO NA PENITÊNCIA CORPORAL

 

            Em estreita relação com o elemento anterior está o da discrição na penitência corporal. “Dê mais importância a que não haja falta nas virtudes do que ao rigor da penitência”, adverte a Santa à mestra de noviças (n.º 40).

            O estilo de vida pobre e austero estabelecido por Teresa está ao alcance de todos e oferece às almas a possibilidade de alcançar um grau heróico de ascetismo e de virtude sem prejudicar a saúde física, considerada por ela um dom de Deus, que deve se cultivar para o serviço do próximo. Era muito comum entre os contemporâneos de Teresa identificar a perfeição com penitências extraordinárias, desanimando, como conseqüência, ou fechando a porta para o caminho da santidade àqueles que não tinham as forças físicas necessárias para suportá-las. Aos olhos desses atletas da penitência a Madre Teresa quase desentoa, não chegava à sua altura. Mas a outras muitas almas que desejavam a perfeição e não viam a utilidade desses rigores, abriu-lhes o céu. “Entenda, meu Padre, que sou amiga de apertar muito nas virtudes, porém não no rigor, como se poderá ver nestas nossas casas. Deve ser porque sou pouco penitente” [10] .

RECREAÇÕES

 

            Maria de São José diz-nos que no plano da Santa tinha tanta importância os entretenimentos por ela introduzidos, como outros exercícios de penitência [11] . No convento teresiano reina um ambiente de silêncio e de recolhimento contínuo. “O estilo de vida que pretendemos ter não se limita a sermos monjas, exigindo que sejamos eremitas [12] . Quer dizer, não só se afastaram do mundo fazendo-se monjas, mas também afastaram-se do mosteiro fazendo-se eremitas e, assim, oram e trabalham em sua cela ou ermida, diferentemente de outros mosteiros onde existia sala comum de trabalho. Porém, para que esse ambiente de silêncio e recolhimento possa manter-se em todo seu rigor a Santa estabelece que duas vezes ao dia, depois do almoço e depois da ceia, suas filhas recreiem-se em comunidade. Durante esses momentos de expansão – que aproveitarão continuando seus trabalhos – falarão “sobre o que mais lhes agrade”. A recreação teresiana tem, pois, um sentido de comunicação, que na fórmula do eremitismo tradicional aparece muito mais restrito, quando não abolida totalmente, e de diversão, coisa que muitos consideravam incompatível com a verdadeira penitência

SANTA LIBERDADE

 

            A expressão aparece no Caminho e é muito significativo o contexto em que a Santa a coloca. Falando precisamente dos enganos causados pelo demônio quando se veste de anjo de luz, recorda o empobrecimento de tantas almas religiosas que, confundindo a perfeição com o encolhimento, acabam por ver perigos em tudo, enchem-se de escrúpulos, fecham-se em si mesmas e tornam-se inúteis para qualquer gênero de apostolado, pois as pessoas ao vê-las tão encolhidas fogem instintivamente delas. Suas filhas – diz a Santa – bem fundadas no temor e amor de Deus, poderão “andar com uma santa liberdade tratando com quem for justo e ainda que sejam pessoas distraídas”, pois o Senhor lhes dará a graça, não só para que não se contagiem com os defeitos dos demais, senão para que com sua presença os ajudem a livrar-se deles.

            O estilo religioso teresiano atribui grande importância, tanto para o desenvolvimento espiritual de suas monjas, como para a eficácia apostólica de seu testemunho, ao que hoje chamamos simplesmente naturalidade, virtudes humanas: “Assim, irmãs, tanto quanto puderdes, sem ofensa a Deus, procurai ser afáveis e agir de tal maneira com as pessoas com quem tratardes que elas apreciem a vossa conversa, desejem o vosso modo de viver e tratar e não se atemorizem nem se amedrontem de praticar a virtude” [13] .

 

NOVO MÉTODO DE GOVERNO

 

            A responsável principal de fazer com que todos esses elementos se conjuguem com discrição e se vivam harmonicamente é a madre priora, a quem a Santa atribui um papel decisivo em sua comunidade; ela é a verdadeira mãe e mestra, como víamos nas Constituições.

            A Santa tinha visto, e continuava vendo, muitas comunidades desequilibradas ao seu redor, apesar de todos os decretos de reforma promulgados desde o Concílio de Trento até o último visitador, e resume sua experiência em uma frase que tem o valor de um livro: “Estou persuadida de que nada se consegue em mosteiros de monjas se não há quem de portas adentro as mantenha na disciplina [14] .Daí a importância que dava à eleição da priora e a que tivesse as qualidades necessárias para isso. Por isso também, concede a suas filhas que possam mantê-la no cargo enquanto governar com proveito de todas, sem que esquemas jurídicos alheios as obriguem a mudá-la com o prejuízo da comunidade.

            O confessor, por sua parte, limitar-se-á ao foro sacramental, colaborando com a madre priora na direção das religiosas, mas sem intrometer-se em assuntos de governo. E para que a incapacidade do confessor não malogre esta colaboração em algum caso determinado, a Madre Fundadora introduz outra “santa liberdade”, adiantando-se séculos ao direito comum da Igreja, concedendo à priora a faculdade de chamar confessores diferentes do ordinário quando as necessidades espirituais de suas súditas lhe sugerirem.

            No Modo de visitar os conventos indica, finalmente, a Madre Fundadora como deve realizar-se a visita canônica anual para que não termine em uma cerimônia inútil, como sucedia com freqüência em seu tempo, mas que seja uma hora de graça para o mosteiro. Através da visita suas comunidades receberão a aprovação da Hierarquia nas coisas que vão bem e a correção tempestiva se algo começa a desviar-se.

            A Madre Fundadora, como se conclui dessas breves indicações, possuía, pois, uma fórmula de vida riquíssima, na qual, a um conteúdo sobrenatural de união com Deus e de vida de oração com grande ressonância eclesial, unia, ao mesmo tempo, uma profunda conexão humana que levava eficazmente as almas para a maturidade que acompanha sempre a verdadeira santidade. E assim se explica a irradiação admirável de seu carisma.


[1] Fundações 18,7.

[2] Fundações 18,8.

[3] Carta de 2 de janeiro de 1575, n.º 76, a D. Teutônio de Bragança. Sobre a relação entre as Constituições primitivas da Santa e a edição de Alcalá 1581, cf. O. RODRIGUEZ, El testamento teresiano. Burgos,1970 (extrato de El Monte Carmelo 78 (1970) 11-83).

[4] Fundações 1,6.

[5] Fundações 2,3.

[6] Tiempo y vida, P. II, c.3.

[7] Carta de 17 de janeiro de 1570, n.º 25, a seu irmão Lourenço.

[8] Cf. R. POST, L’Eglise à la veille de la Réforme, em Concilium n.º 27 (1967) 53-64.

[9] Tratei o argumento amplamente em Ana de Jesús, p.9-25 e resumido em El Carisma teresiano, p. 47-55. O texto de Maria de S. José pode ser encontrado em suas Obras completas, p.170-171.

[10] Carta de 12 de dezembro de 1576, n.º 10, a Ambrósio Mariano. Mais detalhes sobre o modo de pensar da Santa neste ponto e sobre seu magistério através do epistolário, pode ver-se em Ana de Jesús, p. 11-15.

[11] Avisos para el gobierno de las religiosas. Roma,1977, p.69.

[12] Caminho 13,6.

[13] Caminho de Perfeição 41,7.

[14] Carta  de 13 de dezembro de 1576, n.º 9, ao Frei Jerônimo Gracián.

 

     
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