[News] [Curia]
[Addresses] [Carmelite
sites] [o.c.d.s.] ![]()
|
6-7 |
Ildefonso
Moriones OCD
O CARMELO TERESIANOPáginas de sua história Tradução do original de Vitoria |
![]() |
|
TERESA DE JESUS, FUNDADORA DE FRADES |
C O N T E N T S
CAPÍTULO VITERESA DE JESUS, FUNDADORA DE FRADES
Ao estudar a atuação de Santa Teresa como fundadora de novas comunidades femininas que, como vimos, ainda que partindo da tradição carmelitana e sentindo-se em estreita comunhão com os “antigos pais”, ofereciam uma versão em muitos aspectos nova e original da vida religiosa, fixamo-nos quase exclusivamente na pessoa da Santa, sem por isso tirar importância a muitos outros elementos históricos que acompanham o desenvolvimento de sua obra e que podem se achar facilmente nas biografias teresianas. Ao iniciar este capítulo quero repetir a mesma advertência para que o leitor não se desoriente ao recorrer à abundante literatura existente sobre o tema. A força principal, a autora e responsável em primeira pessoa do movimento religioso masculino que vai se colocar em marcha em nome de Teresa é, efetivamente, ela. Porém, diferentemente do que ocorreu no desenvolvimento das fundações de monjas, setor em que ela figurou praticamente sempre como a Madre Fundadora, no desenvolvimento das fundações masculinas interferiram muitos outros elementos históricos e circunstanciais que nem sempre permitiram aos protagonistas do século XVI discernir com inteira clareza a corrente religiosa na qual se achavam comprometidos. As diferentes realidades presentes e entrelaçadas sem suficiente consciência da diversidade, ou os diversos ângulos a partir dos quais se olha uma mesma realidade, podem ser causa de confusão, de discussões, de antagonismo incurável entre as pessoas que se acham envolvidas na dita situação. Confusão que pode atingir também ao estudioso que se aproxime do argumento sem precauções metodológicas suficientes. Daí nascem muitos mal- entendidos que se foram transmitindo até livros impressos quase em nossos dias. Hoje simplificou-se enormemente o estudo do tema com a publicação das Fundações do P. Gracián, que pode ser considerado em muitos aspectos, um livro paralelo ao das Fundações de Santa Teresa, e com o aparecimento de toda a documentação oficial ou relacionada com a evolução do Carmelo Teresiano em seus primeiros 30 anos. Remetendo a Monumenta Historica Carmeli Teresiani para um estudo mais profundo, compilarei aqui os componentes que concorreram no desenvolvimento da obra fundacional de Teresa, para que o leitor possa seguir mais facilmente o fio da história e ler, com maior proveito, toda essa documentação. A idéia de fundar algumas comunidades masculinas no estilo de São José de Ávila apresentou-se muito cedo na mente da Santa. Sua fórmula de vida religiosa, que produzia tão maravilhosos frutos de perfeição nas mulheres, por que não haveria de ser útil também aos homens? Fundando comunidades masculinas poderia distribuir com maior profusão seus tesouros e garantir, além disso, uma assistência espiritual adequada a suas filhas. Teresa previu, praticamente desde o princípio, um desenvolvimento paralelo dos dois ramos, sem preocupar-se com o destino dos conventos tradicionais, nem inclusive, de uma possível extinção dos frades Carmelitas em Castela: “vendo tão poucos na Província, e esse pequeno número já com pouca vida”, escreve nas Fundações [1] . Porém, o Geral que olhava as coisas a partir de um outro ângulo, não podia admitir sem mais nem menos o projeto da Santa. Sua experiência no generalato tinha-lhe feito compreender que já não era tempo de começar com novas congregações reformadas, quando as antigas estavam criando problemas contínuos ao governo central. A Ordem já tinha entrado pelo caminho da reforma decretado pelo Concílio de Trento e era melhor e mais seguro seguir com perseverança por esse caminho do que complicar as coisas com uma solução que se apresentava cheia de inconvenientes. Daí que, não obstante sua admiração pela Madre Teresa e sua exortação a multiplicar as comunidades femininas, na hora de conceder a permissão para fundar casas de frades dá mais ouvidos aos que viam nelas um risco para a paz da província do que aos argumentos da Santa e de D. Álvaro de Mendoza. Rubeo – em uma palavra – foi embora de Ávila sem autorizar as fundações masculinas que Teresa projetava. A Santa nem por isso desanimou. Continuou encomendando a Deus o assunto e escreveu por fim uma carta ao geral, “suplicando-lhe da melhor maneira que pude” [2] , diz-nos ela. Esta carta perdeu-se e por isso não sabemos quais foram os argumentos teresianos que conseguiram vencer a resistência de Rubeo. Com bastante probabilidade podemos conjeturar que entre eles figurava o projeto de encarregar aos religiosos que ela queria fundar o cuidado de todas as Carmelitas. A isso parece aludir Rubeo quando escreve a 8 de janeiro de 1569 às irmãs de Medina del Campo: “Desejo que estejam terminados os dois mosteiros de Carmelitas Contemplativos, para servi-las em suas casas e nas de nossas monjas” [3] . Com efeito, ao pedido de Teresa de poder fundar “algumas” casas de frades Rubeo tinha respondido com data de 10 de agosto de 1567 autorizando-a a fundar somente “duas”; acrescentando na patente em termos bem explícitos que estas duas casas deveriam estar sujeitas perpetuamente à jurisdição imediata do provincial de Castela como todas as demais e que sob nenhum pretexto devia alterar-se essa situação [4] . Rubeo concede à Santa uma licença incomparavelmente mais restrita ao tratar-se de frades; restrição que provém não de uma menor estima pela obra da Santa nesse campo, senão do temor do Geral de que nascessem discórdias entre seus súditos. Uma vez conseguida a licença, começou para a Santa um longo período de oração e de busca. De início orientou-se inclusive para os seculares, como tinha feito ao iniciar a fundação de São José (vinho novo, odres novos), mas, não os tendo encontrado, voltou-se para os Carmelitas. E pelos caminhos que ela conta no capítulo terceiro de suas Fundações, a Providência colocou à sua disposição os padres Antônio de Heredia, prior de Medina del Campo, que o tinha sido de Ávila no triênio anterior, e João da Cruz, estudante de teologia em Salamanca. Com eles e frei José de Cristo, corista, inaugurou sua primeira fundação de frades em Duruelo, no dia 28 de novembro de 1568 [5] . Sobre os primeiros passos dessa nova comunidade teresiana possuímos muito poucas notícias de primeira mão, fora as que nos transmite a mesma Santa em suas Fundações, capítulo 14, ao qual remeto, limitando-me aqui a uma observação que me parece importante. Está claro que na intenção da Madre Fundadora essa comunidade devia refletir o estilo de vida de seus Carmelos de Ávila, Medina, Malagón, Valladolid... com a única diferença de que nos sacerdotes o zelo pelo bem da Igreja deveria manifestar-se também no ministério apostólico. Sem dúvida, a realização do projeto trazia em si muito mais dificuldades, já que a casa devia governar-se pela legislação vigente na Ordem e o P. Antônio tampouco podia menosprezar seus longos anos de vida no Carmelo, os últimos dez, ao menos, como superior em Requena, Toledo, Ávila e Medina. Tinha tomado parte também no capítulo geral de 1564 e conhecia quanto se havia estabelecido para levar adiante a reforma da Ordem. Nada
de estranho, pois, que em alguns pontos preferissem sua opinião à da
Santa, como por exemplo, no caso da discrição na penitência
corporal. Completando o “fizeram
pouco de minhas palavras”, escreverá a Santa quando os exortou
à discrição em Duruelo: “Achei
graça no que alega o P. Frei João de Jesus a respeito de andarem
inteiramente descalços. Como diz que é por minha vontade, se fui eu
que sempre o proibi ao P. Frei Antônio? Era meu intento e desejo que
entrassem bons talentos e temia que, vendo muita aspereza, se haviam
de assustar”
[6]
. E o mesmo P. Antonio, anos mais tarde, declarará de seu próprio punho: “Não me governei pela Madre, senão pelas Constituições da Ordem e pela reforma que se fez em um capítulo geral da Ordem no ano de 1524 em Veneza, de onde tirei o modelo de nosso hábito e capa, o andar com sandálias e tudo o mais, e com isso me justifiquei depois contra os que me acusavam de ter introduzido novidades” [7] . Por isso parece-me desacertada a decisão de incluir entre as obras de Santa Teresa, a transcrição de suas Constituições atribuída ao P. Antônio [8] , pois, ao não ser uma transcrição literal, pouco ajuda a fixar o texto crítico e, ao conter mudanças importantes de índole jurídica – Matinas à meia-noite com uma hora de oração, meditação em comum no coro, exame do meio-dia no coro, quinze minutos de ação de graças depois da Missa, proibição de falar com mulheres, etc. – pode induzir ao erro atribuindo à Santa o que são correções alheias à sua mentalidade. Tenha-se em conta, além disso, que a fundação de Duruelo inaugurava-se com caráter de residência, o que excluía, segundo as Constituições, a possibilidade de receber noviços. E como da província de Castela só associou-se aos três primeiros o P. Lucas de Celis, que teve de abandonar a empresa por falta de saúde, depois de 22 meses de obtida a licença de Rubeo para duas fundações masculinas, a Santa via com preocupação que a primeira não acabava de desenvolver-se e a segunda estava por fazer. Isto
explica a alegria da Madre quando inteirou-se, em junho de 1569 em
Madri, quando ia da fundação de Toledo para Pastrana, que havia ali
um eremita italiano desejoso de conhecê-la. “Eu
– escreve a Santa – tendo
só dois frades, vi-me pensando que, se pudesse, seria grande coisa
ter esse também”. O encontro memorável de Ambrósio Mariano Azaro, ermitão de Tardón, com a Madre Fundadora ficou imortalizado no capítulo 17 das Fundações. Com Mariano, que mudou seu sobrenome pelo de São Bento, e seu companheiro João de Narduch, doravante João da Miséria, tinha já a Madre os elementos necessários para colocar em marcha a segunda fundação: “Enviei hábitos e capas e tudo fiz para que logo tomassem o hábito”. O problema do alojamento o mesmo Ambrósio Mariano o resolveu, decidindo destinar “para eremitas de frades descalços” a ermida de São Pedro que o príncipe Ruy Gomez tinha colocado à sua disposição nos arredores de Pastrana. A inauguração teve lugar no dia da Visitação, 2 de julho de 1569, sob a presidência do P. Muriel como delegado provincial e ficando como superior, diz-nos a Santa, “um padre chamado Frei Baltasar de Jesus, excelente pregador, nem muito velho nem muito moço”. Baltasar tinha uns 45 anos e achava-se em Castela por conseqüência do castigo que lhe havia imposto Rubeo na visita, desterrando-o de sua província de Andaluzia. (Na nova casa viu talvez a possibilidade de refazer a vida e aceitou o encargo). Mariano (que contava uns 60 anos) e João da Miséria (uns 43 anos), serão os primeiros noviços que emitirão sua profissão segundo a “Regra primitiva” em 10 de julho de 1570 [9] . A fundação, inaugurada solenemente com a vestição de Mariano e João no palácio do príncipe, teve grande ressonância em toda a vila e já em agosto associaram-se aos eremitas de São Pedro dois jovens pastranenses: Gabriel da Assunção (de Buencuchillo) e Bartolomeu de Santo Alberto (Octavio de Morales) – professarão em 20 de agosto de 1570 – e no mês de novembro, Bernardo de Santa Maria (Bernal de Villena), de uns 30 anos e também natural de Pastrana. Na primeira ata de profissão de Pastrana (10 de julho de 1570) assinam, além de Baltasar de Jesus, Pedro dos Apóstolos como mestre de noviços, Pedro de São Paulo, Pedro de São Martinho e Francisco da Conceição, o que demonstra que Baltasar encontrou entre seus amigos da Andaluzia mais dedicação do que o Pe. Antonio entre os seus de Castela. Porém, enquanto isso também Duruelo começava a movimentar-se. Em setembro de 1569 a casa foi elevada à categoria de priorado com Antônio de Jesus, prior, e João da Cruz, subprior e mestre de noviços, e foram recebidos os dois primeiros candidatos: Pedro dos Anjos, leigo, e João Batista, corista. Como se sabe, a fundação de Duruelo transladou-se para Mancera em 11 de junho de 1570 e ali professaram nas mãos de frei João da Cruz seus dois primeiros noviços no dia 8 de outubro de 1570 [10] . Santa Teresa estava apenas entabulando o jogo – poderíamos assim dizer – no que se referia a suas fundações de frades, quando um novo componente apresentou-se em cena e veio complicar as coisas. Uma breve digressão sobre a situação geral da reforma na Espanha ajudar-nos-á a formarmos uma idéia mais completa do quadro em que se movia a Madre Fundadora. O Concílio Tridentino tinha decretado já em 1563 a reforma dos regulares, mas na execução desses decretos procedia-se demasiado lentamente para o gosto de Felipe II. O Rei pensava que o melhor e mais rápido seria encomendá-la aos Ordinários e conseguiu de Pio V os breves Maxime cuperemus (2/12/1566) e Cum gravissimis de causis (12/12/1566) pelos quais se encarregavam os bispos da reforma dos religiosos e religiosas sujeitos à sua jurisdição. O bispo, acompanhado do provincial, visitaria casa por casa e seria o responsável da execução do Concílio. Porém, viu-se em seguida que essa solução tinha uma escapatória: os que tivessem algo para ocultar ao visitador podiam ausentar-se de suas casas ao aproximar-se a visita, para voltar depois tranqüilamente a elas uma vez passada a tormenta. Para prevenir esses inconvenientes, Felipe II obteve um novo breve, Superioribus mensibus, com data de 16 de abril de 1567, no qual se estabelecia que o Ordinário podia fazer a visita por meio de seus delegados, acompanhados por sua vez de outros religiosos graves designados pelo provincial. E no caso dos Carmelitas, Trinitários e Mercedários, por considerar-se que entre eles não havia religiosos reformados suficientes a quem confiar a visita, estabelecia-se que os visitadores do Ordinário fossem acompanhados por dois Dominicanos. Com este novo breve, preparou-se uma ação estratégica de reforma – “a reforma do Rei”- que se havia de levar a termo simultaneamente em todo o território nacional no mês de outubro de 1567. Porém, como é fácil supor, o êxito não correspondeu a esse desdobramento de forças e as coisas ficaram praticamente como estavam e às vezes um pouco pior. Ante a evidência dos fatos, Felipe II teve que ceder, ao menos em parte, (os três breves foram revogados com data de 31/01/1570: Dudum per nostras) e o Papa lançou mão de outra solução: deixando que os Gerais prosseguissem a obra de reforma em suas respectivas Ordens, fez uma exceção para os Carmelitas, Trinitários e Mercedários, encarregando de sua reforma a religiosos Dominicanos que permaneceriam no ofício de Comissários Apostólicos durante quatro anos, ao término dos quais se prorrogaria seu mandato, caso necessário. Com o breve Singularis de 20 de agosto de 1569, nomeava-se o P. Pedro Fernandez visitador dos Carmelitas de Castela, o P. Francisco Vargas visitador de Andaluzia, e o P. Miguel de Hebrera visitador de Aragão e Catalunha [11] . É fácil intuir a transcendência desta nova situação no desenvolvimento da obra teresiana. O
P. Pedro Fernandez não encontrou solução melhor para acelerar a
reforma do que mesclar os elementos novos com os antigos: disse à
Santa que, em vez de fundar novos conventos, que desse um jeito no da
Encarnação (priora à força para o triênio que começa a 6 de
outubro de 1571) e ao P. Antônio colocou como prior em Toledo.
Começou a distribuir os Descalços em postos de responsabilidade em
outros conventos, para que contribuíssem para sua reforma, causando
com isso grave prejuízo às novas comunidades que estavam apenas
começando a formar-se. “Eu me detive aqui quase quinze dias – escreve o Pe. Pedro
Fernandez em Ávila, no dia 22 de janeiro de 1573 – para colocar em ordem o convento dos frades, de modo que possa ser de
ajuda e não de estorvo ao convento das monjas; e trouxe aqui alguns
Descalços, não para que o convento seja de Descalços, senão para
que o governem segundo suas leis: pois se as observarem, serão santos.
Deixo por superior o Pe. frei Antonio, prior de Toledo, e subprior
outro Padre de Mancera. E para dar alento a esses Padres é
necessária a presença da Madre”
[12]
. Francisco de Vargas, por sua parte, queria também ter frades reformados em seu distrito e escreveu a Mariano em 20 de novembro de 1571, ordenando-lhe fundar em Sevilha uma casa como a de Pastrana, mas que estaria isenta da jurisdição do provincial e na qual se receberiam somente seculares como noviços. Exatamente o contrário de quanto tinha estabelecido Rubeo ao conceder licença para as duas primeiras fundações de Carmelitas Contemplativos e repetirá ao autorizar as de Altomira e La Roda em 14 de setembro de 1571 [13] . Vemos, pois, que os Visitadores Apostólicos Dominicanos apóiam incondicionalmente os Descalços, considerando-os a melhor reforma da Ordem. Mas este apoio traz como conseqüência a fundação de conventos fora dos limites estabelecidos pelo Geral e contra sua proibição expressa e a implicação da obra de Teresa, encaminhada para a criação de novas comunidades, no movimento de reforma que fervia em torno dela e do qual teria preferido dar-se por desentendida. As fundações de Descalços neste período foram inaugurando-se na seguinte ordem: Alcalá, novembro de 1570; Altomira (Cuenca), novembro de 1571; La Roda, abril de 1572; San Juan del Puerto (Huelva), novembro de 1572; Granada, maio de 1573; La Peñuela, junho de 1573; Los Remedios de Sevilla, com os noviços que tinham entrado em San Juan restituído aos Calçados, janeiro de 1574; Almodóvar del Campo, março de 1575 (esta última autorizada também por Rubeo a pedido do P. Antônio de Jesus). Recordando uma vez mais que a narração detalhada destes acontecimentos pode-se ver nas Fundações do P. Gracián e a documentação original mais importante em Monumenta Historica Carmeli Teresiani, examinaremos mais de perto o complexo fenômeno dos Carmelitas Descalços no capítulo seguinte.
CARMELITAS “CALÇADOS” E “DESCALÇOS
” Terminado o priorado na Encarnação de Ávila em 6 de outubro de 1574, a Madre Teresa voltou a seu convento de São José. Teria sido um momento de descanso e de reflexão antes de retomar o fio das fundações. Não sabemos a informação que tinha nestes momentos sobre a evolução de suas duas comunidades de Duruelo e de Pastrana, mas seguramente se tivesse se encontrado novamente com Rubeo, teriam muitas coisas para comentar. Durante os quatro anos de governo dos Visitadores Dominicanos o panorama tinha mudado de tal maneira que todos se alarmaram: os provinciais, o Geral e a Madre Fundadora. Os provinciais, porque viam nascer em seus distritos comunidades praticamente autônomas e com inovações e costumes alheios à tradição carmelitana; Rubeo, porque não podia tolerar que se fundassem conventos sem contar com o Geral da Ordem e, inclusive, contra sua proibição expressa; a Madre Fundadora, porque via que seus frades iam tomando uma orientação bastante diferente da que ela tinha sonhado. Os Descalços, em troca, em uma explosão de fervor e de entusiasmo continuavam fazendo proselitismo e aumentando constantemente. Somente no noviciado de Pastrana contam-se, até fins de 1574, 45 professos em sua maioria provenientes dos seculares, mas também de outras Ordens religiosas e dos Calçados. E, para cúmulo, o P. Vargas tinha nomeado o frei Jerônimo Gracián, Descalço com pouco mais de um ano de profissão, como Visitador Apostólico dos Carmelitas de Andaluzia (13/6/1574) [14] . O primeiro passo para poder esclarecer a situação que se ia complicando cada vez mais era restabelecer a autoridade dos superiores da Ordem. Rubeo pediu que cessassem os Comissários Apostólicos Dominicanos e Gregório XIII concedeu-lhe o que pedia com data de 13 de agosto de 1574, porém deixando em vigor tudo o que eles tinham estabelecido [15] . Por ocasião do capítulo geral inaugurado em Piacenza (Itália), em 21 de maio de 1575, logo se tomaram as medidas oportunas, dirigidas a restituir aos novos Carmelitas o nome “Contemplativos” e não “Descalços” e a configuração jurídica e disciplinar estabelecida pelo Geral desde o princípio. Deviam abandonar-se, por conseguinte, no termo de três dias, as casas de Granada, Los Remedios de Sevilla e La Peñuela; doravante deviam ater-se com mais fidelidade às normas do Geral, não admitindo em suas casas nem eremitas, nem religiosos de outras Ordens, nem Carmelitas sem a devida permissão de seus superiores. A Madre Teresa, por sua parte, que com a inauguração do convento de Beas em 24 de fevereiro de 1575, tinha retomado sua atividade de fundadora, via o assunto de seus frades com a preocupação que manifesta no capítulo 23 das Fundações: era tal a situação, nos diz ela, “que eu por vezes teria me queixado de tê-la iniciado, não fora minha grande confiança na misericórdia de Deus. Refiro-me às casas dos frades, porque as das irmãs, por Sua bondade, até agora foram bem”... “E cada casa implantava o que julgava acertado”. “Uns queriam isso e outros aquilo” [16] . Um raio de esperança em meio dessas trevas brilhou em seu espírito ao encontrar-se com o P. Gracián, precisamente em Beas em abril-maio desse mesmo ano de 1575: “Nosso Senhor corrigiu a situação por meio do Padre Mestre Frei Jerônimo da Mãe de Deus, que foi nomeado Comissário Apostólico; deram-lhe autoridade e governo sobre Descalços e Descalças” [17] . Com efeito, o núncio Ormaneto tinha nomeado novamente o P. Gracián como visitador dos Carmelitas de Andaluzia com data de 22 de setembro de 1574 [18] , e como resultado de seu encontro com ele outorgou-lhe outro breve mais amplo que estendia sua jurisdição a todos os Carmelitas de Andaluzia e aos Descalços de Castela [19] . O
que para a Santa significou a descoberta, entre seus frades, da figura
do P. Gracián, ficou gravado em sua carta de 12 de maio de 1575: “Ó minha Madre, como desejei tê-la comigo nestes últimos dias!
Saiba que, a meu parecer, foram os melhores de minha vida, sem
encarecimento. Passou aqui mais de vinte dias o P. Mestre Gracián. Eu
lhe asseguro que, embora tenha tratado tanto com ele, ainda não
entendi todo o valor deste homem. A meus olhos é perfeito, melhor do
que o saberíamos pedir a Deus para nós. O que agora há de fazer
vossa reverência, e todas, é suplicar a Sua Majestade que no-lo dê
por Prelado. Se assim for, posso descansar do governo destas casas,
pois tanta perfeição com tanta suavidade, nunca vi. Deus o tenha de
Sua mão e o guarde; por nenhuma coisa no mundo quisera eu deixar de o
ter visto e tratado com ele”
[20]
. E
a impressão que a Madre Fundadora causou no jovem Comissário
Apostólico não foi menor: “Estive
em Beas – conta Gracián – muitos
dias, durante os quais comentávamos muitas coisas da Ordem, tanto
passadas como presentes, e o que era necessário para prevenir as
futuras; e, além disso, da maneira de proceder no espírito e como os
frades e as monjas haviam de
proceder para manter essa vida. Ela examinou-me de todas as maneiras
sobre essa doutrina, tanto na teoria como na prática. Ensinou-me tudo
quanto sabia, dando-me tanta doutrina, regras e conselhos que poderia
escrever um livro bem extenso de tudo que me ensinou, porque, como
disse, foram muitos dias; e durante todo o dia, tirando o tempo da
Missa e das refeições, gastávamos o tempo nisso. Deu-me conta de
toda a sua vida e espírito.
Fiquei tão rendido, que desde então nenhuma coisa importante fiz sem
seu parecer”
[21]
. De Beas saíram, Gracián a caminho de Madri, onde, como dizíamos, o núncio nomeou-o superior de todos os Descalços, e a Santa para Sevilha, aonde o P. Gracián enviou-a a fundar, com sua autoridade de Visitador da Andaluzia. Note-se que a fundação de Sevilha (19 de maio de 1575), realiza-se precisamente quando estão a ponto de serem tomadas as disposições que suprimem as fundações de Descalços em Andaluzia (30 de junho de 1575). Para seguir mais facilmente as peripécias dos anos 1575-1580 através do epistolário teresiano, das Fundações da Santa e de Gracián e da documentação de Monumenta, tenha-se, pois, bem em conta a complexidade da situação e a diversidade de posições a partir das quais age cada um dos protagonistas: 1. A posição da autoridade central da Ordem é nítida e mantém-se clara desde o princípio: permite-se fundar e manter casas de Carmelitas Contemplativos, como Teresa havia explicado a Rubeo, somente no território da província de Castela, sujeitas à autoridade do provincial e sem inovações no vestuário ou nos costumes. 2. A Santa, por sua parte, deseja continuar propagando suas comunidades femininas e masculinas, convencida por letrados e confessores de que são obra de Deus, obedecendo aos representantes do Papa e sofrendo por ter que, com isso, dar um desgosto ao Geral da Ordem que tanto amava [22] . 3. Os Descalços, finalmente, formam um grupo bastante compacto (somente alguns voltaram aos Calçados) com o propósito de levar adiante sua empresa; porém, sobre tal empresa à qual haviam consagrado suas vidas, havia entre eles opiniões muito diversas, que iam desde os que, conquistados pela novidade teresiana, tratavam de assimilá-la, até os que se acreditavam chamados a reformar a Ordem do Carmo e restaurar nela o rigor dos padres antigos. Quando as disposições do Geral chegaram à Espanha, o movimento dos Descalços já ia demasiado longe para fazê-lo voltar atrás. Eram numerosos, tinham conquistado um grande prestígio entre o povo e na Corte e, apoiados pelo núncio Ormaneto, resistiram sem grandes dificuldades. Em 3 de agosto de 1576, chegaram inclusive, sob a responsabilidade do P. Gracián, a erigir-se em “Província e Congregação” independente, que devia abranger os 9 conventos de Descalços e os 10 de Descalças já existentes, e os que se fundassem no futuro [23] . Enquanto viveu o núncio Ormaneto os Descalços tinham nele um apoio incondicional e defenderam-se sem demasiados problemas. Os problemas, tinha-os o Comissário encarregado de executar as disposições capitulares, Jerônimo Tostado. Porém, com a chegada do núncio Sega, em fins de agosto de 1577, a balança inclinou-se a favor dos Calçados. Sega depôs Gracián de seu ofício de Visitador [24] , e submeteu Descalços e Descalças à jurisdição dos provinciais [25] , com o que a situação se fez verdadeiramente crítica, até que a intervenção de Felipe II obrigou o núncio a rever suas posições e abriu o caminho para a solução definitiva, com a ereção de uma província independente e, com ela, o fim “desses grandes sofrimentos – comenta a Santa - , que contados com tanta brevidade parecem pouco, embora tenhamos padecido por bastante tempo, e muito” [26] . [1] Fundações 2,5. [2] Fundações 2,5. [3] MHCT 2, p. 318. [4] MHCT 1, doc. 21. A licença para as fundações de monjas, tinha-lhe sido dada com data de 27 de abril, ib. doc. 19. [5] MHCT 1, doc. 23. [6] Fundações 14, 12 e carta de 12 de dezembro de 1576, n.º 7, a Frei Ambrósio Mariano. [7] Citado em Tiempo y vida, P. II, c. 3, A, nota 34, p.328. [8] Obras completas, 3ª ed. Efrén de la Madre de Dios – O. Steggink, Madri,1972, p. 633-645. [9] Cf. MHCT 1, doc. 30.
[10]
Ib. Os dados sobre Pastrana foram
tomados do Livro de profissões. [11] MHCT 1, doc. 25. [12] MHCT 1, doc. 47, p. 139. [13] MHCT 1, doc. 38. [14] MHCT 1, doc. 71. [15] MHCT 1, doc. 74. [16] Fundações 23,12. [17] Fundações 23,13. [18] MHCT 1, doc. 75. [19] MHCT 1, doc. 84. [20] Carta de 12 de maio de 1575, à Madre Inês de Jesus, n.º 2. [21] Cf. Ana de Jesús, p. 50; J. GRACIÁN, Scholias..., em El Monte Carmelo 68 (1960), p. 125, e MHCT 3, p. 571. [22] Fundações 28,2. [23] MHCT 1, doc. 115. [24] MHCT 2, doc. 159 (23 de julho de 1578). [25] MHCT 2, doc. 165 e 182 (16 de outubro). [26] Fundações 28,8. Sobre as preocupações da Santa em véspera do capítulo de separação ver Ana de Jesús, p. 58-63, e El carisma teresiano, p. 83-93. |

![]()
[
English]
[
Italiano] [
Español] [
Français ] [
Deutsch]
[
] [
]
Updated
02 giu 2003 by
OCD General House
Corso d'Italia, 38 - 00198 Roma - Italia
++39 (06) 854431 FAX ++39
(06) 85350206