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8-9

Ildefonso Moriones OCD

O CARMELO TERESIANO

Páginas de sua história

 Tradução do original de Vitoria  
Ediciones El Carmen:
Monjas do Mosteiro de São José
Jundiaí - SP
Brasil

 

 A NOVA PROVÍNCIA SOB O GOVERNO DO PADRE GRACIÁN

C O N T E N T S

INTRODUÇÃO 1-  A ORDEM DO CARMO
2 -  TERESA DE AHUMADA, MONJA CARMELITA 3 -  SÃO JOSÉ DE ÁVILA
4 -  AS CONSTITUIÇÕES TERESIANAS 5 - AS CONSTITUIÇÕES TERESIANAS
6 - TERESA DE JESUS, FUNDADORA DE FRADES 7 - CARMELITAS “CALÇADOS” E “DESCALÇOS
8 -  A NOVA PROVÍNCIA SOB O GOVERNO DO PADRE GRACIÁN 9 - FREI JOÃO DA CRUZ, O HOMEM INTERIOR
10 - MUDANÇA DE SUPERIOR E DE RUMO 
O P. NICOLAU DE JESUS MARIA, DÓRIA
11 - O LEGADO DO PADRE DÓRIA
12 - ANTES QUEBRAR DO QUE DOBRAR.
DUAS ORDENS DE CARMELITAS DESCALÇOS
13 - A CONGREGAÇÃO ESPANHOLA
14 - UMA HISTÓRIA DIFÍCIL DE CONTAR 15 - A CONGREGAÇÃO ITALIANA
PRINCIPAIS PROTAGONISTAS
16 - NOVOS REFORÇOS:
DOMINGO RUZOLA E TOMÁS DE JESUS
17 - EXPANSÃO DA CONGREGAÇÃO ITALIANA
18 - DIFUSÃO DAS FILHAS DE SANTA TERESA O MUNDO 19 - RESTAURAÇÃO (SÉCULO XIX) E
NOVA EXPANSÃO DA ORDEM (SÉCULO XX)
20- O CARMELO TERESIANO E A  RENOVAÇÃO DA VIDA
RELIGIOSA PROMOVID
A PELO VATICANO II
.

 

CAPÍTULO VIII

 A NOVA PROVÍNCIA SOB O GOVERNO DO PADRE GRACIÁN

 

            A missão do P. Gracián, novamente à frente dos Descalços desde 4 de março de 1581 [1] , era a de continuar a tarefa que a Madre Fundadora tinha-lhe encarregado em Beas em 1575  e que tinha sido interrompida por intervenção do núncio Sega. Tratava-se primeiro de consolidar e unificar o grupo, curá-lo, por assim dizer, das feridas passadas, educá-lo na vida de oração e orientá-lo para uma nova fase de seu desenvolvimento.

            O trabalho não era nada fácil, pois entre aqueles mais de 300 Descalços estavam, sem dúvida, muitos que não tinham recebido ainda uma formação adequada, nem conheciam pessoalmente à Madre Teresa, nem tinham visto uma comunidade de Descalças. Porém, a preparação de Gracián para esta missão não podia ser melhor. Sabemos que sua vocação foi uma conquista das Descalças de Pastrana, em particular de Isabel de S. Domingo: “Pois as monjas que há aqui da mesma Ordem – escrevera Gracián à sua mãe em 6 de maio de 1572 - , eu jamais o creria se não tivesse visto com meus olhos [2] . E sabemos também que a mensagem teresiana tinha encontrado nele um ânimo dócil e de tal modo bem disposto por longos anos de vida de oração e de estudo [3] .

            Os frutos de seu governo foram copiosos e a nova província estendeu-se rapidamente pela península e fora dela. As fundações realizadas durante os quatro anos de governo do P. Gracián (1581-1585) foram as seguintes:

A. De frades: Valladolid, Salamanca, Daimiel, Lisboa, Málaga e Gênova. Ficando além disso com a tomada de posse e a ponto de fundarem-se conventos em Coimbra, Guadalcázar e Setúbal.

            B. De monjas: Burgos, Granada, Pamplona, Málaga, Lisboa e estava a ponto de inaugurar-se a de Sabiote.

            Além dessas fundações já realizadas ou a ponto de ultimar-se tinham chegado também ao provincial uma infinidade de pedidos aos quais teve que adiar a resposta, na espera de que houvesse suficientes membros preparados para atendê-los. Pediam-se-lhe as seguintes fundações:

A. De frades: Córdoba, Valência, Belchite, Zaragoza, Pamplona, San Sebastián, La Manchuela, Miranda de Duero, Calahorra, Medina de Rioseco, Aguilafuente, Fuensalida, Olivares, Arceniega (Alava) – Onde se ofereciam o Santuário de Nossa Senhora de la Encina -, Alaejos, Manzanares, Alandroal (Alentejo), Allandra (Lisboa), São Tomé (Congo).

B. De monjas: Toledo (segunda fundação), Cuerva, Lucena, Coca, Estella, Ebora, Olivenza, Barcelona e Madri [4] .

Vemos, pois, que nos quatro anos de governo do primeiro provincial o Carmelo Teresiano sai dos limites de Castela, que lhe havia sido indicado pelo governo da Ordem, e dos limites de Andaluzia, onde o havia levado a intervenção de Vargas, para estender-se também a Navarra [5] , Portugal, Itália e África, e estavam já planejadas fundações nos reinos de Valência, Aragão e Catalunha.

E não somente isso, mas Gracián estava já tratando com Pedro Cerezo Pardo, para uma fundação em Flandres, e com João de Quintanadueñas, para começar as fundações na França.

Um movimento religioso de tal pujança e vitalidade não podia, naturalmente, ficar insensível  diante do problema missionário tão vivamente sentido na Espanha do século XVI. Conta-nos Gracián que já durante seu ofício de Comissário dos Descalços tinha encontrado muitos que compartilhavam seu zelo missionário e queriam partir para terras de infiéis, mas que ele tinha preferido esperar até que a província se consolidasse para tratar o assunto em capítulo [6] . A questão foi tratada no capítulo de 1581 e uma de suas determinações foi “que nossos Padres fossem ao Congo para converter os gentios” [7] .

Em execução dessa determinação capitular o provincial designou seis religiosos para a primeira expedição missionária do Carmelo Teresiano,  que embarcaram em Lisboa em 6 de abril de 1582, perecendo poucos dias depois no naufrágio de sua embarcação. Entre eles ia o P. Francisco da Cruz, que tinha professado em Pastrana, em mãos do P. Gracián, em 3 de maio de 1573. Em sua ata de profissão, o P. Gracián anotou para conhecimento da posteridade: “Ainda que seria justo calar e passar em silêncio a desventura da morte deste santo padre, não obstante não calarei como foi o ocorrido: porque sendo guiado pela santa obediência, mereceu o prêmio dela no fim de seus louváveis dias, sendo tão moço, porque não tinha mais que 33 anos. O sobredito e outros Padres e Irmãos iam no passado ano de 1582 às Índias do Congo na Etiópia e a embarcação naufragou em meio ao mar e afogaram-se os seis religiosos, entre os quais um foi o P. Francisco da Cruz, querido de todos por sua santidade de vida e costumes. Estudou no Colégio de Alcalá as Artes e Teologia, dando sempre bom exemplo em tudo” [8] .

O provincial organizou uma segunda expedição com outros cinco religiosos que saíram de Lisboa em direção a Angola, no mês de abril de 1583. Mas tampouco essa expedição chegou a seus destino, pois a nau em que viajavam caiu nas mãos de piratas ingleses, que depois de ter maltratado nossos missionários, abandonaram-nos na Ilha de Santiago. Ali adoeceu e morreu pouco depois o P. Sebastião. Aos outros quatro sobreviventes não restou outra solução que embarcar na primeira embarcação que por ali passou e que ia a caminho de Sevilha.

Uma terceira expedição, desta vez com três missionários, porém com a promessa formal dos superiores de enviar-lhes reforços a cada ano, embarcou em abril de 1584 e chegou, por fim, a seu destino.

O documento mais importante para conhecer o espírito que animava provincial e súditos a prosseguir com tanta perseverança nessa empresa missionária e para termos também uma idéia do estilo que devia caracterizar a atividade missionária do Carmelo Teresiano é a patente assinada por Gracián em 19 de março de 1582, ao enviar a primeira expedição. Gracián começa propondo o exemplo de Cristo e dos Apóstolos, cuja missão os sacerdotes devem continuar, como recorda o testemunho de tantos santos Carmelitas que, à imitação de Elias, arderam de zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas, e conclui com algumas recomendações práticas que deviam ajudá-los a inculturar-se no ambiente que pretendiam evangelizar. Entre essas recomendações práticas duas merecem destaque de um modo especial: “Primeiramente – diz-lhes – procurem ter no interior um desejo da maior honra e glória de Deus e exaltação de sua santa fé católica, com uma firme determinação de morrer quando se oferecer ocasião de levar adiante esse desejo, sem voltar os olhos a nenhuma coisa temporal”.

Igualmente, quanto às obrigações da Ordem com relação ao vestuário e alimentação e às demais coisas que mandam nossas Constituições, façam conforme o tempo e o lugar onde se encontrarem, atendendo principalmente à conversão daquelas almas” [9] .

No final de seu provincialato (maio de 1585), alimentou também o projeto de enviar missionários com destino aos novos reinos descobertos na América, enquanto estava-se pensando em enviá-los, além disso, para a Índia e a China. O capítulo em que Gracián terminou seu mandato (as reeleições estavam proibidas) elegeu-o primeiro definidor, com o que continuou à frente da província na espera do novo provincial, que se encontrava na Itália. Nestas circunstâncias, para aproveitar a frota que partiria em junho daquele ano, Gracián estendeu em 17 de maio, juntamente com os demais definidores (o segundo era frei João da Cruz), a patente para 12 missionários enviados ao México [10] , suspendendo a realização dos outros projetos até a chegada do novo provincial.

Paralela à preocupação pelo desenvolvimento da vida espiritual e das missões na província foi a solicitude do P. Gracián pelos estudos. “Para o aumento de uma Ordem – escreve referindo-se a seus primeiros anos de superior – não há caminho melhor que implantar seminários onde há  Universidades, porque ali tomam o hábito os bons elementos, como experimentei nos conventos de Alcalá, Baeza, Sevilha e Granada, onde também há estudos. Faltava-me fazer fundação em Salamanca (eu a fiz em 1581), Toledo e Valladolid (fundado também em 1581), onde há Universidades, e ainda que recebesse convites para muitas fundações em diversos povoados, sempre foi minha opinião que os conventos deveriam ser poucos, com gente escolhida e em cidades principais, particularmente onde há Universidades, para dilatar-se a Ordem da Santíssima Virgem Maria em todo o mundo, para o bem das almas, como se tinha dilatado a da Companhia de Jesus” [11] .

Para completar o quadro do provincialato de Gracián é necessário pensar também em todos aqueles que, em vésperas do capítulo de Alcalá, organizaram uma campanha em favor do P. Antônio de Jesus (que teve 7 votos para provincial, enquanto Gracián teve 11), e que nem sempre compartilhavam os pontos de vista ou o método de governo do P. Gracián, que julgavam demasiado suave. Restavam também alguns que, acostumados ao ambiente de acusações, memoriais e recursos dos anos anteriores, mantiveram o costume e enviaram ao Rei e ao Geral da Ordem requerimentos contra o provincial. De tudo isso dá conta e a todos responde o P. Gracián em sua Apologia, que se pode ver em Monumenta Historica [12] .

Nos lábios desses murmuradores aparece um epíteto que define o ideal do superior que lhes agradaria: “zeloso e reformado”. Atribuem-no ao que, em 1581, a Santa via como possível alternativa ao P. Antônio de Jesus: “Saiba que fui avisada de que alguns dos votantes estão desejando que saia eleito o P. Macário. Se Deus fizer assim depois de tanta oração, será o melhor: são juízos seus. Dos que agora dizem isto, vi um bem inclinado a votar no Padre Nicolau; portanto se mudarem será em favor dele. Deus tudo encaminhe e guarde a vossa reverência. Por pior que seja a escolha, o certo é que o principal fica feito. Seja Ele louvado para sempre” [13] .

Desta vez com a província já consolidada e em plena maturidade o mesmo Gracián adiantou-se para propor como seu sucessor o candidato da oposição, que  acabou sendo eleito praticamente por unanimidade no capítulo celebrado em Lisboa na primeira quinzena de maio de 1585. O novo provincial chamava-se frei Nicolau de Jesus Maria, Doria. De seu governo falaremos no capítulo X.

 

CAPÍTULO IX

 FREI JOÃO DA CRUZ, O HOMEM INTERIOR

 

            Ao estudar a história de qualquer agrupamento humano damo-nos conta, imediatamente, de como é limitado o nosso conhecimento e temos que constatar com pesar que são muito poucas as pessoas com as quais podemos entrar em contato direto. Algumas sobressaem pelos lugares de relevo organizativo ou doutrinal que ocupam, vão-se delineando características mais ou menos comuns a todo o grupo ou parte dele, mas a imensa maioria dos que, com seu esforço ou sacrifício contribuem para o nascimento e desenvolvimento da instituição, ficam no anonimato ou sabemos deles pouco mais que o nome.

            Dito isto como homenagem a tantos colaboradores “anônimos” dos primeiros anos, vamos fixar uns momentos nossa atenção em uma figura da qual tampouco sabemos tanto como gostaríamos, porém que, felizmente, não ficou no anonimato: São João da Cruz.

            Recordemos brevemente as etapas de sua vida até o momento de seu encontro com Santa Teresa no locutório de Medina del Campo, para logo seguir seus passos no seio da nascente Ordem.

            Após uma infância serena e feliz (a escassez de meios econômicos não impediu dona Catarina de dar a seus filhos pão e carinho), João entra na adolescência habituado já ao trabalho e a colaborar nas tarefas domésticas ou em qualquer outro afazer necessário para o sustento, pois se “pouco se ganha fiando, menos ainda olhando”.

            Buscando seu lugar na vida, foi logo mudando de patrão e de ofício sempre que se lhe apresentava uma oportunidade melhor, como é próprio de todo jovem empreendedor e inteligente, até que, graças ao apoio de Alonso Alvarez de Toledo, diretor do Hospital da Conceição, encontrou a maneira de conjugar o trabalho com o estudo. Dos 17 aos 21 anos freqüentou o Colégio da Companhia em Medina e nessa escola de humanidades e de virtude amadureceu sua vocação religiosa.

            Não sabemos quais foram as circunstâncias externas que levaram João ao noviciado dos Carmelitas em 1563, porém, não é difícil adivinhar, à luz da história posterior, que foi a Providência divina que guiou seus passos até o Carmelo, onde tinha-lhe preparada a senda definitiva para o resto de sua vida.

            Terminado o noviciado, foi para Salamanca para completar seus estudos, cursando três anos de Artes e um de Teologia na célebre Universidade.

            Pouco sabemos também de seus primeiros anos de vida religiosa. Estão caracterizados por uma busca intensa de Deus, na oração e na penitência, a que logo veio somar-se uma crise de desilusão ou desencanto, nascida talvez do contraste que observa entre seus sonhos de perfeição e a realidade humana pouco brilhante que o circunda. Acostumado a mudar de ambiente cada vez que tinha tentado melhorar sua situação, é lógico que pense também nessa solução para o novo problema que se lhe apresenta. Mas desta vez, o esquema jurídico ao qual se acha sujeito por sua profissão religiosa já fez por ele a escolha. Segundo a legislação da época, quem desejava passar de uma Ordem para outra necessitava da permissão expressa da Santa Sé, a não ser que se tratasse de ir para a Cartuxa. E nos Cartuxos estava frei João pensando seriamente quando a Madre Teresa de Jesus atravessou em seu caminho.

            Da primeira e longa conversação que mantiveram estas duas grandes almas nos ficou somente – e não é pouco – o testemunho da Santa em suas Fundações. Falta-nos a versão de frei João. Porém, não é difícil intuir que o impacto em seu jovem espírito foi tremendo, pois mudou definitivamente o rumo de sua vida, fazendo-o preferir a realidade teresiana a seus sonhos pessoais. Esta nova realidade que se descortina ante os olhos atônitos de frei João é constituída, sobretudo, pela própria Madre Teresa, em cuja maturidade espiritual descobre a melhor encarnação do ideal que estava buscando. Frei João, por sua parte, compreende também que aos 25 anos não se pode continuar buscando soluções somente para si, mas que já é hora de ir pensando em prestar a própria ajuda aos demais e que isso poderia muito bem fazê-lo colaborando a criar entre os religiosos um ambiente de fervor e de entusiasmo como o que a Madre Teresa tinha conseguido suscitar entre as religiosas.

            E a partir desse momento começa a preparar-se para a missão que caracterizará o resto de sua vida. A Santa conta-nos que o informou de seus planos e projetos – “eu lhe disse o que pretendia” – e frei João mostrou-se disposto a pôr mãos à obra imediatamente – “contanto que não demorasse muito” -. Efetivamente a Santa não perde tempo e passando da teoria à prática, na primeira ocasião que se lhe apresenta, leva-o consigo à fundação de Valladolid (agosto de 1568) para que faça seu “noviciado teresiano”, dando-lhe a oportunidade de conviver um par de meses com suas monjas para aprender o “estilo de fraternidade” que se leva em suas casas.

            Quando frei João saiu de Valladolid a caminho de Duruelo no início de outubro, levava impressa em sua alma uma nova visão da Regra carmelitana, reinterpretada nas Constituições da Madre Fundadora e, sobretudo, encarnada na vida de suas filhas. Este é o dado histórico mais importante e a chave mais segura para interpretar a atividade do Santo nos anos sucessivos: fazer sua a descoberta teresiana para comunicá-la aos demais.

            Frei João converteu-se desde esse momento em colaborador seguro e fiel da Madre Fundadora. Acompanhou-a pessoalmente às fundações de Alba de Tormes (1571) e Segóvia (1574), e prestou-lhe sua ajuda incondicional para a renovação espiritual do mosteiro da Encarnação de Ávila: dirigido e diretor da Santa durante os anos de 1572-1574, continuou exercendo seu ministério de confessor no triênio sucessivo.

            Sobre o significado da presença do Santo nas comunidades masculinas de Duruelo-Mancera (novembro 1568-abril 1571), Pastrana (outubro 1570) e Alcalá (abril 1571-maio 1572), o testemunho mais direto que possuímos é o de Ana de Jesus que, passando por Mancera a caminho da fundação de Salamanca em novembro de 1570, fez uma visita aos primeiros Descalços. Vinte e cinco anos depois, assim recordava as impressões daquela visita: “Estivemos no convento dos frades Descalços e eles nos mostraram e disseram o que nossa Madre Teresa de Jesus e sua companheira Antônia do Espírito Santo lhes tinha traçado e ensinado a fazer na fundação daquele convento, no qual estavam então os primeiros Descalços que eram frei Antônio de Jesus, prior, e frei João da Cruz, subprior, os quais toda a maneira de proceder e de ordenar as coisas que tinham,  haviam-na recebido de nossa santa Madre e ela nos contava com muito gosto as miudezas que eles lhe perguntavam e  que mais ou menos cinco anos depois de feita a primeira casa de monjas, Deus lhe havia mandado estes dois Padres. E eles disseram-me em particular muitas das coisas que aqui se passaram, e fiquei certa de que ela foi tão fundadora deles como nossa, e assim a têm eles e terão sempre” [14] .

            Durante os seis anos e meio que vão desde maio de 1572 até finais de 1578, o Santo permaneceu praticamente à margem da evolução imprevista e em parte incontrolável dos Descalços. Quando voltou para sua companhia, encontrou-os em um momento de aperto e de verdadeira crise. Recordemos que sua fuga do cárcere de Toledo quase coincide com o encarceramento por parte do núncio Sega dos Padres Antônio, Mariano, Roca e Gracián, e que, não muito depois (16 de outubro de 1578), o núncio submeteu os Descalços à jurisdição imediata dos provinciais. Esta medida do núncio, ainda que em sua intenção estivesse encaminhada para restabelecer a paz e a harmonia na Ordem, enquanto se estudava mais a fundo o assunto dos Descalços, na prática aumentou as tensões e a desconfiança entre ambos os grupos, polarizando a atenção da hierarquia tradicional para conseguir a submissão dos Descalços e criando nos Descalços um sentimento ainda maior de unidade interior e de luta pala sobrevivência autônoma.

            Nesse contexto, frei João da Cruz assume, desde inícios de novembro de 1578, a responsabilidade de vigário no convento de El Calvario e a direção das monjas de Beas. E essa será sua ocupação durante os próximos dez anos: governo e direção dos religiosos e religiosas seguidores da Madre Teresa de Jesus.

            A chave para compreender este período da vida de frei João no-la dá a mesma Santa numa carta à priora de Caravaca em dezembro de 1579: “Filha, procurarei que o Padre Frei João da Cruz passe por aí. Faça de conta que sou eu; abram-lhe com franqueza suas almas. Consolem-se com ele, que é alma a quem Deus comunica o seu Espírito”. No capítulo quarto já vimos a importância que dava a Madre Teresa, nas comunidades que ia criando, à figura da superiora-mestra de espírito. Das qualidades extraordinárias da Madre Fundadora para essa missão, dão testemunho seus escritos e suas filhas que, inclusive depois de ter saído de sob seu magistério imediato, aproveitavam a passagem da Madre a caminho de novas fundações para continuar tratando de suas almas com ela. O “façam de conta que sou eu”, tem , pois, o sentido de uma recomendação incondicional do estilo espiritual de frei João da Cruz, que tinha assimilado plenamente o espírito da Madre Fundadora.

            E como à Madre Fundadora suas filhas de Ávila pediram-lhe que deixasse por escrito o conteúdo de suas conversações espirituais para poderem ruminar sua doutrina e tirar dela maior proveito, também ao frei João da Cruz começaram a pedir o mesmo. Graças a isso podemos documentar o período histórico mais importante de sua vida e também nós podemos aproveitar de sua experiência e magistério. Os primeiros escritos conservados – além das poesias que compôs no cárcere – reproduzem o esquema do Monte, ditos e máximas espirituais e dois brevíssimos tratados intitulados Cautelas e Avisos a um religioso. Por eles podemos ter uma idéia da experiência e conhecimento do mundo interior que possuía o Santo a dez anos de distância de seu encontro com Teresa de Jesus, vemos quais são os temas de suas conversações e práticas espirituais e quais os pontos-chave de sua pedagogia para encaminhar as almas para a verdadeira contemplação.

            Se do valor histórico desses documentos queremos passar a sua utilidade espiritual, perene e sempre atualíssima, bastarão um par de indicações metodológicas para evitar tropeços. Em primeiro lugar tenha-se presente o título que o Santo mesmo colocou em suas máximas: “Ditos de luz e amor”, e como o amor e a luz não podem ser classificados, tampouco esses ditos podem reduzir-se a axiomas matemáticos, mas  devem ser meditados, buscando-se neles a profundidade e a amplidão de sentido que têm nos lábios do mestre e que transcende as circunstâncias particulares nas quais podia se achar a alma que lhos pediu ou o momento determinado em que foram escritos.

            O mesmo pode-se dizer, e com maior razão, de seus breves tratados. Contêm uma orientação, um verdadeiro sistema de vida cuja utilidade espiritual não está condicionada por nenhuma circunstância: “Resignação, mortificação, exercício das virtudes e solidão física e espiritual”. Cada alma irá vendo dia por dia, momento por momento, em qual desses aspectos deverá reforçar a vigilância ou aumentar a generosidade: recomendando resignação, o Santo ensina a não querer solução para tudo, a não meter-se alguém onde não é chamado, livrando-se de desassossegos estéreis e, inclusive, nocivos, que costumam encobrir-se com capa de zelo; recomenda a mortificação especialmente com os de casa, pois todos os desejos de imitar a Cristo crucificado caem por terra se não se sabe aceitar com paciência e humildade as limitações, reais ou aparentes, daqueles que nos rodeiam; o exercício de virtudes mais seguro o Santo indica-o no cumprimento cotidiano do próprio dever, empenhando-se nele com perseverança, só por amor de Deus, evitando com cuidado toda inclinação ao próprio brilho e buscando antes aquilo que ninguém quer fazer; por solidão física e espiritual entende, finalmente, a solicitude da alma para recolher-se em Deus assim que suas obrigações o permitirem, vivendo em contínua oração e desprezando todo pensamento que não vai direcionado para Deus. “Com isso, não pretendo insinuar que se descuide do ofício de que o encarregaram ou de qualquer outro que a obediência lhe designe, não empregando toda a solicitude requerida. O que quero dizer é que deve executá-lo de modo a ficar nele isento de culpa, pois isto não o quer Deus nem os superiores” [15] .

            As Cautelas contêm a mesma substância de doutrina, com o acréscimo de algumas orientações práticas sobre o modo de considerar o superior religioso, que a um leitor superficial poderiam parecer um contraste com o magistério teresiano. Para compreender o sentido de tais contradições aparentes, convém ter presente que costumam se acentuar alguns aspectos com mais ou menos intensidade, segundo as circunstâncias em que se fala dos mesmos. Por isso, é necessário, para conhecer o pensamento de um autor, recolher todas as suas expressões e fazer com elas uma síntese completa. Bastará indicar aqui que, quando a Santa fala com suas filhas, dirige-se a comunidades onde reina a paz e a harmonia e não necessita, como frei João quando fala com as Descalças de Beas em conflito momentâneo com o provincial, explicar-lhes o mistério de um superior inepto ou o modo de tirar proveito espiritual de um mau governo. Por isso, o Santo distingue, em perfeito acordo com Teresa, entre o que é “sentimento particular” e o que diz respeito ao bem comum. A Santa recomenda a obediência sempre e se há algo a corrigir no superior, não há de se corrigir com a murmuração, senão através da autoridade competente: se a experiência demonstra que a superiora não é apta para o cargo “não se deve deixar passar o primeiro ano sem tirá-la do cargo. Porque em um não pode causar muito dano, mas em três pode destruir o convento” [16] . Frei João recomenda essa mesma submissão e põe em guarda contra os estragos que o demônio costuma causar entre os religiosos quando estes não olham a obediência com olhos sobrenaturais; mas não proíbe de fazer uso da luz natural para ajudá-la. Vemos, com efeito, que ele pessoalmente apoiou a “rebelião” das monjas da Encarnação contra o provincial, animando-as a preferir a Madre Teresa como priora, pagando com o cárcere a sua postura [17] , e continuava apoiando as monjas de Beas que, valendo-se da situação geográfica pouco definida de seu convento, não prestavam obediência nem ao provincial de Andaluzia nem ao de Castela, apesar dos decretos do núncio.

            As religiosas que tiveram a dita de experimentar a eficácia dessa doutrina e compartilhar as confidências espirituais de frei João da Cruz o batizaram de “homem interior”. Porém, essa interioridade não impediu o Santo de desenvolver uma atividade extraordinária nos mais variados ministérios, quando o serviço de Deus e o bem das almas o exigiam.

            O Santo trata várias vezes do tema em seus escritos, sobretudo no Cântico, onde achamos uma frase que se tornou proverbial: “É mais precioso diante dele e da alma um pouquinho desse puro amor e de maior proveito para a Igreja, embora pareça nada fazer a alma, do que todas as demais obras juntas”. Frase que vem precedida de uma exegese admirável das palavras do Senhor a Marta: “Uma só coisa é necessária” (Lc 10), com um convite explícito a evitar interpretações unilaterais: “Notemos aqui o seguinte: enquanto a alma não chega ao perfeito estado de união de amor, convém exercitar-se no amor tanto na vida ativa como na vida contemplativa” [18] .

            E na vida ativa e na contemplativa o Santo prosseguiu exercitando-se, como deduz-se de seus escritos e de suas biografias, deixando-nos em sua vida o modelo mais perfeito de equilíbrio entre ação e contemplação, que recomenda em seus escritos. Recordemos brevemente, com a ajuda do guia biográfico preparado pelo P. Eulógio Pacho, o papel desempenhado por frei João na vida da Ordem, desde que voltou a reunir-se ao grupo até o final do governo do P. Gracián:

1578

Outubro: no início do mês o Santo encontra-se em Almodóvar del Campo, onde os Descalços estão reunidos em Capítulo desde o dia 9. É eleito Superior-vigário do convento do Calvário (Jaén).

Novembro: Após breve estadia em La Peñuela (Jaén) e Beas de Segura (Jaén), chega ao convento do Calvário no início do mês e toma posse de seu cargo de Vigário, que desempenha por espaço de sete meses e meio.

1579

Abril-maio: Ocupa-se dos trâmites para a fundação do colégio de Baeza, realizando freqüentes viagens por esse motivo.

Junho: Sai no dia 13 para a nova fundação de Baeza, que inaugura no dia seguinte, ficando nela como Reitor.

1580

Junho: Com data de 22, Gregório XIII autoriza a criação de uma província independente dos Descalços.

Neste mesmo ano, por causa da epidemia de “catarro universal”, morre Catalina Alvarez, mãe do Santo, em data desconhecida.

1581

Março: São João da Cruz assiste ao Capítulo de Alcalá – entre os dias 3 e 16 – e é eleito terceiro definidor. Terminado o Capítulo provincial reintegra-se em Baeza.

Junho: Preside a eleição da priora em Caravaca, no dia 28. A eleita, Ana de Santo Alberto, será logo uma de suas filhas prediletas. Nos meses seguintes faz freqüentes viagens pelas fundações Descalças de Andaluzia.           

            Novembro: Em meados do mês vai até Ávila para tratar com Santa Teresa da fundação de monjas em Granada, regressando em seguida a Baeza.

            Dezembro: Chega em Beas com seu companheiro e duas religiosas, permanecendo naquela casa até meados do seguinte mês.

            1582

            Janeiro: Sai de Beas para a fundação de Granada, passando por Úbeda, Baeza, Iznalloz, Daifontes e Albolote. Chega com Ana de Jesus e suas companheiras em Granada no dia 19; no dia seguinte inaugura-se a fundação de Descalças.

            Pouco depois, entre os dias 25 e 30, toma posse de seu priorado de Los Mártires de Granada, cargo para o qual foi eleito pela comunidade, entre junho de 1581 e janeiro de 1582.

            1583

            Maio: Assiste ao Capítulo provincial de Almodóvar e nele é confirmado em seu cargo de prior de Granada, cessando em 1585.

            Novembro: Realiza a transladação das Descalças de Granada para sua casa definitiva.

            1584

            Conclui em Granada a primeira redação do Cântico Espiritual e compõe a maior parte de suas obras.

 

            1585

            Fevereiro: Desloca-se para Málaga para assentar a nova fundação de Descalças, que se realiza a 17 deste mês.

            Maio: Desloca-se até Lisboa para assistir ao Capítulo provincial dos Descalços, que começa naquela cidade no dia 11. Nele é eleito segundo definidor.

            Junho-julho: Regressa de Lisboa por causa da interrupção do Capítulo, e de Sevilha parte para Málaga para consolar as Descalças.

            Julho-agosto: Viaja para Castela para assistir à conclusão do precedente Capítulo. Viagem muito acidentada, com idas e vindas a várias comunidades: Caravaca, Baeza, etc.

            Outubro: Chega a Pastrana para a conclusão do Capítulo iniciado em Lisboa. É nomeado Vigário provincial de Andaluzia, com residência em Granada, porém cessando como prior dessa casa [19] .

            No Capítulo de Pastrana havia tomado posse de seu cargo o novo provincial e a partir desse momento um novo protagonista reclama a atenção do historiador e dos leitores que desejam conhecer a vida do Carmelo Teresiano. Isso obriga-nos a remetermos, para mais pormenores, aos editores, biógrafos e tratadistas do Santo, e a despedirmo-nos do “homem interior” para retomarmos o fio da história.

 


[1] MHCT 2, doc. 238.

[2] BMC 17, p. 289.

[3] Uma exposição documentada do pensamento de Gracián e sua coincidência com o pensamento teresiano, pode-se ver em Ana de Jesús, p. 65-99, e em El carisma teresiano, p. 97-118.

[4] Para mais detalhes, ver o informe completo apresentado por Gracián ao capítulo em 1585, em MHCT 3, p. 51-90; existe cópia separada dessas páginas.

[5] “Igualmente – diz Gracián – a Ordem passou ao reino de Navarra, com muita aprovação do dito reino e fruto de nossa Religião, que pode receber talentos de Navarra, que são pessoas  preparadas para toda a perfeição” (Ib., p. 57).

[6] Cf. MHCT 3, p. 671.

[7] MHCT 3, p. 629.

[8] Livro de profissões..., f. 16v.

[9] MHCT 3, doc. 260. Cf. I. MORIONES, El Carmelo Teresiano nació misionero, em Vida Espiritual n.º 54 (Bogotá, 1977) 32-37. 

[10] MHCT 3, doc. 277.

[11] BMC 17, p. 194.

[12] MHCT 3, doc. 276, p. 51-90.

[13] Carta de 27 de fevereiro de 1581 ao Pe. Gracián, n.º 9.

[14] BMC 18, p. 464.

[15] Cf. Quatro avisos a um Carmelita Descalço para alcançar a perfeição, n.º 9.

[16] Cf. Modo de visitar os conventos, 9.

[17] Cf. HIPOLITO DE LA S. F., La “elección machucada” de Santa Teresa. Documentos inéditos, em Ephemerides Carmeliticae 20 (1969) 168-193. Os documentos foram incluídos na coleção de MHCT, vol. 3.

[18] Cântico Espiritual, canção 28 (anotação para a canção seguinte, 2).

[19] EULOGIO DE LA V. DEL C., San Juan de la Cruz y sus escritos. Madri 1969, p. 35-37.(Guión completo, p. 31-41).

     
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