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Ildefonso
Moriones OCD
O CARMELO TERESIANOPáginas de sua história Tradução do original de Vitoria |
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ANTES QUEBRAR DO QUE DOBRAR. |
C O N T E N T S
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CAPÍTULO
XII ANTES QUEBRAR
DO QUE DOBRAR.
Da carta do núncio Gaetani, que citávamos no final do capítulo décimo, e de outras fontes próximas aos fatos, parece deduzir-se com bastante probabilidade que o P. Dória, ao defrontar-se inesperadamente com a morte, quando encontrava-se na plenitude de seus 55 anos, com perfeita saúde e em plena atividade reformadora, teve um momento de crise profunda, pediu perdão de seus erros, confessando que, se como pecador tinha errado, havia sido com boa intenção, buscando sempre o mais perfeito e para reparar de alguma maneira os seus erros, aconselhou que elegessem para sucedê-lo o P. Elias de São Martinho, de caráter doce e cuja fama de amigo de Gracián e dos teresianos era pública em toda a Ordem.
Os sentimentos desse grupo, que compreendia, sem dúvida, a
quase totalidade das monjas e a maioria dos frades, nos são descritos
assim por Maria de São José, depois de ter narrado as
circunstâncias carregadas de mistério que acompanharam a morte do P.
Dória: "Foi eleito
pacificamente e com grande contentamento de toda a Religião, nosso
padre frei Elias de São Martinho, com quem esperamos perfeita paz e
restauração das perdas, de um modo especial a perda do santo varão
padre frei Jerônimo Gracián"
[1]
. Porém, o grupo dos frades que se encontrava por detrás do Breve de reeleição do P. Dória considerou também sua morte como uma perda e tratou de reduzir ao máximo as suas conseqüências. Daí que o papel que tocou ao P. Elias desempenhar não foi nada fácil. Todo o seu governo está marcado pelo esforço de ambas as correntes para recuperar o terreno perdido e a sombra do P. Gracián continua sendo o símbolo de uma esperança para uns ou ameaça de ruína para outros. Neste período que vai de 1594 a 1600, fundaram-se conventos de frades em Zaragoza, Uclés, Corella, Trasierra, La Bañeza, Tudela, Tarragona, Criptana, Palência, Ocaña, Calatayud, Deserto de las Batuecas, Lucena e Ávila (transladação do convento de Mancera). E de monjas em Arenas de São Pedro, Ocaña, Talavera de la Reina, Úbeda, Cidade Real, Loeches, Consuegra, Calahorra, Baeza, Almodóvar del Campo, Daimiel, Tarazona e Valera. E isso demonstra que a vitalidade interna da obra teresiana não havia ainda ressentido, apesar dos momentos difíceis pelos quais havia atravessado. Porém, como digo, a pedra de toque para discernir o rumo definitivo que a Ordem havia de tomar continuava sendo o P. Gracián. Expulso com sentença assinada em 17 de fevereiro de 1592, tinha ido a Roma em busca de justiça, mas vendo que também ali tinham mais peso os argumentos do P. Dória, apoiados pelo embaixador de Felipe II, do que seus protestos de inocência, retirou-se para Sicília para exercer seu ministério sacerdotal, catequizando soldados e assistindo enfermos nos hospitais, na espera de que a Santa Sé se pronunciasse. Clemente VIII, com o Breve Uberes fructus de 27 de janeiro de 1593, confirmou a sentença de Madri, proibindo o P. Gracián de voltar aos Descalços ou Calçados e ordenou-lhe entrar nos Eremitas de Santo Agostinho. Quando voltava de Roma, resignado a executar a ordem do Papa, caiu em poder dos turcos, na altura do golfo de Gaeta, em 11 de outubro de 1593. Mas como durante seu cativeiro, que durou até o mês de abril de 1595, teve lugar a morte do P. Dória e a mudança de superiores na Ordem, Gracián recobrou a esperança de voltar a viver entre os seus e apresentou uma nova súplica ao Papa em 29 de novembro de 1595. Desta vez foi escutado e com o Breve Apostolicae Sedis benignitas de 6 de março de 1596, anulava-se a sentença de expulsão, restituindo ao P. Gracián sua posição de antigamente e seus privilégios na Ordem e mandava-se aos superiores que o admitissem de novo. Gracián apressou-se em comunicar a boa nova à sua mãe, dona Joana, à sua irmã Juliana (as Descalças de Sevilha conservam ainda a cópia do Breve) e ao P. Elias de São Martinho; porém, o reboliço que se formou na Ordem, além de uma nova desilusão para o P. Gracián, foi uma prova a mais de que a marca impressa em muitos Descalços durante o governo do P. Dória já era indelével. Enquanto os teresianos da primeira hora exultavam de alegria, os outros começaram a pensar que a honra dos que tinham assinado a sentença de expulsão e o bom nome da Ordem por eles reformada exigiam o sacrifício definitivo do Pe. Gracián e começaram a dizer, para ganhar tempo, que o assunto era demasiado importante para que fosse decidido em definitório, que seria, pois, melhor esperar o capítulo geral. E uma vez mais nos encontramos com os seguidores do P. Gracián, que continuam acreditando na validade dos órgãos de governo da Ordem e esperam com paciência e otimismo a data do capítulo, enquanto os outros recorrem ao Rei e com o método costumeiro, impõem seu critério aos demais.
A primeira voz de alarme veio do Procurador dos Descalços em
Roma. O Duque de Sessa informa a Felipe II com data de 18 de junho de
1596: "O Procurador dos
Carmelitas Descalços desses Reinos procurou-me dizendo que tinha
entendido que se tratava de fazer reforma na Itália e passar para lá
ao frei Jerônimo Gracián e informou-me de alguns inconvenientes que
disso poderiam seguir com o tempo. Porém, tendo ficado inteirado de
como isso se trata, pareceu-lhe que nem deve nem pode impedir e que,
em caso de que vá adiante, bastará conseguir com Sua Santidade que o
hábito seja diferente do dos Descalços da Espanha e que sob nenhum
pretexto se mande ou se consinta que os frades passem de uma parte
para outra, e assim terei cuidado
de fazer, enquanto Vossa Majestade não ordenar outra coisa". Em troca, sobre a reação dos amigos de Gracián, o testemunho mais eloqüente que possuímos é o de frei Ângelo de Jesus, prior de Lérida. Em carta escrita em 5 de julho de 1596, para animar o P. Gracián a superar a prova que supunha para ele este novo rechaço de alguns de seus irmãos, informava-lhe: "Passei por Toledo quinze dias depois da notificação do Breve e soube quase tudo o que se passa e como alguns definidores não receberam bem a notícia, restando-nos ainda alguns "jebuseus"..." Recordava-lhe em seguida que havia muitos na Ordem que o amavam com ternura e desejavam sua readmissão, indicando-lhe os nomes dos capitulares de confiança dispostos a fazer todo o possível nesse sentido. Na hipótese de que o capítulo não lhe permitisse regressar ao seio da Ordem na Espanha, comunicava-lhe a intenção de vários padres, começando por ele mesmo, de ir a Roma e fundar, com Gracián como superior, um convento como nos bons tempos [2] . Como se pode ver pelas datas dessas duas cartas quase simultâneas, as reações entre os Descalços foram contrapostas e paralelas. O regozijo dos teresianos deve ter sido tão manifesto e a possibilidade de que o capítulo geral readmitisse o P. Gracián tão real, que os "jebuseus" não tiveram outro remédio que recorrer a uma dessas medidas drásticas, que lhes eram próprias e cujas conseqüências não se preocupavam em medir. Pediram simplesmente ao Papa, através de Felipe II, que separasse para sempre os Descalços já fundados na Itália ou que se fundassem daí para frente, dos fundados na Espanha, com a proibição expressa a todos os Descalços de passar doravante da Espanha para a Itália e vice-versa. Dessa maneira fechavam todas as portas a um possível retorno do P. Gracián: nem poderia fundar na Itália um convento teresiano com a ajuda de seus amigos da Espanha, nem, no caso de ser admitido entre os Descalços da Itália, existiria o perigo de um regresso seu à Espanha, nem como súdito nem como visitador.
O Breve Sacrarum Religionum de 20 de março de 1597 (o Capítulo era em maio) colocava sob a jurisdição do cardeal Pinelli os conventos dos Descalços e Descalças de Gênova e o que estava em vias de fundação em Roma (foi inaugurado em 1º de abril), eximindo-os do governo dos superiores espanhóis. Pouco depois com o Breve In Apostolicae dignitatis de 13 de novembro de 1600, sancionava-se a separação definitiva, estabelecendo-se como limites da que se chamaria Congregação de São José os domínios do Rei da Espanha e deixando o resto do mundo como terreno de conquista para esse punhado de 30 religiosos escassos com os quais contava a recém-nascida Congregação de Santo Elias. A partir desse momento, como veremos no capítulo XV, a nova Congregação, ou melhor, a nova Ordem, começa seu ciclo próprio de crescimento e de expansão, alcançando em poucos anos e superando depois ao mesmo tronco do qual se havia separado à força.
CAPÍTULO
XIII
A Congregação Espanhola ficou marcada para sempre pelos nove anos de governo do P. Dória, que não só influiu na legislação e orientação da Ordem a nível de governo central, mas sobretudo na juventude formada durante esses anos e que logo se considerou como a única depositária da direção certa. Assim se explica que os esforços realizados durante o generalato do P. Elias de São Martinho para reformar as leis fossem rapidamente neutralizados por seu sucessor, o P. Francisco da Mãe de Deus. Uma comissão de sete religiosos nomeada pelo P. Elias tinha trabalhado durante três meses em Toledo; adiou-se, inclusive, até setembro a celebração do capítulo geral de 1600, que esse ano não fez as nomeações de superiores locais, mas deixou-as para os capítulos provinciais; porém, o P. Francisco da Mãe de Deus (1600-1607) soube arquitetar as coisas para que ficassem como estavam e o novo texto promulgado em 1604 consagrava uma vez mais a orientação de 1592, reservando ao capítulo geral a nomeação dos superiores locais - o que permitia manter o controle de toda a Congregação - e centrando a perfeição do Carmelita Descalço na vida de retiro e observância dentro dos conventos, deixando para outras Congregações tudo o que podia se referir a missões ou outros tipos de apostolado que exigissem sair dos conventos ou manter contato maior com as pessoas. [3] . Uma nova reforma das Constituições feita pelos capítulos gerais de 1604-1652, aprovada por Alexandre VII em 1658, reforçou o ponto do retiro e clausura, limitando ao máximo as obras de apostolado a que os Carmelitas Descalços podiam dedicar-se (praticamente se reduziam a administrar os sacramentos aos fiéis que procuravam suas igrejas) e deixou intacto o tema da eleição dos superiores locais, que continuou reservada ao capítulo geral até 1786. Só então, e graças à intervenção do núncio Colonna de Stigliano, passou à jurisdição dos capítulos provinciais. Porém, nunca mais os Descalços recuperaram o uso da Regra e das Constituições teresianas que confiam a cada comunidade a eleição do próprio superior. Alonso de Jesus Maria (1607-1613 e 1619-1625) pode ser considerado o teorizador por excelência da orientação oficial da Congregação Espanhola e sua obra Doutrina de religiosos (Madri,1613) a mais significativa, negando explicitamente nela o título de Fundadora dos Descalços a Santa Teresa, título que reconhece só para as monjas. As tentativas de voltar a Santa Teresa foram fracassando uma após outra. A mais dramática é, sem dúvida, a de Diego de São Rafael (Geral de 1742 a 1748), que em suas exposições ao definitório e à Santa Sé denuncia abertamente os inconvenientes que a Ordem sofreu por ter-se afastado do caminho traçado por sua Fundadora; porém, a erva má da ambição e da intriga sufocou uma vez mais os frutos da semente teresiana que em meio de todas as dificuldades continuava a manter-se viva [4] . Em fins do século XVIII a corrente teresiana parece que esteve a ponto de adquirir maior realce, também a nível oficial, (João do Espírito Santo, Geral de 1790 a 1796, fez apagar do livro de Alonso as passagens nas quais negava à Santa o título de Fundadora dos frades e Antônio dos Reis, 1796-1802, mandou enterrar de novo os ossos do P. Dória, que desde os tempos de Alonso tinham presidido, em uma urna, os capítulos gerais de Pastrana), porém, as supressões do século XIX, como logo veremos, acabaram com todas as tentativas de renovação e com a Congregação. Estas brevíssimas pinceladas, de caráter geral, podem produzir uma impressão demasiado negativa. Queria simplesmente dizer que a marca deixada pelos nove anos de governo do P. Dória na Ordem foi profunda e praticamente indelével. Porém, subentende-se que, ainda que isso significou um empobrecimento real da obra de Santa Teresa, não a destruiu nem privou de toda sua eficácia. A Ordem continuou dando frutos de santidade e de ciência e os conventos de Descalços e Descalças continuaram sendo centros de irradiação espiritual no povo de Deus [5] . Às cinco províncias com que contava desde o momento de sua elevação à categoria de Congregação em 1588, acrescentaram-se a província de Portugal em 1612, a de Aragão e Valência em 1685, a de Navarra em 1706 e finalmente a de Múrcia em 1713. Até fins do século XVII a Congregação se achava, pois, dividida em oito províncias dentro do território espanhol, mais as províncias de Portugal (da qual dependia o Brasil) e México, com um total de uns 120 conventos e de 3.500 a 4.000 religiosos. No século XVIII fizeram-se ainda algumas fundações, ainda que com um ritmo mais lento, datando a última de 1735 (um século exatamente antes da supressão). Supressão que aconteceu em diversas etapas: 22 de abril de 1834, proibição de receber noviços; 25 de julho de 1835, supressão dos conventos com menos de 12 religiosos e, finalmente, supressão geral com venda dos conventos em 8 de março de 1836. No momento da supressão definitiva e depois dos altos e baixos dos anos precedentes, a Congregação contava na Espanha com 2.106 religiosos distribuídos da seguinte maneira: 1.071 sacerdotes, 124 diáconos e subdiáconos, 342 professos, 91 noviços e 478 irmãos leigos, com um total de 112 conventos. O golpe, que para todas as Ordens foi muito duro, para a Congregação Espanhola foi mortal, talvez devido também a sua falta de coesão interna pelas causas históricas que vimos. O grupo, enquanto tal, desintegrou-se para não tornar a se recompor. Porém, alguns jovens que acabavam de descobrir a beleza do ideal teresiano quando a revolução os lançou fora dos conventos, mantiveram-no vivo em seu coração e deles voltou a renascer o Carmelo Teresiano masculino na Espanha, como veremos no capítulo XIX. [1] Cf. El carisma teresiano, p. 189. O P. Elias de São Martinho havia professado em Pastrana no mesmo dia que Jerônimo Gracián, 25 de abril de 1573. [2] Tanto esta carta como a anterior e toda a documentação correspondente a esses anos está em vias de publicação em MHCT. [3] Cf. HCD 8, p. 135-179. [4] Cf. HCD 12, p. 25-51. [5] Cf. SIMEONE DELLA S.F., Panorama storico-bibliografico degli autori spirituali teresiani. Roma 1972. Para o tema dos estudos, ver ENRIQUE DEL SDO. C., Los Salmanticenses: su vida y su obra. Madri,1955. |

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02 giu 2003 by
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