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Ildefonso Moriones OCD

O CARMELO TERESIANO

Páginas de sua história

 Tradução do original de Vitoria  
Ediciones El Carmen:
Monjas do Mosteiro de São José
Jundiaí - SP
    Brasil

 

NOVOS REFORÇOS:
DOMINGO RUZOLA E TOMÁS DE JESUS

C O N T E N T S

INTRODUÇÃO 1-  A ORDEM DO CARMO
2 -  TERESA DE AHUMADA, MONJA CARMELITA 3 -  SÃO JOSÉ DE ÁVILA
4 -  AS CONSTITUIÇÕES TERESIANAS 5 - AS CONSTITUIÇÕES TERESIANAS
6 - TERESA DE JESUS, FUNDADORA DE FRADES 7 - CARMELITAS “CALÇADOS” E “DESCALÇOS
8 -  A NOVA PROVÍNCIA SOB O GOVERNO DO PADRE GRACIÁN 9 - FREI JOÃO DA CRUZ, O HOMEM INTERIOR
10 - MUDANÇA DE SUPERIOR E DE RUMO 
O P. NICOLAU DE JESUS MARIA, DÓRIA
11 - O LEGADO DO PADRE DÓRIA
12 - ANTES QUEBRAR DO QUE DOBRAR.
DUAS ORDENS DE CARMELITAS DESCALÇOS
13 - A CONGREGAÇÃO ESPANHOLA
14 - UMA HISTÓRIA DIFÍCIL DE CONTAR 15 - A CONGREGAÇÃO ITALIANA
PRINCIPAIS PROTAGONISTAS
16 - NOVOS REFORÇOS:
DOMINGO RUZOLA E TOMÁS DE JESUS
17 - EXPANSÃO DA CONGREGAÇÃO ITALIANA
18 - DIFUSÃO DAS FILHAS DE SANTA TERESA O MUNDO 19 - RESTAURAÇÃO (SÉCULO XIX) E
NOVA EXPANSÃO DA ORDEM (SÉCULO XX)
20- O CARMELO TERESIANO E A  RENOVAÇÃO DA VIDA
RELIGIOSA PROMOVID
A PELO VATICANO II
.

 

CAPÍTULO XVI

NOVOS REFORÇOS:
DOMINGO RUZOLA E TOMÁS DE JESUS

            Não obstante a proibição expressa de todo e qualquer intercâmbio de religiosos entre as Congregações houve uma ou outra exceção devidas a intervenções pessoais do Papa e o grupo italiano pôde receber reforços da Espanha. Os mais significativos foram: Domingo de Jesus Maria e Tomás de Jesus.

DOMINGO DE JESUS MARIA

(RUZOLA) (1559-1630)

            O P. Domingo, natural de Calatayud (Zaragoza), professou na Ordem do Carmo em 1578. Em 1589 passou para os Descalços e depois de refazer seu noviciado em Pastrana professou em 22 de novembro de 1590. Em 1598 foi nomeado Prior de Toledo e em 1601 retirou-se ao deserto de Bolarque, onde viveu como eremita até que seu compatriota, Pedro da Mãe de Deus, chamou-o para Roma em 1604. Na Congregação Italiana desenvolveu uma atividade extraordinária, percorrendo toda a Europa com diversas missões pontifícias, deixando em todas as partes as pegadas de seu zelo apostólico e de seus dotes de taumaturgo.

            Por várias vezes foi definidor geral e no triênio de 1617-1620 foi Geral, contribuindo para a difusão dos Descalços sobretudo nos territórios do Império, pois com sua intervenção decisiva na batalha da Montanha Branca (8 de novembro de 1620), conquistou a estima de Fernando II e de Maximiliano de Baviera, abrindo as portas às fundações de Viena (1622), Praga (1624), Würzburg (1627), Graz (1628), Munique (1629), etc. [1] .

TOMÁS DE JESUS

(SANCHEZ DAVILA) (1564-1627)

            Tomás de Jesus é o último na ordem cronológica a juntar-se aos protagonistas de primeiro plano na difusão da Congregação Italiana.

            Nascido em Baeza em 1564, freqüentou quase desde criança a Universidade de sua cidade natal, demonstrando superiores dotes de inteligência no estudo das Artes e Teologia. Aos 19 anos, em 1583, transferiu-se para Salamanca para especializar-se em Humanidades e Direito. Achava-se absorvido em seus estudos quando, um dia de 1586 ouviu o mestre Céspedes recomendar entre os livros escritos em castelhano de bom estilo os de uma monja Descalça... Tratava-se precisamente da madre Teresa de Jesus. Tomás foi, pois, ao colégio dos Descalços perguntar se ali os tinham e com um exemplar manuscrito do livro da Vida (a primeira edição é de 1588), voltou cheio de alegria para sua casa, prelibando já as finezas de estilo e de linguagem que pensava que iria aprender. Porém, sua surpresa e admiração foram maiores do que se podia prever. Abriu o livro no capítulo 18: "Trata do quarto grau de oração. Começa a fazer uma excelente exposição da grande dignidade a que o Senhor leva a alma que está nesse estado. Isso serve para animar muito os que tratam da oração, para que se esforcem para alcançar estado tão elevado, porque isso é possível na terra, embora não por merecimento, e sim pela bondade do Senhor. Este capítulo deve ser lido com atenção porque a declaração é muito complexa e contém importantes instruções". Causou-lhe tal impressão a descrição que a Santa faz nele da quarta água que, pouco tempo depois de iniciada a leitura, sentiu-se transformado e começou a chorar. "Sentiu descobrir - são palavras do próprio Tomás - um novo reino, um novo horizonte de luz e de verdade; e, apesar de nunca lhe ter passado pelo pensamento a idéia de ser religioso, ao contrário, sentia repugnância disso, foi tal a eficácia da leitura que depois de 15 dias vestiu o hábito da Ordem" [2] .

            Fez seu noviciado em Valladolid, professando em 4 de abril de 1587 (nas mãos de Gracián que se encontrava ali assistindo ao capítulo provincial intermédio naquele ano). Terminados seus estudos e ordenado sacerdote, em 1589 foi enviado para ensinar teologia no colégio de Santo Ângelo, fundado em Sevilha em 1587.

            Estes poucos dados que possuímos sobre os primeiros passos do P. Tomás de Jesus entre os Descalços, por si só oferecem uma chave importante para interpretar sua figura um tanto quanto enigmática e aparentemente contraditória. Note-se que em sua formação se fazem referência a pelo menos três elementos de significados diferentes: em primeiro lugar o contato direto com Santa Teresa, que o conquista com seus escritos; em segundo lugar, o estudo apaixonado da história e espiritualidade carmelitana (basta recordar seu Livro da antigüidade e Santos da Ordem de Nossa Senhora do Carmo e dos especiais privilégios de sua Confraria, publicado em Salamanca em 1599); e, finalmente, a nova orientação que, naquela época, o P. Dória estava imprimindo na Ordem através de sua influência direta, de suas circulares e dos superiores locais. Em Tomás de Jesus temos, talvez, o testemunho mais claro  do efeito que a pedagogia de Dória podia produzir em um jovem que abraçava a vida religiosa com entusiasmo e como uma "tabula rasa". Gracián desgastou-se com ardor para defender o ideal teresiano e pagou com o hábito o seu empenho; João da Cruz acabou marginalizado; as prioras da primeira geração teresiana nunca se cansaram de defender a herança da Madre Fundadora contra as inovações do P. Dória. Porém, alguém que chegava sem outra orientação nem outros "preconceitos", que conclusões poderia tirar desse novo estilo de formação difundido na Ordem?

            O próprio P. Tomás no-lo vai expor nas notícias biográficas que incluiu em suas Fundações, escritas em 1615 por ordem do Geral Fernando de Santa Maria [3] . Falando em terceira pessoa, diz-nos: "Logo que professou, sentiu particular chamado para a vida solitária e silenciosa e considerando que a profissão de sua Regra primitiva era toda de eremitas, desejava muito que nesses tempos se fizessem alguns conventos à maneira que antigamente viviam nossos antecessores no Monte Carmelo, em ermidas separadas, dedicando-se continuamente à oração e contemplação, sob a obediência de algum prelado, na qual consiste a segurança e fruto da vida eremítica". Narra, em seguida, como o P. Nicolau de Jesus Maria passaria por Sevilha, visitando os conventos - em meados de 1589 - e acrescenta: "Pareceu-lhe (a Tomás) que seria uma boa ocasião e escreveu um papel que continha algumas razões com as quais pretendia demonstrar as vantagens que se adviriam para a Religião de ter desertos e ermidas, que seriam: ser conforme nossa Regra e primeiro estilo de vida; o fato de ter muitos que o desejavam e seria um modo de sossegá-los para que não fossem para a Cartuxa; ser um meio para ter homens de espírito e oração; ser um estilo de vida altíssimo e perfeitíssimo, pelo fato de ter tudo o que há de bom na vida cenobítica, que é a obediência e apoio do prelado, e tudo o que há de bom na vida solitária, sem o perigo de estar só e governar-se a si mesmo; enfim, que seria ter as flores sem os espinhos. Estas e outras muitas conveniências dizia naquele papel. O P. frei Nicolau leu-o e respondeu que se se fizesse o que ali estava escrito seria destruir a Religião, porque iriam para ali os mais perfeitos, e a Religião ficaria desprovida dos melhores elementos". Diante da resposta do P. Dória, deixou o projeto de lado por então. 

            De Sevilha, o P. Tomás foi para Alcalá como vice-reitor e professor no colégio e ali, revolvendo seus papéis, tropeçou com o projeto do deserto. Comentou o assunto com o Reitor da casa, João de Jesus Maria (Aravalles) e com seus coetâneos Francisco de Santa Maria (futuro cronista que já conhecemos) e Alonso de Jesus Maria (futuro Geral, também conhecido) e todos foram unânimes em lhe dizer que era uma idéia genial e o animaram a insistir de novo com o P. Nicolau de Jesus Maria. Durante as férias de verão de 1592 Tomás transferiu-se para Madri e desta vez o P. Dória não colocou nenhuma objeção à realização do projeto, antes, apoiou-o plenamente, lamentando-se de que tivesse duvidado dele, tendo-o por relaxado. O primeiro Deserto dos Carmelitas Descalços foi inaugurado em Bolarque em 24 de junho de 1593. Era o primeiro anel de uma longa cadeia de 28 que se iriam fundando desde 1593 até 1973.

             Para uma história pormenorizada de todos os Desertos pode-se ver, por exemplo, o livro de Felipe da Virgem do Carmo, La soledad fecunda (A solidão fecunda) (Madri,1961), onde se encontrará, além disso, a bibliografia correspondente. Aqui nos limitamos a assinalar esses dados como critério interpretativo de um aspecto importante na História da Ordem nem sempre exposto com a devida precisão. Chegou-se inclusive, às vezes, a tirar conclusões falsas de premissas verdadeiras por não se levar suficientemente em conta as leis da Lógica. É evidente que a Madre Teresa quis suas filhas como eremitas e eremitas queria Tomás de Jesus os moradores de seu deserto, como eremitas foram os primeiros moradores do Carmelo e todos entregues na busca da preciosa pérola da contemplação. A diferença entre uns e outros temos que buscá-la no modo concreto de organizar a vida, na pedagogia empregada para levar as almas à união com Deus. E, nesse aspecto, a diferença entre os três tipos de comunidade, o Monte Carmelo, São José de Ávila e Bolarque, é real. (Um estudo comparativo poderia ilustrar muitos pormenores). Basta indicar aqui que as comunidades de "eremitas teresianas" configuraram-se depois de 27 anos de experiência pessoal da Madre Fundadora e cinco anos de prova na casinha de São José, enquanto que o "Deserto" dos Carmelitas Descalços nasceu na mente de Tomás de Jesus como dedução lógica da formação recebida no noviciado e de suas leituras sobre os eremitas antigos. E essa fórmula teria que ser experimentada. Não é sintomático que a tentativa de fundar uma comunidade-deserto entre as Descalças (Alcalá, 20 de maio de 1599), fracassasse rapidamente? [4]

            O projeto delineado, ficou encarregado de sua realização o P. Alonso. Tomás foi de Alcalá para Zaragoza como prior em 1594, e em 1597, aos 33 anos de idade, foi eleito provincial de Castela a Velha. Obra de seu provincialato foi o Deserto de São José do Monte das Batuecas (1599), onde viveu e aperfeiçoou seu ideal de vida eremítica de 1600 a 1607. No início deste último ano recebeu cartas do prior de Gênova, Francisco do SSmo. Sacramento, nas quais lhe dizia "ser amor próprio ficar naquela solidão olhando somente para sua própria consolação, enquanto tantas almas estavam perecendo no mundo por não haver quem as ajudasse" [5] e pouco a pouco foi amadurecendo nele a vocação missionária.

            Descoberto o novo ideal, levou-o tão a sério que, rompendo com seus superiores na Espanha, graças a um breve de Paulo V, em fins de 1607 já estava em Roma entregue de corpo e alma a projetos missionários.

            E como, em 1592, convenceu ao P. Dória de que o melhor sistema para formar contemplativos era seu "Deserto", em 1608 convenceu o P. Pedro da Mãe de Deus e o Papa de que o melhor método para prover a Igreja de missionários era fundar uma Congregação nova e dedicada ex professo a isso. Em 22 de julho de 1608 com o Breve Onus pastoralis officii, Paulo V erigia a Congregação de São Paulo, com Tomás de Jesus como Comissário para os primeiros anos de andamento. Com o tempo iriam elegendo o próprio superior a cada três anos. O núcleo inicial foi constituído por Tomás de Jesus e Diego da Encarnação (o ex-missionário do Congo, que tinha ido com ele para Roma) da Congregação da Espanha, mais 10 padres e dois irmãos da Congregação Italiana.

            Porém, Fernando de Santa Maria, sucessor como Vigário do falecido P. Pedro da Mãe de Deus conseguiu suspender a execução do breve e orientar os entusiasmos do P. Tomás dentro dos parâmetros estabelecidos para a Congregação Italiana.

            Retirado no convento de Santa Maria de la Scala o P. Tomás dedicou-se à composição de suas obras Stimulus missionum e De conversione omnium gentium procuranda, até que em 1610 foi para Flandres, dando um grande impulso à propagação do Carmelo Teresiano na França e nos Países Baixos.

 

 CAPÍTULO XVII

EXPANSÃO DA CONGREGAÇÃO ITALIANA

            A Congregação Italiana seguiu em seu crescimento um ritmo muito semelhante ao da Congregação Espanhola. Já em 1617 ficou dividida em seis províncias: três italianas, uma polaca, uma francesa e outra que abrangia Bélgica e Alemanha, às quais se foram acrescentando em seguida as da Sicília e Paris em 1626,  a da Irlanda em 1638 [6] , a da Aquitânia em 1641 e as de Piemonte e Borgonha em 1643. De tal maneira que 50 anos depois de sua ereção contava já com 14 províncias, 149 conventos e um total de 2.326 religiosos professos, além de uma centena de missionários distribuídos pela Pérsia, Índia, Arábia, Síria, Líbano, Inglaterra e Holanda. Existiam, além disso, três seminários para a formação de missionários em Roma, Lovaina e Malta, e desde 1631, graças aos esforços do P. Próspero do Espírito Santo, os Descalços haviam-se estabelecido no Monte Carmelo.

            O ritmo de crescimento continuou quase com a mesma intensidade durante o meio século sucessivo, fundando-se as províncias Galo-Belga (1681), a de Veneza (1677), Valona-Belga (1681), a da Normandia (1686) e a da Toscana (1686), com as missões de Malabar e Mogor na Índia e de Patrasso na Grécia. De modo que em 1701 os Carmelitas Descalços, ou Teresianos como se chamavam com freqüência, eram já 3.855 distribuídos em 181 conventos.

            Com o começo do segundo século de vida, o ritmo de crescimento diminuiu, alcançando até a metade dele o limite máximo de sua expansão, com um total de 4.270 religiosos distribuídos em 23 províncias - havia-se fundado enquanto isso na Áustria (1701), Lituânia (1743), Lotaringia (1740), Baviera (1740) e Flandres (1761) - e cerca de 200 missionários que desenvolviam seu apostolado na Pérsia, Mesopotâmia, Índia, Síria, Líbano, China, Luisiana, Inglaterra, Holanda e Irlanda (onde as lutas com os protestantes em 1641-1643 haviam acabado com uma florescente província).

            A última fundação teve lugar em 1735 (Ímola). Logo vieram as perseguições e supressões do final do século XVIII e século XIX que, ainda que tenham sido uma prova de fogo para a Congregação Italiana, não conseguiram acabar com ela, pois seu caráter internacional permitiu-lhe sempre sobreviver em uma nação enquanto era suprimida em outra e talvez tinha alcançado também uma maior coesão interna por não ter vivido tão agudamente em sua gestação os problemas e tensões que minaram a vitalidade da Espanha

            Os primeiros sintomas das dificuldades que se aproximavam deixaram-se sentir com as disposições da "Commission des réguliers" (1766), que afetaram os 750 Carmelitas Descalços que compreendiam as seis províncias francesas. De pouco serviu a reforma das Constituições aprovadas por Pio VI com o Breve Iniunctae nobis, de 15 de março de 1776, pois a Revolução em 1793 acabou com os 79 conventos existentes, dispersando os religiosos, submetendo-os à leis iníquas e condenando à guilhotina, ao fusilamento ou à deportação a muitos que não quiseram se  dobrar [7] .

            José II, por sua parte, foi suprimindo pouco a pouco os conventos que se encontravam sob seu domínio. Em 1782-1783 suprimiu quase todos os da Áustria, em 1783-1784 os da Polônia e Lituânia. A partir de 1797 vão-se suprimindo os da Lombardia, Piemonte, Ligúria, Veneza e, finalmente, Toscana e Nápoles.

            Em 1802 suprimiram-se muitas casas da Alemanha e em 1810, com uma lei geral, suprimem-se todos os conventos da Bélgica e Itália, ainda que alguns se recuperaram depois. Em 1864 praticamente desaparece a província da Polônia, sendo alguns de seus membros deportados para a Sibéria. Um novo decreto de supressão geral para a Itália, promulgado em 1866 foi aplicado no Lácio em 1873 e em Roma em 1874.

            Um reflexo da situação que se ia criando na Congregação Italiana no final do século XVIII, nós o temos nas atas de seus capítulos gerais: em 1785, de 23 províncias só estiveram presentes 16 provinciais, em 1789 estão ausentes 19, e em 1791 não conseguem se reunir mais que 6, sendo suspensos os capítulos gerais desde 1791 até 1823. Inclusive o definitório geral deixou de celebrar sessões desde maio de 1797 até novembro de 1801

            O fim da Congregação parecia iminente, porém em 1823, quando o número de religiosos tinha chegado ao mínimo de 278, reúnem-se em Florença os provinciais ou procuradores de cinco províncias italianas e nos sexênios sucessivos continuam reunindo-se, fomentando a reorganização da Ordem que, ainda que ilegalmente, continuava mantendo-se com desejos de sobreviver.

            Em 1859 os religiosos eram 970, em 1865, eram 954; ficando ainda firmes em 1872, apesar da supressão geral, 728. Muitos impelidos pelas supressões, haviam-se refugiado no Monte Carmelo ou tinham ido reforçar as missões do Oriente e a eles deveu-se, em grande parte, a salvação da Ordem [8] .

 

CAPÍTULO XVIII

DIFUSÃO DAS FILHAS DE SANTA TERESA O MUNDO

            Durante seus primeiros 25 anos de vida as Carmelitas Descalças formaram um grupo compacto em torno da Madre Teresa, considerada tanto por suas filhas como pelos superiores da Ordem como a Fundadora e responsável das novas comunidades que iam surgindo: Rubeo acolheu-as sob sua jurisdição imediata, eximindo-as da jurisdição ordinária do provincial; Pedro Fernandez, antes de tomar alguma disposição que afetasse às Descalças, consultava a Madre Teresa; Jerônimo Gracián, tanto quando era Comissário como quando provincial, delegou plenamente seus poderes, no que se referia aos mosteiros de Descalças, à Madre Fundadora. A mesma Santa, em 17 de março de 1582, pensa que Maria de São José poderia substituí-la em seu lugar de "fundadora".

            Esse senso de grupo estava muito arraigado nas Descalças e quando os conventos dos frades dividiram-se em cinco províncias diferentes (1588), elas insistiram por manter-se sujeitas a um mesmo superior e não a cinco provinciais diferentes, pois a diversidade de superiores poderia originar diferenças também nos conventos. Chegaram, inclusive, a obter da Santa Sé (1590) a instituição de um Comissário, uma espécie de Vice-Geral, que tivesse o cuidado específico dos mosteiros femininos. (O Breve não foi executado por oposição de Dória).

            Da vitalidade interior de que estavam repletas as comunidades teresianas quando a Santa morreu dão-nos uma idéia os seis conventos fundados durante o provincialato do P. Gracián (1581-1585), mais os nove que já estavam projetados quando  deixou o cargo. As Descalças estavam, inclusive, pensando muito seriamente em fundar na França e no Congo.

            Porém, a mudança de rumo da Ordem, da qual falamos no capítulo X, influiu também decisivamente na difusão das Carmelitas. As inovações que foram introduzidas em suas leis, contra a vontade expressa das interessadas, indicavam que não lhes era reconhecida, com a mesma clarividência de antes, sua personalidade e sua autonomia na organização da própria vida, mas que se começava a medi-las com a mesma medida que os frades. E este é um elemento histórico cuja transcendência não podemos esquecer se quisermos compreender plenamente alguns aspectos do desenvolvimento e difusão das Carmelitas Descalças.

PORTUGAL

             A fundação de Lisboa, realizada no final de 1584 por Maria de São José nas margens do Atlântico, além de ser o primeiro passo para novos reinos, poderia considerar-se como um trampolim para o Congo, México e França. Sem dúvida, a redução de horizontes que significou para os frades o governo do P. Dória afetou também as monjas e Maria de São José nunca pôde levantar vôo para novos pombaizinhos, nem embarcar rumo a novas terras. Estudou o francês, insistiu e esperou durante cerca de 20 anos pela suspirada permissão, mas nunca a conseguiu. Até 1604 não se fará a fundação projetada desde 1583.

ITÁLIA

            O P. Dória, que sempre se opôs à ida das Descalças para a França, promoveu em troca a fundação de Gênova, que foi inaugurada em 12 de dezembro de 1590. Como o leitor terá advertido, a fundação coincide com o momento mais crítico do choque entre o P. Dória e as Descalças, lideradas por Ana de Jesus. Daí que se escolhesse como responsável pela fundação a Jerônima do Espírito Santo que, ainda que tivesse conhecido e tratado com a Santa, não partilhava o ponto de vista da Madre Ana. Catalina de Cristo chamou a atenção para um pormenor, quando, ao hospedar as expedicionárias em seu convento de Barcelona antes de embarcar para Gênova, teve ocasião de conhecê-las e escreveu a Barnabé de Mármol  em 30 de novembro de 1590: "Há seis semanas chegaram aqui as Madres que irão fundar em Gênova; são das que aceitaram a Consulta e renunciaram ao Breve; considere vossa mercê o que nisto se pode ter oferecido" [9]

AS FUNDAÇÕES NA FRANÇA

             A fundação de Paris encontrou muito mais dificuldades, porém o êxito coroou amplamente a espera. "Os prejuízos da França" que tinham feito sofrer o coração de Teresa e tinham-lhe servido de incentivo em sua empresa de Fundadora, encontraram grande eco no coração de suas filhas e desde que João de Quintanadueñas havia-se oferecido para patrocinar uma fundação em sua vila natal de Rouen, eram muito numerosas as que, de diversos mosteiros, ofereciam-se como voluntárias para ir em pessoa remediar esses "prejuízos" [10] . Porém, em parte pelas dificuldades políticas entre ambos os reinos, em parte pela oposição dos superiores Descalços ao projeto, todos os esforços de João de Quintanadueñas foram em vão. Por fim, entraram em cena personagens de relevo no ambiente de restauração espiritual da França, que tinham entrado em contato com a Santa através da tradução de suas obras (Paris 1601) e da vida escrita por Ribera (1602) e, uma após outra, as dificuldades foram desaparecendo. Os principais protagonistas desta empresa foram Bárbara Avrillot Acarie (futura beata Maria da Encarnação) e seus conselheiros e amigos, o cartuxo D. Beaucousin, o pároco de Aumale Santiago Gallemant, o doutor Andrés Duval da Sorbone, D. Pedro de Bérulle e São Francisco de Sales.

            A princesa Catarina de Longueville encarregou-se de patrocinar a fundação de Paris e em seu nome apresentou-se o pedido a Clemente VIII, que respondeu favoravelmente com a Bula In supremo, de 13 de novembro de 1603.

            Obtida da Santa Sé a permissão para que as Descalças fundassem na França, teve lugar uma longa e laboriosa luta entre o Geral Francisco da Mãe de Deus e D. Pedro de Bérulle, que assumiu pessoalmente as negociações em nome dos fundadores franceses. Os franceses queriam a todo custo, para alicerce do Carmelo Teresiano em sua terra, alguma religiosa que tivesse exercido o ofício de priora no tempo em que vivia Santa Teresa, como a melhor garantia de que havia assimilado seu espírito e de que sua capacidade tinha sido reconhecida pela Madre Fundadora. O Geral, em troca, empenhava-se em oferecer-lhes religiosas que  se tinham mostrado mais dóceis em aceitar o novo rumo dado pelo P. Dória à Ordem e seguido por ele mesmo durante seu governo. Enfim, depois de muitas idas e vindas o duelo foi vencido por Bérulle e, diante da pressão do núncio, o Geral viu-se obrigado a conceder para responsável da expedição a Madre Ana de Jesus. Com ela, saíram de seu convento de Salamanca, a subpriora Isabel dos Anjos e Beatriz da Conceição (Zúñiga); de Loeches, a irmã Leonor de São Bernardo, que sabia um pouco de francês; de Ávila, a irmã Ana de São Bartolomeu e de Burgos, Isabel de São Paulo.

            E este grupo, que chegou a Paris em 15 de outubro de 1604, foi protagonista da mais maravilhosa floração de mosteiros teresianos depois da realizada pela mesma Madre Fundadora. Depois de meio século da fundação do Carmelo da Encarnação em Paris, as Carmelitas Descalças haviam fundado na França 59 mosteiros. Ana de Jesus interveio pessoalmente nas fundações de Paris (1604), Pontoise (1605) e Dijon (1605); Ana de São Bartolomeu esteve à frente da fundação de Tours (1608); Isabel dos Anjos fundou Amiens (1606), Rouen (1609), Bordéus-São José (1610), Toulouse (1616) e Limoges (1618).

            Ana de Jesus e Ana de São Bartolomeu tinham convivido longo tempo com Santa Teresa, as outras tinham sido educadas entre as teresianas da primeira geração e seu entusiasmo contagiante produzia grande impacto nas noviças, que nunca se cansaram de agradecê-las pelo dom que lhes havia feito, levando o Carmelo Teresiano à sua terra. É evidente que estas novas comunidades começam com o mesmo estilo das comunidades que as duas Anas, em companhia da Santa, haviam fundado na Espanha, pois todas as mudanças de leis introduzidas pelo P. Dória e as circulares que as haviam precedido ou acompanhado, não tinham sido para a Madre Ana mais que um tormento passageiro, que não tinha deixado outro vestígio em sua alma que o de um desejo ainda maior de manter intacto o ideal teresiano.

            E este é o lugar para dizer duas palavras sobre outro gesto de Ana de Jesus destinado a trazer conseqüências durante séculos na história do Carmelo Teresiano e a dar dores de cabeça a seus escritores até os nossos dias. Acontece que Ana de Jesus, apesar da promulgação oficial das Constituições retocadas pelo P. Dória em 1592 e de sua conseqüente proibição de receber outros textos diferentes, foi para a França com um exemplar das Constituições de 1581. E foram essas Constituições as que ela implantou nas fundações da França e nas que logo realizou em Flandres. Que razões teve para fazer isso? Ou melhor, teríamos que perguntar-lhe quais motivos tinha para não fazê-lo. Convém levar em conta que no pleito que ela teve com o Conselho real de Castela para manter intactas as Constituições de Santa Teresa (e em todas as discussões que se ofereciam sobre o tema), os frades acusaram-na de mudar as leis da Santa, enquanto que eles as queriam conservar... E a Madre Ana, que sempre foi uma mulher mais de obras do que de palavras, não gastou mais saliva no assunto. Obedeceu ao padre Vigário Geral que proibia receber "novas" Constituições e ficou com as que sempre havia tido. E como ela mesma tinha afirmado no pleito que "o costume é o melhor intérprete das leis", seguiu sempre o seu caminho, recorrendo ao Papa toda vez que um superior imediato quis intrometer-se na vida de seus mosteiros: na Espanha, defendeu-os das veleidades do P. Dória, em Paris, de algumas tentações de novidades por parte de Bérulle, e na Bélgica, da tentativa dos superiores da Congregação Italiana de igualá-las com as de Gênova, que se governavam pelas Constituições de 1592, traduzidas para o italiano em 1593.

            O que a Madre Ana não conseguiu na França foi que os Descalços fundassem a tempo para encarregar-se do governo das monjas, motivo pelo qual foram governadas a princípio por Gallemant, Duval e Bérulle (Bula de fundação), em seguida por sacerdotes do clero secular designados pelo núncio para um triênio (Breve Cum alias, de 9 de setembro de 1606) e, finalmente, por Pedro de Bérulle e seus sucessores no generalato do Oratório (Breve Cum pridem, de 17 e abril de 1614). Quando da morte de Bérulle (1629), o capítulo geral do Oratório renunciou ao encargo e a Santa Sé encarregou o núncio (11 de abril de 1632) de designar um visitador para as Carmelitas a cada triênio. Foi a fórmula que, com diversas modificações que não pormenorizamos, chegou até a revolução francesa. Logo ficaram sujeitas aos Ordinários do lugar, como na Espanha e em outras partes, ao serem supressos os religiosos.

            Ao chegar a revolução, as Carmelitas tinham 62 mosteiros na França e, ainda que lançadas para fora deles e vítimas de mil humilhações (recordemos as 16 mártires de Compiègne que, lideradas por Teresa de Santo Agostinho, foram guilhotinadas em 17 de julho de 1794), souberam manter vivo seu ideal e fazê-lo ressurgir das cinzas mais novo e vigoroso: em 1880 os Carmelos franceses eram 113 e no final do século, cerca de 120

AS CARMELITAS DESCALÇAS NA ESPANHA

 

            Vimos que na França, as Carmelitas propagaram-se com uma forma externa de governo, que poderia se considerar anômala se comparada com o ideal sonhado por Santa Teresa e defendido por suas filhas da primeira geração; em troca, receberam uma organização interna de seus mosteiros genuinamente teresiana e mantiveram intactas as Constituições da Madre Fundadora. Na Espanha, onde foram governadas pelos Descalços, paradoxalmente foi-lhes trocado o texto de suas Constituições. Ainda que deixa de ser um paradoxo, se se leva em conta o que dizíamos no capítulo XIII sobre a evolução da Congregação Espanhola.

            Com efeito, fiéis ao princípio, válido no caso de Soreth e das Carmelitas, porém anacrônico no caso das Descalças, de que as monjas deviam guiar-se pelas leis e costumes dos frades, os superiores julgaram necessária uma revisão a fundo da legislação que tinha permanecido imutável desde 1592, enquanto que a dos frades tinha evoluído. A revisão, decretada pelo capítulo geral celebrado em abril de 1613, foi levada a termo durante o triênio sucessivo e examinada por todo o definitório geral, ao qual somaram-se três dos definidores cessantes e todos os ex-provinciais do dito triênio. As novas Constituições foram promulgadas pelo Geral José de Jesus Maria, sem intervenção alguma da Santa Sé, em 30 de maio de 1616.

            Se Ana de Jesus estivesse na Espanha não sabemos como teria reagido, nem conhecemos nenhum comentário seu a este respeito. Possuímos, em troca, o comentário de sua companheira de expedição à França, Isabel dos Anjos que, em carta à priora de Salamanca, seu convento de origem, conta suas impressões em 2 de junho de 1618: "Confesso, minha Madre, que sinto muito o modo com que se procede agora na Espanha e lendo há alguns dias atrás as novas Constituições, disse a mim mesma: 'Meu Deus, tratar assim a vossas servas e filhas! Mais parecem escravas que farão ou deixarão de fazer as coisas por penitências ou por temor delas'. Parece-me, Madre de minha alma, que por este meio não se conservará o espírito de nossa santa Religião, senão que deixaremos de ir a Deus pelo caminho que nossa Santa Madre nos ensinou. Bem sei que o caminho principal é o da santa obediência; mas, se na obediência não se vai por amor, senão por tantos temores, não sei como as almas se adiantarão na perfeição" [11]

            Ainda que nem sempre seja fácil estabelecer até que ponto as mudanças de leis são reflexo de uma realidade já mudada ou causa de uma transformação sucessiva, é evidente que nos conventos das Carmelitas Descalças de inícios do século XVII sente-se cada vez mais a influência da direção dos frades. (O P. Alonso deu-lhes um novo Ordinário e cerimonial em 1622 e o Manual ou processionário em 1623). Como o fato histórico é importante e destinado a ter conseqüências duradouras, não será demais escutar outro testemunho direto e excepcional. Trata-se da Madre Beatriz da Conceição que, depois de ter vivido em seu convento de Salamanca de 1592 a 1604, saiu também com Ana de Jesus para fundar na França; porém, diferentemente de suas companheiras, quando completou 60 anos decidiu voltar para morrer em seu convento de origem, regressando a Salamanca em junho de 1630. Por conseguinte, tinha vivido em Salamanca na época das fundadoras do tempo da Santa (teve à Ana de Jesus por priora no triênio de 1596-1599), e voltava depois de 25 anos de ausência, sonhando encontrar o ambiente de sua juventude e de seus primeiros passos na vida religiosa. Mas, como dizíamos, as coisas tinham mudado muito. Em carta a Margarida de Jesus, sua sucessora como priora em Bruxelas, manifesta seu desencanto em 8 de agosto de 1631: "Desejo muito que se acabe de estabelecer o cerimonial, e, por mais brevidade, não me parece mal o que disse nosso Padre, que basta tê-lo manuscrito em cada convento para que na Itália não voltem atrás. Creia-me, Madre, que o antigo é sem comparação melhor. Se visse a confusão da lavagem da louça! Todas andam por ali e como ali não se fala, mas dizem-se salmos e ladainhas, depois tem-se a hora do recreio; e põem o relógio! Não há monja das que deixei, nem coisa das que fazíamos. Assim, estou como uma insensata e cada dia o sinto mais. Que vossa reverência dê por bem empregado o quanto trabalha para que tudo se faça como antigamente"... [12]

            Talvez tenham sido essas mudanças nas Constituições das monjas que deram ensejo a um fenômeno que tem início precisamente poucos anos depois: a fundação de conventos sob a jurisdição dos Ordinários e com a condição de observar as Constituições de 1581. Abriu a série, com bula especial de Urbano VIII, o de Santa Teresa de Zaragoza em 1624, ao qual seguiram Tarazona - São Joaquim (1632), Vich (1637), Teruel (1660), Caudiel (1671), que foram imprimindo por conta própria, para seu uso, as Constituições de 1581. Aos cronistas da Ordem foram dadas instruções para que não historiassem os mosteiros fundados fora da jurisdição da mesma.

            O ritmo de crescimento no número de fundações  prosseguiu, ainda que se fazendo cada vez mais lento, durante o século XVII, ao final do qual os conventos na Espanha alcançaram um total de 71 (48 sujeitos à jurisdição da Ordem e 23 à dos Ordinários). Quando se cumpriu o segundo centenário da fundação de São José de Ávila (1562-1762), as fundações tinham chegado a 81, às quais acrescentar-se-á a de Lesaca em 1767, e com a qual se encerra o ciclo de fundações que não voltará a ser retomado até depois da restauração na Espanha (Ledesma, 1876).

            Durante as perseguições e supressões do século XIX as Carmelitas Descalças espanholas não só conseguiram sobreviver (perderam-se unicamente os conventos de Beas - recuperado no final do século - , Natividade de Madri, Sabiote e Nules), mas saíram fortalecidas da prova e dispostas a iniciar uma nova floração de mosteiros, ao lado de seus irmãos que recomeçavam também com novo estilo.  

AS FUNDAÇÕES DA BÉLGICA

E OS "ENGLISH CONVENTS"

            Encaminhadas as fundações da França e deixando à frente delas Ana de São Bartolomeu e Isabel dos Anjos, a Madre Ana de Jesus foi para Flandres em 1607, iniciando um novo foco de irradiação do Carmelo Teresiano. Fundou pessoalmente em Bruxelas (1607), Lovaina (1607) e Mons (1608); chamou da França, onde não era mais necessária, Ana de São Bartolomeu para priora de Amberes (1614) e também em Amberes fundou outro convento (1619) com jovens inglesas que haviam fugido de sua pátria. A primeira priora foi Ana da Ascensão (Worsley), subpriora, Teresa de Jesus (Ward), às quais somaram-se Margarida de São Francisco e Ana de Jesus (van der Duyne), todas elas recebidas e formadas por Ana de Jesus (Lobera) em suas novas fundações de Flandres.

            Sempre escrupulosa em matéria de obediência, Ana de Jesus não descansou até ver seus mosteiros sob a jurisdição da Ordem, coisa que não foi fácil nem lhe deu o descanso esperado. Devemos começar dizendo que não sabemos se ela conheceu o conteúdo da Bula de ereção da Congregação Italiana. O mais provável é que não, pois do contrário não teria insistido tanto em que os frades da Espanha fossem fundar na França, para colocar-se sob sua obediência. Somente diante da negativa rotunda dos superiores espanhóis dirigiu-se aos da Itália em busca de religiosos de sua Ordem e, ainda que tenham chegado, foi muito tarde para seus intentos. Apenas tendo fundado em Flandres, começou de novo a insistir para que fossem padres da Espanha para governá-las e quando enfim convenceu-se de que não havia nada que fazer, escreveu a Roma pedindo padres da Congregação Italiana, apesar de que Flandres, pertencendo à Coroa da Espanha, ao teor da Bula poder-se-ia pensar que a dita Congregação não tinha direito de fundar ali.

            Graças, pois, às gestões de Ana de Jesus, que preparou-lhes a casa e tudo o necessário para a fundação, chegaram a Bruxelas os Descalços da Itália, com o P. Tomás de Jesus à frente e pouco depois, em 18 de setembro de 1610, as Descalças passaram solenemente sob a jurisdição da Congregação da Itália, em execução do Breve Cum sicut accepimus, de 26 de janeiro daquele mesmo ano.

            Porém, logo notou-se uma anomalia importante: as monjas de Gênova tinham Constituições diferentes das de Flandres... Os superiores da Itália queriam igualá-las, porém Ana de Jesus, que tinha reeditado em Bruxelas (1607) as Constituições de 1581, traduzidas por João de Quintanadueñas, voltou a recorrer à Santa Sé e mais uma vez salvou o texto que para ela era símbolo e garantia do estilo de vida que tinha aprendido da Madre Fundadora.

            Somente depois da morte de Ana de Jesus (1621) os superiores conseguiram que as Descalças de Flandres fossem, pouco a pouco, recebendo o texto de 1592-1593, ainda que com uma exceção chamada a ter importância histórica: a comunidade de Lovaina e as "inglesas" de Amberes tinham feito voto de não admitir outras Constituições que não fossem as de 1581 e como mantiveram-se firmes em seu voto, a Ordem renunciou a governá-las e Gregório XIV aprovou esta decisão (17 de março de 1623), colocando ambas as comunidades sob a jurisdição dos Ordinários.

            O convento das "inglesas" deu mostras de extraordinária vitalidade e dele nasceram fundações que propagaram o Carmelo Teresiano pela Holanda, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos.

            A difusão das Carmelitas Descalças foi mais lenta na Congregação Italiana do que na Espanhola; não obstante, em 1656 os mosteiros eram já 47, além de alguns sujeitos aos Ordinários. No final do século XVIII (1780), ao aproximar-se a época das supressões, tinham alcançado o número de 102, sendo que 73 achavam-se sob a jurisdição da Ordem e 29 sob a jurisdição dos Ordinários [13] . 

 

CAPÍTULO XIX

RESTAURAÇÃO (SÉCULO XIX) E 
NOVA EXPANSÃO DA ORDEM (SÉCULO XX)

            Uma das perguntas cuja resposta o leitor estará esperando desde que terminou o capítulo XIII terá sido esta: Que foi feito dos 2.106 religiosos que compunham a Congregação Espanhola no momento da supressão?

            É outro capítulo de dor e sofrimento na história da Igreja que ficará oculto para sempre.

            Alguns, já idosos, apenas sobreviveram à desventura.

            Outros foram reforçar as fileiras do clero secular ou buscaram uma maneira de sobreviver refugiando-se ao abrigo de seus familiares.

            Uns poucos foram para a Itália ou para o México, para poder continuar vivendo comunitariamente sua profissão carmelitana.

            Uma pequena porção dos que eram fidelíssimos ficou, com hábito de clérigos seculares, exercendo o ministério nas Igrejas da Ordem, na espera de que passasse a tormenta para poder retomar a vida da comunidade. A estes deveu-se a salvação de conventos como os de Ávila, Segóvia e Burgos, por exemplo.

            As Carmelitas Descalças, por sua parte, puderam acolher a vários frades exclaustrados como capelães de seus mosteiros.

            Houve, finalmente, jovens de extraordinária garra que, lançados fora de seus conventos pouco tempo depois de professarem, cultivaram em seus corações a semente da vocação e, apenas as circunstâncias externas o permitiram, fizeram-na florescer novamente, restaurando o quase destruído Carmelo Teresiano ou fundando da planta vigorosa uma nova congregação inspirada em seu mesmo ideal.

            Entre os primeiros destacam-se Manoel de Santa Teresa, Pedro José de Jesus Maria, Domingo de São José. À segunda classe pertence Francisco de Jesus Maria e José (Palau y Quer), em quem vamos fixar um momento nossa atenção, por tratar-se da figura do Carmelo Teresiano que mais se destacou no século XIX, e porque sua aventura espiritual pode dar-nos uma idéia do que talvez também outros coetâneos seus sofreram e sonharam para conservar a herança teresiana, ainda que sem ver o fruto de seus trabalhos. 

FRANCISCO PALAU Y QUER

(1811-1872)

            A primeira coisa que quero ressaltar é que como a todas as grandes figuras ao longo da história da Ordem, também a Francisco Palau, Santa Teresa conquistou pessoalmente por meio de seus escritos. O jovem Palau tinha seguido praticamente desde criança a vocação para o sacerdócio e contava já com 20 anos quando seu encontro com os escritos de Teresa fez com que sua precoce vocação sacerdotal  se unisse à vocação religiosa e precisamente ao Carmelo Teresiano. Com o primeiro ano de teologia concluído no Seminário diocesano de Lérida, vestiu o hábito dos Descalços em Barcelona em 14 de novembro de 

            No convento de Barcelona permaneceu apenas três anos, sendo lançado violentamente para fora dele pela turba incendiária em 25 de julho de 1835. Porém, este breve período de tempo foi suficiente para fazê-lo conhecer um modo concreto de viver o carisma teresiano e, sobretudo, para confirmá-lo em sua decisão inquebrantável de seguir a vocação religiosa, percebida com um valor eclesial perene e pela qual valia a pena dar a vida, se fosse necessário.

            "Quando fiz minha profissão religiosa em 15 de novembro de 1833 - diz-nos o P. Francisco - a Revolução já tinha em sua mão a tocha incendiária para abrasar todos os estabelecimentos religiosos e o punhal para assassinar os indivíduos neles refugiados. Eu não ignorava o perigo premente nem o que deveria fazer para subtrair-me a eles; não obstante, comprometi-me com votos solenes a um estado no qual acreditava poder praticar sua Regra até a morte, independentemente de qualquer acontecimento". E aqui distingue claramente o que é essencial no ideal religioso carmelitano daquilo que poderíamos chamar as estruturas nas quais tinha ido encarnando-se através dos séculos, estruturas que no momento histórico que coube a Francisco viver ameaçavam ruir e logo ruíram: "Para viver no Carmelo - continua - só necessitava uma coisa: a vocação. Estava bem persuadido disso, e também de que para viver como eremita, como solitário ou anacoreta, não necessitava de edifícios  que logo iam desmoronar, nem eram-me indispensáveis as montanhas do povo espanhol, pois acreditava achar em toda a extensão da terra bastante grutas e cavernas para fixar nelas minha morada".

            Isso sim é que é uma vocação para tempos de crise! [14]

            Com os sentimentos refletidos nas palavras que acabamos de ler, Palau despediu-se de sua recém estreada vida conventual para iniciar uma peregrinação de cerca de 30 anos, cheia de aventuras, de sofrimentos, de perseguições, sempre em busca do melhor modo de servir à Igreja.

            Aos 24 anos de idade, em 2 de abril de 1836, foi ordenado sacerdote e começou em seguida sua longa busca na vida eremítica, na penitência, no apostolado, começando sempre, enfrentando sempre com firmeza e confiança em Deus todo gênero de dificuldades, até que um dia sentiu bulir em seu interior o desejo de reunir outras pessoas em torno de si, seguro de ter encontrado o modo de viver a vida religiosa precisamente naquelas circunstâncias históricas adversas. Percebeu com clareza que o serviço que dele esperava sua Amada, a Igreja, era que pusesse em andamento uma família religiosa, multiplicando assim a eficácia de seu trabalho e compartilhando com os demais os frutos conquistados através de tanto sofrimento. E a esse trabalho dedicou-se de corpo e alma durante os últimos dez anos de sua vida.

            "É vontade de Deus - escreve em 7 e julho de 1863 - que se forme uma sociedade ou ordem religiosa que reúna em si toda a perfeição que encerram as Regras dadas ao Carmelo por Alberto, Patriarca de Jerusalém, e reformadas por nossa Santa Madre Teresa de Jesus". E aludindo talvez à imagem do Carmelo contida nas leis que ele tinha professado e que, como vimos mais acima, não refletiam plenamente o ideal teresiano, continua: "E é vontade de Deus, da Santa e dos homens, que se una à perfeição da vida contemplativa a ação do ensino, dividindo uma coisa da outra e unindo-as segundo o exigirem as necessidades da Igreja" [15] .

            Todos esses longos anos de maturação tinham levado o P. Palau a redescobrir o ideal das origens, a reconstruir em sua alma uma nova síntese, que ele se sentia capaz de transmitir aos outros sem ficar preso aos esquemas de seu noviciado e, ao mesmo tempo, seguro de permanecer fiel a sua vocação ao Carmelo Teresiano. "Necessitamos agora - escreve em 15 de agosto de 1863 - fixar o lugar onde estabelecer a primeira fundação, que é a mais difícil". As graças que tinha recebido de Deus não eram só para ele. Em sua alma havia amadurecido o carisma de Fundador. "Encomendei-o muitíssimo a Deus - prossegue na mesma carta - e estudando certos incidentes da minha vocação à Ordem de Santa Teresa, creio que ela me chamou à sua Ordem para esta obra. Enquanto se mantém e se sustém com todas as suas Regras a vida contemplativa, a ativa será aperfeiçoada por esta, e aquela dará à ação a perfeição que ela não tem em si" [16] .

            Como Teresa de Jesus, seguindo com toda a perfeição seu chamado ao Carmelo, fundou o Carmelo Teresiano, assim Francisco de Jesus Maria e José, seguindo com toda a perfeição seu chamado ao Carmelo Teresiano, fundou o Carmelo Missionário [17] .

 

OS RESTAURADORES

            Manoel de Santa Teresa (Elósegui) (1817-1889) nasceu em Lazcano (Guipúzcoa), onde os Carmelitas Descalços tinham um noviciado. Aos 15 anos vestiu o hábito da Ordem e não tinha terminado ainda seus estudos quando a supressão dos conventos chegou também às províncias Vascongadas em 1839. Manoel, aos 22 anos de idade, preferiu abandonar seu país à sua vocação e refugiou-se na França.

            Pedro José de Jesus Maria (Alcorta) (1822-1892), natural de Marquina (Vizcaya), freqüentou desde criança o conventos dos Carmelitas e estava pensando em vestir seu hábito, porém as supressões o impediram de realizar seu sonho. Sem amedrontar-se pelas circunstâncias adversas, iniciou seus estudos eclesiásticos no Seminário de Logroño e ao inteirar-se de que os Carmelitas espanhóis  tinham começado a fundar na França, decidiu unir-se a eles em 1845, aos 23 anos de idade.

            O principal artífice dessas fundações na França era o P. Domingo de São José (Arbizu y Munárriz) (1799-1870). Nascido em Puente la Reina (Navarra), recebeu o hábito no noviciado de Lazcano aos 18 anos de idade, em 5 de setembro de 1817. Antes disso tinha experimentado a carreira militar, freqüentando a Academia militar de Compostela, porém sua escolha definitiva foi para o Carmelo.

            Terminados brilhantemente seus estudos nos colégios da Ordem, primeiro ensinou filosofia em Calahorra e em seguida teologia em Pamplona. Em 1833, perseguido pelos liberais por causa de um sermão pronunciado nas exéquias de Fernando VII, o P. Domingo teve que fugir de seu convento, sendo acolhido no acampamento carlista de Alsasua como capelão. No ano seguinte, D. Carlos designou-o pregador de sua Corte e capelão de sua Guarda Real. Os acontecimentos de 1839 afetaram diretamente o P. Domingo, assinalado pelo general Maroto na lista de pessoas indesejáveis, e teve que fugir para a França.

            Chegou a Bordéus em 4 de março de 1839 (completava seus 40 anos em 7 de maio) com o propósito de embarcar para o México para recomeçar sua vida religiosa, ainda que encontrasse dificuldades para conseguir o passaporte. Sobre seus sentimentos nesses dias escreve no dia 1º de agosto de 1839 ao P. Marcos de Maria Santíssima, procurador em Roma da supressa Congregação Espanhola: "Eu não posso permanecer muito tempo na França: em primeiro lugar porque é muito provável que mais dia, menos dia, me faltem os meios de subsistência que tive até agora e em segundo lugar porque, enquanto houver um convento de minha Ordem no mundo, estou decidido a não permanecer no século. Sem dúvida, penso aguardar até meados do outono o desfecho de nossa desventurada Pátria e se até lá não me oferecer mais esperanças que no presente, espero que Vossa Reverência terá a bondade de dar-me sua bênção para que eu possa retirar-me a algum convento da Congregação da Itália, pois, para meu propósito, pouco me importa que o caráter, gênio e costumes de nossos padres italianos sejam diferentes dos nossos" [18] .

            E, precisamente no outono desse ano a Providência mostrou ao P. Domingo o caminho a seguir. A Madre Batilde do Menino Jesus, priora das Carmelitas de Bordéus, que há vários anos vinha tentando fazer algo pela restauração de seus irmãos de hábito na França, suprimidos desde 1793, sugeriu-lhe a idéia de organizar uma comunidade na casinha do capelão. O P. Domingo acolheu com entusiasmo a idéia e pôs mãos à obra em seguida. Em 14 de outubro de 1839, depois das primeiras Vésperas de Santa Teresa, ele sozinho tomou posse da casinha e começou a organizar seu novo convento. Dois meses mais tarde vieram, chamados por ele, seu compatriota e discípulo P. Luís do Santíssimo Sacramento e frei Manoel de Santa Teresa, ainda diácono, de quem fizemos menção acima. Porém, a situação jurídica era complicada pelo fato de os fundadores pertencerem à Congregação Espanhola e o território onde se encontravam pertencer à Congregação Italiana. Para esclarecer as coisas, o P. Domingo fez uma viagem a Roma. Expôs o caso ao Procurador da Espanha e ao Geral da Itália e ficou determinado que a nova casa ficaria encardinada à Congregação Italiana.

            Em 28 de novembro de 1840 (em recordação de 28 de novembro de 1568), inaugurava-se canonicamente a primeira fundação dos Carmelitas Descalços na França no século XIX. O fervor e o exemplo desta nascente comunidade encontrou eco em outros exclaustrados espanhóis e na juventude francesa que foi entrando em contato com eles e começaram a multiplicar-se rapidamente as fundações, de tal maneira que em 1853 já se erigia a província de Aquitânia com os conventos de Broussey, Agen, Carcasona, Bordéus e Montigny, com mais de 80 religiosos, metade deles franceses, e o P. Domingo como provincial. Após 20 anos da chegada do P. Domingo, as fundações realizadas na França eram 15. Em 1859, o P. Domingo foi eleito definidor geral e em 1865, Geral da Congregação Italiana. A adaptação do novo grupo na Congregação da Itália não poderia ter sido mais plena.

            Em março de 1867, o P. Manoel de Santa Teresa, prior de Agen na ocasião, teve que fazer uma viagem à Espanha, acompanhando um sobrinho enfermo. Ao chegar à sua terra natal e ver vazia aquela casa que tinha sido um florescente noviciado, sentiu, mais vivo do que nunca, o desejo de recomeçar na Espanha a obra de restauração que com tanto êxito vinham realizando na França já há quase um quarto de século. Fez uma viagem a Madri para preparar o terreno. Entrevistou-se com o P. Maldonado, Comissário Geral de todos os Carmelitas exclaustrados na Espanha, que o recebeu com gestos de simpatia e louvou sua idéia, e com dom Cândido Gaitán de Ayala, conde de Villafranca, que se  colocou incondicionalmente à sua disposição, oferecendo seus serviços à causa de Santa Teresa, com a mesma devoção que seu antepassado Antônio Gaitán.

            A fórmula com mais probabilidades de ser aceita era a de pedir à Rainha licença para fundar um Colégio de Missionários de Além-mar, com destino à Cuba, e assim se fez. Como lugar para a fundação indicava-se o convento de Lazcano, cujo proprietário, o marquês de Valmediano, se oferecia para restituir aos Carmelitas.

            O P. Manoel voltou dessa viagem cheio de alegria diante da perspectiva de uma fundação que dava já por concluída e com a gratíssima impressão de constatar que o povo tinha mantido viva a lembrança e a simpatia pelos Carmelitas, apesar de sua forçada ausência, pois ao andar com sua capa branca por Madri, Pamplona, Ávila, Alba de Tormes, Medina del Campo, Burgos, Vitória, San Sebástian, foram muitos os que lhe manifestaram o desejo de voltar a ter entre eles os filhos de Santa Teresa.

            Enquanto em Madri faziam-se os trâmites legais para obter a autorização, apareceram as primeiras dificuldades. O P. Manoel tinha feito o pedido em nome de sua província de Aquitânia e do Geral de Roma, Domingo de São José, sem pensar na bula de Clemente VIII que, ao fundar a Congregação Italiana em 1600, proibia seus membros de fundar na Espanha. E isso foi visto pelo P. Maldonado como uma intervenção injusta e um atropelo a seus direitos, motivo pelo qual tentou secretamente embargar o pedido do P. Manoel e conseguir a autorização para si. Foi um choque que muito fez sofrer os restauradores, mas não conseguiu deter sua marcha. Encontravam-se frente a frente duas forças muito desiguais: por um lado a concepção antiga e antiquada de Maldonado que continuava proclamando seus títulos jurídicos, mas não tinha feito nada de concreto durante os longos anos em que era Comissário, pelo contrário, tinha deixado que a Congregação se desintegrasse lentamente; por outro, a vitalidade renovada de Manoel e seus companheiros, que já tinham quase trinta anos de vida religiosa em comunidades criadas por eles do nada e em meio a sacrifícios e dificuldades. Não sabemos se mais alguém partilhava a opinião de Maldonado. Os exclaustrados, que seriamente continuavam desejando a restauração, tinham perdido a confiança nele e tinham colocado a esperança no Geral da Itália que, segundo eles, era o único que poderia intervir eficazmente enviando novas forças para que recomeçassem.

            O P. Goiri foi quem melhor nos descreveu a situação da Congregação Espanhola em 1867 (quando ainda viviam uns 500 dos que tinham sido exclaustrados em 1835). Animando o P. Manoel a não desistir de seu empenho fundacional por mais empecilhos que lhe colocasse o P. Maldonado, escreve-lhe em meados de 1867: "Não estranho o que me diz do P. Maldonado. Esse Padre, levando em conta sua intenção, meteu-se a político e esqueceu que é religioso. Vossa Reverência ouviu repetidas vezes durante sua viagem pela Espanha e em diferentes pontos, e repito-lhe por escrito o que lhe disse oralmente, a saber: para começar a restauração do Carmelo em nossa Pátria com bom êxito, é preciso que venham daí quatro ou seis espanhóis observantes que principiem a obra e espero em Deus que não faltarão noviços que se formem no espírito religioso. Não haverá nunca outra ocasião melhor que esta para fazer de toda a nossa Ordem um só corpo e sob uma só cabeça. O que chamam de Congregação da Espanha, com relação aos religiosos é só de nome, na verdade não existe. Quase todos os frades estão servindo de curas, de capelães de monjas ou estão com suas famílias, independentes e, por isso mesmo, depois de mais de trinta anos vivendo desta maneira, é moralmente impossível que queiram voltar à antiga observância, se esta for estabelecida como deve. Depois que Vossa Reverência foi embora houve um acontecimento muito positivo para as Ordens religiosas em geral. Na Câmara dos Deputados pediram a restauração das Ordens religiosas, com eloqüentes discursos defenderam-nas das calúnias com as quais seus inimigos as injuriaram. Mas o melhor é que o Ministro de Graça e Justiça, em nome do Governo, aceitou o pedido e reconheceu que é uma necessidade peremptória para a Espanha seu restabelecimento. Faça saber isso a N. P. Domingo. Suplique-lhe que se empenhe nesse negócio, que não esqueça que foi criado e formado por esta província. Parece-me que, se com o auxílio divino, restaurar nossa Ordem na Espanha, fará maior serviço para ela do que fez para esse reino da França" [19] .

            O P. Domingo obteve da Santa Sé, com data de 6 de junho de 1868, a autorização necessária para fazer uma fundação na Espanha, não obstante a bula de Clemente VIII, e com isso estava definitivamente aberta a porta para a restauração. Superadas as últimas dificuldades, em 7 de maio de 1868 foi autorizado ao P. Domingo  fundar, também em Madri, um "Colégio de Missionários de sua Ordem com destino à Ilha de Cuba" [20] .

            Como o marquês de Valmediano retirou suas boas palavras de ceder o convento de Lazcano, escolheu-se o de Marquina (1691-1839) para esta primeira fundação que, com a presença do Geral P. Domingo de São José, inaugurou-se solenemente em 14 de agosto de 1868. Em 23 de setembro, organizada já a vida conventual, eleva-se à categoria de priorado, tendo o P. Pedro José de Jesus Maria como prior e Manoel de Santa Teresa como subprior e mestre de noviços. Eram duas colunas firmes e experientes e o edifício cresceu rapidamente. Superadas as dificuldades jurídicas e organizativas do primeiro ano, em 8 de novembro de 1869, receberam o hábito os primeiros oito noviços, iniciando um processo de crescimento que se estendeu por toda a Espanha e também à América.

            Para prosseguir sem empecilhos a difusão das novas comunidades pelo território nacional (em Marquina já havia 40 entre estudantes e noviços), em 1874 pediu-se a Roma a supressão da antiga Congregação Espanhola. A Santa Sé o concedeu com o breve Lectissimas Christi turmas de 12 de fevereiro de 1875, colocando como condição aos exclaustrados que quisessem se agregar aos conventos que se estavam fundando que renovassem sua profissão segundo as Constituições da Congregação Italiana.

            Em 8 de junho de 1876 já se erigia canonicamente a semi-província de Navarra com os conventos de Marquina, Larrea, Ávila e Deserto de Las Palmas (único convento que sobreviveu na exclaustração). O P. Pedro José de Jesus Maria foi nomeado Vigário provincial. A partir desse momento as fundações prosseguem aumentando a velas soltas. Em 1879 restaura-se canonicamente a antiga província de São Joaquim de Navarra, da qual se vão desmembrando pouco a pouco: em 1889, a de Castela a Velha (com o P. Pedro José de Jesus Maria como provincial); em 1895, a de Aragão e Valência. Em 1905, erige-se a semi-província de Andaluzia e em 1906, a de Catalunha.

            O P. Silvério resume assim a situação depois de 50 anos da restauração de Marquina: "Desde a época da respectiva restauração todas as províncias vão progredindo lentamente. Ao todo têm oitenta e dois conventos e residências na Espanha, América e Índia inglesa (Ásia), dos quais dezesseis pertencem à província de Castela, dez (não incluímos os seis conventos que tinham antes da revolução do México, ocorrida nestes últimos anos) à de Aragão e Valência, quarenta à de Navarra, oito à de Andaluzia e nove à de Catalunha. Segundo o último censo de 1917, Castela tem 166 religiosos, Aragão e Valência tem 159, Navarra tem 449, Andaluzia tem 88 e Catalunha tem 73, que perfazem um total de 935. Sem contar os estudantes dos Colégios preparatórios, que são aproximadamente 150. Nos Apêndices publicaremos um quadro dos conventos que cada província possui, tanto na Espanha como em outros países" [21] .

            E a esses Apêndices eu remeto o leitor para mais pormenores, recordando unicamente que em 1927 se fundou, separando-a de Navarra, a província de Burgos, com o que temos o quadro completo da estruturação da Ordem na Espanha que chegou até nossos dias [22] .

            A restauração dos padres influenciou também nas fundações das monjas que, depois de mais de um século de pausa, retomam seu movimento de expansão, acrescentando neste mesmo período de tempo 16 novos conventos aos 80 herdados do século XVIII [23] .

            Enquanto se produzia na Espanha esse milagre, também no resto do mundo o Carmelo Teresiano dava mostras de renovada vitalidade. No capítulo geral de 1889, aparecem já representadas e em plena vitalidade as quatro províncias italianas de Gênova, Roma, Lombardia e Toscana, as duas francesas de Avinhon e de Aquitânia, restauradas por iniciativa do P. Domingo de São José, como vimos acima, e a de Flandres, Áustria, Baviera, Inglaterra, Irlanda e Bravante. O total de religiosos, incluídos os espanhóis era de 1.443. Logo são restauradas as províncias de Veneza (1896), Nápoles (1905), Polônia (1911) e fundam-se outras novas em Malta (1896) e Hungria (1903).

            Um duro golpe neste caminho de restauração receberam-no as florescentes províncias francesas com as supressões de 1880 e, sobretudo, de 1901, que obrigaram os Carmelitas da França a refugiarem-se na Espanha, Bélgica, Itália e nas missões do Oriente, podendo voltar à sua pátria só depois da primeira guerra mundial. Em 1921 funda-se a província de Avinhon-Aquitânia, que em 1932 divide-se nas duas atualmente existentes (elevadas à categoria de províncias no capítulo geral de 1947). Em troca, as províncias da Inglaterra e Irlanda fundem-se em uma só em 1927.

            Diante das medidas persecutórias de Bismarck, alguns Carmelitas Descalços da Baviera emigraram para a Holanda (1896) em busca de refúgio e em seguida foram para os Estados Unidos, colocando assim as bases das duas novas províncias da Holanda (1935) e de Washington (1940-1947).

            Os espanhóis, por sua vez, fazendo jus ao título de "Colégio para Missionários de Além-mar", com o qual autorizou-se a fundação de Marquina, foram-se estendendo por toda a América Latina: Cuba (1880), Argentina e Chile (1899), Peru e Uruguai (1910), Brasil (1911), onde no mesmo ano estabeleceram-se também religiosos da província Romana. A primeira fundação na Colômbia ocorre em 1911. Logo seguiram-se a do Equador (1929), Bolívia (1930), Panamá (1943) e Nicarágua (1945).

            Em Portugal, a província de Navarra iniciou a restauração em 1927.

            A província de Oklahoma erigiu-se em 1935 com religiosos provenientes de Aragão e Valência expulsos do México e a província Mexicana, de gloriosa e secular tradição, foi restaurada também em 1932.

            Das fundações realizadas pelos Carmelitas belgas no início do século (1902) em Kerala (Índia), nasceu em 1937 a província Malabar, à qual se acrescentou em 1964 a de Manjummel, como resultado da incorporação à Ordem de uma Congregação de terciários carmelitas de rito latino.

            A guerra espanhola causou gravíssimos danos sobretudo nas províncias de Castela, Catalunha e Aragão-Valência (104 religiosos mortos e muitos conventos destruídos) e a segunda guerra mundial deixou-se sentir sobretudo na Polônia, Áustria e Baviera.

            Ao cumprir seus quatro séculos de vida em 1962, a Ordem contava com 25 províncias, 3 semi-províncias e 7 missões, com 261 conventos e 3.978 religiosos, além de 55 residências missionárias com 239 missionários [24] .

 

CAPÍTULO XX

O CARMELO TERESIANO E A  RENOVAÇÃO DA VIDA 
RELIGIOSA PROMOVIDA PELO VATICANO II

            O novo núcleo que se desenvolveu na Espanha a partir de 1868 distinguiu-se desde o primeiro momento pela vitalidade e autenticidade que costumam caracterizar aqueles que sobreviveram depois de um duro período de prova. O ideal teresiano continuava fascinando as almas generosas e as circunstâncias históricas os impulsionaram de novo, como a seus irmãos de 1585, à conquista espiritual da América. Além disso, sua agregação jurídica à Congregação Italiana fazia-os entrar em contato com uma gloriosa tradição missionária e os sonhos frustrados no início do século XVII se fazem realidade no início do século XX. Já em 1894, os Descalços espanhóis fundam em Kottayan e em 1908 a província de Navarra encarregava-se da missão de Verapoly e do Seminário de Alwaye: João Vicente, Aureliano, Zacarias, são filhos da Igreja e de Teresa que não desdizem em nada aos mais ilustres teresianos do século XVI.

            O novo grupo encaixou-se perfeitamente na antiga Congregação Italiana e logo formou-se em todos a consciência de pertencer a uma única Ordem que renascia renovada das cinzas deixadas pela perseguição. Comparando os três momentos históricos compreendidos entre os anos 1560-1585 na Espanha, 1597-1623 na Itália e 1868-1908 a nível de Igreja universal, poderia-se falar quase de um terceiro nascimento do Carmelo Teresiano. Em pouco mais de quarenta anos voltou-se a formar na Espanha um grupo com mais de 900 continuadores do ideal de Teresa e a estatística geral sobe de 728 religiosos em 1870 para 3.100 religiosos em 1920. Diante de uma realidade histórica de tal importância é justa a seguinte pergunta: que influência exerceram nos protagonistas do renovado Carmelo Teresiano os três séculos de história que separam a fundação de Marquina da fundação de Duruelo? Em que medida se ressuscita o ideal das origens, ou se continua uma tradição, ou se responde a novas necessidades dos tempos? O tema presta-se a uma investigação ampla e rica de interesse que espera seu feliz realizador; as centenas de cartas inéditas que se conservam desde os primeiros passos da restauração constituem um estupendo ponto de partida.

            Na espera de que essa investigação se realize, quero adiantar umas breves considerações que sirvam de orientação na leitura de nossa historiografia do século XX.

            É um fato de importância capital que a Santa Madre, através de seus escritos, continuou sendo a mestra indiscutível e o ponto de referência obrigatório para todos. Mas, a esse dado há que acrescentar que, juntamente com os escritos da Madre Fundadora e de São João da Cruz, chegaram também às mãos dos restauradores a História oficial, as biografias do Santo e da Santa e outras obras inspiradas no século XVII (Costumes santos, Vademecum, etc.), que criaram um pouco de confusão em alguns, pois levavam a sério uma História que a tradição oral tinha ensinado durante os séculos anteriores a ler com precauções.

            Basta recordar um exemplo entre os muitos que se poderiam recolher, ainda hoje, dos lábios de religiosos mais idosos: o P. Hipólito da Sagrada Família, na maturidade de seus 80 anos, muitos deles dedicados a reunir documentação de primeira mão sobre as origens da Ordem, costumava contar-me que durante seu noviciado (1908), ao advertir a contradição manifesta que existia entre as cartas de Santa Teresa, que ele lia na cela, e as Crônicas que eram lidas no refeitório a propósito do P. Gracián, foi pedir uma explicação ao seu padre mestre, dizendo-lhe (seguramente com a mesma franqueza que conservou até o fim de sua vida) que o que o cronista contava era falso, pois a Santa Madre o desmentia. E o mestre respondeu-lhe que se ele não acreditava na História da Ordem era porque não tinha vocação...

            Que ninguém estranhe, por conseguinte, que o tema "Dória-Gracián" tenha feito correr muita tinta, também em nosso século, e continue dando ainda muito trabalho aos estudiosos. O P. Silvério, que já em 1904 começou a cultivar o campo de nossa história, e em 1915 foi nomeado historiador oficial, dedicou ao tema o tomo VI de sua História do Carmelo Descalço (1937), reunindo nele grande parte do material disponível, mas tratando, ao mesmo tempo, de deixar a todos contentes; mesmo que sua simpatia pelo P. Gracián seja manifesta. O P. Boaventura Gilabert (da província da Catalunha) perguntou-lhe em 1950 por que não tinha tomado uma posição mais nítida sobre as questões ventiladas no dito volume e o P. Silvério respondeu-lhe que os tempos ainda não estavam maduros para isso...

            Sem dúvida, os tempos foram amadurecendo pouco a pouco e logo começaram a flutuar os primeiros sinais. Basta ler o volume de cerca de 400 páginas que o P. Hipólito (1892-1976), de quem falávamos antes, terminou de preparar para a imprensa em 1945, intitulado: P. Jerôme de la Mère de Dieu Gratien. Coadjuteur de Ste. Thérèse - Etude historique-juridique, para dar-se conta de que a nível de investigação pessoal havia-se alcançado já uma visão clara das origens da Ordem. Porém, por diversas razões o volume ficou e ainda continua inédito. Por um caminho totalmente independente chegou, pouco depois às mesmas conclusões, o P. José de Jesus Crucificado (Valdivielso) (1914-1972), como se conclui, sobretudo dos cursos especiais sobre a evolução interna da Ordem, dados no Colégio Internacional durante os anos 1951-1952 e 1952-1953. Cursos, cujas conclusões o P. Silvério aprovou.

            Mas, para que essa consciência se estendesse a toda a Ordem e não continuasse sendo patrimônio exclusivo de uns poucos especialistas foi necessária a chegada do Concílio Vaticano II que, convidando a todos os religiosos a meditar sobre suas origens, a olhar para trás para seguir adiante na direção certa, brindou ao Carmelo Teresiano uma ocasião "única em sua história", como disse o P. Miguel Angel de São José, encerrando o Capítulo Especial em 28 de outubro de 1968.

            Uma leitura atenta dos discursos pronunciados pelos participantes no Capítulo Especial (1967-1968) e o exame dos trabalhos de consulta e de elaboração dos documentos levados a termo por diversas comissões durante o decênio 1966-1976 põem em evidência - como era perfeitamente previsível - que também o Carmelo Teresiano, neste momento transcendental de sua história, necessitava dessa revisão recomendada pelo Concílio, que ainda restavam resíduos de elementos que foram aderindo à visão teresiana da vida religiosa, que certas opções a nível teórico e prático realizadas nos séculos anteriores tinham chegado mais ou menos diluídas até nós.

            A afirmação pode parecer demasiado genérica e até supérflua se se considera a natureza de toda instituição humana, motivo pelo qual o leitor estará esperando, sem dúvida, alguns pormenores mais concretos. Compreendo seu interesse pelo argumento, como ele (o leitor) também compreenderá que não é este o tempo nem o lugar para uma análise completa, desde o ponto de vista histórico, do dito decênio. Para o fim a que se propõe este livro, bastarão algumas indicações que ajudem a compreender o significado e o imenso valor histórico do Capítulo Especial.

            A primeira questão proposta era, logicamente, a do papel de Santa Teresa na Ordem dos Carmelitas Descalços. Havia que voltar às origens? Todos de acordo. Mas, a que origens? Elianos ou teresianos? E aqui começava a diversidade de opiniões. Todos os que participavam da reunião constataram o fato, ainda que foram poucos os que se preocuparam em buscar suas raízes. Escutemos um testemunho direto: o P. Gustavo Vallejo, numas reflexões intituladas precisamente Santa Teresa: Fundadora ou Reformadora?, escreve: "Tão fascinante é este problema interno do Carmelo atual com relação a Santa Teresa que, sem intenções de abusar da confiança, o autor dessas linhas pode assegurar que no último Capítulo Geral da Ordem chegou-se a suscitar uma autêntica crise político-espiritual em torno dessas duas denominações teresianas: a ala francesa queria voltar para casa com uma Santa Teresa Reformadora de um ramo da antiqüíssima árvore eliano-carmelitana, diante do olhar complacente do ramo italiano; e, por outro lado, a ala espanhola queria romper e voltar para casa levando sua Santa Teresa Nacional e Fundadora de uns irmãos e irmãs, a quem simplesmente queriam chamar de Teresianos. Enquanto isso, outros não "comprometidos" tratavam de equilibrar o litígio, porém, não eram ouvidos. Por fim, um "acordo" se protocoliza no livro dos Decretos, admitindo a coexistência pacífica dos dois termos: o que significa que Santa Teresa, ainda que tenha "fundado" uma nova Ordem, nem por isso deixou o Carmelo Antigo" [25] . Esta impressão pessoal de alguém que participou no debate teria que ser bastante matizada à luz da documentação original; mas, aqui, mais que definir ou descrever com precisão o fato, interessa-nos buscar suas causas. E a alusão aos grupos lingüísticos nos dá a chave. Basta percorrer a literatura do século XX sobre a Ordem,